Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Perspectivas para o agronegócio

2017 deve ser melhor

Janeiro de 2017

O ANO de 2016 não foi fácil para as atividades agropecuárias brasileiras. Apesar do otimismo que existia no início do ano passado, o setor deve encerrar 2016 com uma forte contração. Em números, enquanto, na primeira semana de janeiro de 2016, o mercado projetava um crescimento de 2,0% para a produção agropecuária; as indicações, na última semana do ano, eram de uma contração de 5,8%. Caso tal projeção se confirme, terá sido a maior contração do setor na série histórica disponível no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com início em 1992.

Para 2017, o cenário de preços anteriormente descrito, combinado com a perspectiva mais favorável para o clima – embora esta projeção também possa mudar –, sustenta a projeção de um ano mais favorável para o setor. Todavia, um dos canais que mais contribuíram para o desempenho desfavorável do setor ao longo de 2016 continuará presente: o crédito continuará caro e mais exigente.

Por um lado, embora haja a previsão de que a taxa Selic deve prosseguir a sua trajetória de queda, encerrando o ano de 2017 em 10,50% a.a., ainda foi possível observar uma queda nas taxas de juros praticadas nas principais linhas de crédito ofertadas no mercado. Por outro lado, devido à crise fiscal, não há perspectiva de que o volume de crédito efetivamente concedido vá aumentar em 2017. Provavelmente, uma das alterativas para aliviar essa restrição serão os instrumentos privados de crédito, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), até o final de 2016, já tinham sido emitidos mais de R$ 6 bilhões por meio destes papéis.

A FRUSTRAÇÃO DA PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA EM 2016

No início de 2016, era comum entre os analistas a perspectiva de que as atividades agropecuárias eram o único grande setor da economia brasileira que poderia registrar algum crescimento ao longo do ano. Uma vez que as atividades agropecuárias tinham crescido 2,8% em 2014 e 3,9% em 2015, enquanto a economia brasileira estagnava em 2014 (0,5%) e encolhia em 2015 (-3,8%), havia a crença de que o universo agro passaria praticamente ileso pela forte crise econômica. Infelizmente, os números de 2016 colocaram em xeque esses argumentos. De acordo com a mediana das projeções da Pesquisa Focus do Banco Central, as atividades agropecuárias devem ter sido o setor econômico que mais encolheu (-5,8%) em 2016, ficando atrás da Indústria (-3,6%) e do setor de Serviços (-2,6%).

Perspectivas para o agronegócio

Embora ainda não haja dados completos de 2016, os números do Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária até julho de 2016 divulgados pelo MAPA sugerem que o ano foi complicado para a pecuária e para diversas culturas, com especial destaque para algodão, arroz, fumo, laranja, mandioca e milho. De forma agregada, até julho de 2016, a produção das lavouras encolheu 0,9%, e a da pecuária, 4,8%. Somadas as produções de ambos os segmentos, tem-se que o VBP do setor encolheu 2,3%.

O QUE DERRUBOU TÃO FORTEMENTE A PRODUÇÃO DO SETOR AO LONGO DO ANO?

Como foi visto, a contração da produção não foi um evento isolado em poucas cadeias produtivas. Logo, embora devam existir causas particulares que expliquem por que algumas culturas sofreram mais do que outras, está claro que houve fatores comuns a todo o setor que comprometeram seu desempenho em 2016. De uma perspectiva mais macro, dois fatores merecem especial destaque:

- Clima desfavorável: em 2016, observou-se uma distribuição bastante irregular das chuvas. Principalmente no primeiro semestre, houve um volume excessivo de chuvas em diversas áreas das regiões Sul e Sudeste e um volume abaixo do esperado para diversas regiões do Cerrado brasileiro.

- Mercado de crédito: provavelmente, o mercado de crédito tenha sido o principal canal de transmissão da crise econômica para o universo agro. No início da safra passada, os produtores depararam-se com um crédito mais caro, tanto nas linhas - oficiais, quanto nas demais fontes de financiamento disponíveis no mercado. Do lado das linhas oficiais, a forte crise fiscal implicou uma concessão menor e mais exigente de crédito para o setor. Do lado do crédito privado, a permanência da taxa Selic em patamares elevados ao longo de praticamente toda a safra fez com que o financiamento fora das linhas oficiais também ficasse menos atraente.

E PARA 2017? O QUE DEVEMOS ESPERAR?

Fazer previsões é uma atividade de risco, e, tal como em 2016, pode haver frustrações. Todavia, com as informações disponíveis até o final do ano, as expectativas do mercado sugerem que 2017 deverá ser um ano melhor para o setor. De acordo com as projeções da Pesquisa Focus do Banco Central, os analistas estão projetando uma expansão das atividades agropecuárias entre 0,4% e 5,0%, com mediana em 3,6%. Estes números indicam que o mercado voltou a acreditar que o universo agro deverá ser o setor com o maior crescimento em 2017. Na realidade, as atividades agropecuárias são o único setor para o qual o mercado descarta a possibilidade de uma nova contração em 2017 – o que, se confirmado, levará a uma contração do PIB pelo terceiro ano consecutivo.

Do lado macro, há alguns fatores que justificam as projeções favoráveis ao setor em 2017. Entre eles, merecem destaque:

- Razoável estabilidade nas cotações das - commodities- agrícolas no mercado internacional: parece que o mercado já precificou as elevações das taxas de juros dos Estados Unidos previstas (na verdade, praticamente já anunciadas pelo Banco Central norte-americano). Em condições normais, por apreciar o dólar e tornar os títulos da dívida deste país mais atraentes, uma elevação da taxa de juros norte-americana tende a contrair as cotações das - commodities- agrícolas. Todavia, parece que o mercado já precificou os novos aumentos nesta taxa de juros, pois, de acordo com as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), em geral não deve haver fortes contrações nos preços das - commodities- agrícolas no mercado internacional.

Perspectivas para o agronegócio

- Tendência de leve depreciação do real: de acordo com as projeções da Pesquisa Focus do Banco Central, o mercado prevê que a taxa de câmbio deve terminar janeiro em R$ 3,39/US$ e encerrar 2017 em R$ 3,45/US$. Naturalmente, a incerteza ainda é muito grande, pois, considerando o desvio-padrão dessas projeções, a taxa de câmbio pode terminar 2017 entre R$ 3,07/US$ e R$ 3,83/US$.

Enfim, se 2016 foi um ano duro para o setor (na verdade, para toda a economia brasileira), as perspectivas para 2017 são bem mais animadoras. Infelizmente, o mesmo não vale para o restante da economia.

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