Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

ANDEF

Desafio 2050 e os objetivos de desenvolvimento sustentável

Janeiro de 2018

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO AGRONEGÓCIO (ABAG)

Chama a atenção, no mundo, a capacidade brasileira de inovação no campo do agro. Desenvolvemos práticas extraordinárias na tecnologia tropical. No entanto, as políticas públicas possuem dificuldade para acompanhar essa dinâmica. Falamos, por exemplo, da desatualização do crédito rural para atender a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF), com o uso intensivo de solos praticamente durante todo o ano com várias culturas.

Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – duas entidades de renome internacional – mostram o peso e a relevância do Brasil para os próximos anos.

Vivemos um momento tenso e ansioso com a eleição presidencial, de governadores e parlamentares do Congresso no próximo ano. Os vencedores terão de ter a visão de um país que se diferenciou no agro com ciência, pesquisa e produtividade. Esse processo deve persistir, assim como na área de infraestrutura e logística, com políticas públicas e de regulação para podermos ofertar com competitividade os alimentos e as energias renováveis demandados pelo mundo.

EDUARDO LEDUC, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFESA VEGETAL (ANDEF)

Os participantes desse Desafio 2050 compartilharão as suas visões sobre esta agenda