Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Mario Sergio Cutait

Cobrar um plano de governo dos candidatos

Janeiro de 2018

MARIO SERGIO CUTAIT, Diretor Titular Do Departamento De Agronegócio Da Federação Das Indústrias Do Estado De São Paulo (Deagro/Fiesp)

Entramos em 2018, e a grave crise econômica dos últimos três anos dá sinais de abrandamento e um ciclo de recuperação descortina-se no horizonte. Os desdobramentos das eleições de outubro próximo representam, provavelmente, um dos maiores pontos de incerteza para os próximos meses. A Agroanalysis foi ouvir Mario Sergio Cutait, diretor titular do Departamento de Agronegócio (Deagro) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e, também, diretor responsável das unidades de Nutrição e Saúde Animal e do desenvolvimento da unidade de Produção e Abate de Tilápias da MCassab. O entrevistado analisa os desafios do País, principalmente no agronegócio.

AGROANALYSIS: PASSAMOS 2017 E ENTRAMOS EM 2018. O CENÁRIO É DE MUDANÇA?

MARIO SERGIO CUTAIT: Tivemos um ano bem atípico em 2017. Começamos cercados de ansiedade e expectativa com o novo governo. Havia a esperança de continuidade nas reformas pelo Congresso Nacional. Ao contrário disso, veio uma avalanche de denúncias e gravações com envolvimento de executivos de empresas e lideranças políticas do governo. A operação Carne Fraca foi um balde geral de água fria, com impacto direto e negativo nas exportações de carnes. No segundo semestre, a economia descolou da crise política e retomou o seu ciclo de recuperação.

Entramos em 2018 com um quadro conjuntural bem mais favorável, quando consideramos as perspectivas de baixas taxas de inflação e taxas de juros. O nível de desemprego segue alto, mas mostra sinais de queda. A ocorrência das eleições pode ser considerada o fator mais instável, com prováveis repercussões na taxa de câmbio conforme o caminho tomado. Até lá, não sentimos, no ambiente de negócios, uma propensão para os investimentos na indústria em geral. Será, primeiramente, aproveitada a capacidade ociosa existente.

ALGUMA RECOMENDAÇÃO SOBRE AS ELEIÇÕES?

MSC: Querendo ou não, enfrentaremos esse processo eleitoral. Poderemos ter uma posição mais incisiva na cobrança dos candidatos de um projeto de Estado. No agronegócio, em particular, sabemos do papel potencial que tem o Brasil na produção de alimentos e energia renovável. A mídia divulga isso diariamente. Não se trata de novidade para ninguém. O mundo consumirá mais 60% de alimentos, dos quais 40% virão daqui. Então, nada mais natural do que cobrar sobre o que, como e onde produzir.

A dúvida não está na capacidade de geração e adoção de tecnologia para o campo e a agroindústria, mas sim na infraestrutura. Temos uma linha mestra sobre a necessidade de recursos financeiros, alinhada à visão do setor privado. A premissa está no fato de sermos imbatíveis em qualidade e custo no agronegócio, porém precisamos agregar valor aos nossos produtos.

ONDE ENTRA A CERTIFICAÇÃO NESSA VISÃO?

MSC: O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) acaba de lançar o selo Agro Mais Integridade. Trata-se de um prêmio de reconhecimento às empresas e às entidades do setor responsáveis pela adoção de práticas de gestão a fim de evitar desvios de conduta. É uma reposta à operação Carne Fraca, cujo escopo, de verificar os trabalhos dos frigoríficos, colocou em xeque a imagem da agricultura e da pecuária do Brasil.

Somos totalmente favoráveis a essa iniciativa. O mundo atual exige informações e comunicação transparentes nos negócios. Mas, nos meios tradicionais de comunicação e espalhados na mídia online, o fenômeno das fake news faz parte da nossa realidade corrente. Então, o MAPA precisa formar capital humano e fornecer as ferramentas modernas para os seus funcionários realizarem um trabalho competente. Devemos trabalhar de mão dadas com o Governo. A participação brasileira no comércio internacional está abaixo de 1%.

SOMOS LIBERAIS OU PROTECIONISTAS NO AGRONEGÓCIO?

MSC: Falamos da necessidade de cobrarmos um plano de governo dos candidatos na próxima eleição de outubro. Somos diversificados e expressivos em importantes commodities agropecuárias. Em nossa lógica, pensamos sempre em crescermos e ampliarmos as nossas exportações. Nesse raciocínio, precisamos fazer uma revisão bem crítica. No fundo, não se trata de uma estratégia exclusiva, pois o objetivo da grande maioria dos países é o de simplesmente exportar.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) desenvolve um trabalho hercúleo com o objetivo de obter consenso de quase 170 países nas negociações. Mas, o seu trabalho sempre representou um avanço para as transações mundiais. O questionamento para o agronegócio é se seremos liberais ou protecionistas no mercado internacional. Estamos preparados para importar borracha, café, camarão e trigo, dentre outros produtos? Para argumentarmos nas rodadas de negociação, teremos de tratar de cotas e tarifas não só nas exportações, como também nas importações.

COMO OLHAR A INOVAÇÃO NA NUTRIÇÃO ANIMAL?

MSC: Este tema entrou na agenda e continuará a ser considerado como de muita importância nos próximos anos. A alimentação representa aproximadamente 70% dos custos da proteína animal. É uma participação muita alta, que chama a atenção dos empresários. Por isso, um dos grandes desafios dessa indústria consiste na implantação de estratégias para se manter eficiente e sustentável. No final da cadeia produtiva, isso impacta positivamente no menor preço pago na rede varejista pelo consumidor. Ganha a sociedade.

Somente com um esforço constante na adoção das melhores tecnologias os resultados aparecerão. Daí o slogan recente de “produzir mais produtos com menos recursos, a um custo justo para o consumidor”. Nesse trabalho, temos, também, que priorizar a defesa da Ciência. As decisões não podem ser norteadas pelo desvio ideológico. Devemos fazer um trabalho de comunicação de forma proativa junto à sociedade. A boa imagem do alimento oferece segurança para o consumidor; daí a importância das regras estabelecidas pelo Codex Alimentarius na OMC e da Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos.

A PROTEÍNA ANIMAL CRESCE MUITO NO MUNDO?

MSC: Sim. E esse processo somente se acentuará nas próximas décadas, diante de uma taxa de urbanização maior nos países e do ganho de renda da população, principalmente no continente asiático. Tivemos um incremento expressivo no consumo de proteína animal nos últimos quarenta anos. Se fizermos uma projeção para o horizonte de 2050, como mostram as estimativas apontadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os números aumentam próximo de quatro vezes.

ESTES NÚMEROS PODEM SER VALIDADOS?

MSC: Uma das nossas maiores preocupações com relação ao futuro do setor sempre foi o rigor na apresentação das estatísticas e no uso de metodologias comuns. Isso é essencial para que haja uma melhoria nas perspectivas e nas estratégias de médio prazo, quando se analisam os próximos dez a vinte anos. Apesar dos esforços dispendidos, falta ainda, por exemplo, um acordo quanto aos números da produção global de alimentos compostos para animais. A área de aquicultura pode ser considerada como uma das mais críticas.

Temos de reverter essa situação. Para tanto, a Divisão de Estatística da FAO e a International Feed Industry Federation (IFIF) passaram a colaborar na coleta, na análise e na validação de estatísticas de global feed. O objetivo é alcançarmos a harmonização das estatísticas de alimentação global. Essa é uma responsabilidade que cabe a toda a cadeia alimentar, que, no conjunto, possui o dever de garantir alimento sustentável, seguro e nutritivo.

E AS EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS?

MSC: Em nosso trabalho no Deagro, da Fiesp, participamos de três experiências muito ricas, com o Outlook Fiesp – Projeções para o Agronegócio Brasileiro, o Índice de Confiança do Agronegócio (IC Agro) e o Food Trends. Os dois primeiros servem de referência aos downloads registrados nos indicadores de busca da Fiesp. Em seus lançamentos, são mais de 100 mil acessos. Com relação ao terceiro, estamos planejando a formatação de um trabalho futuro.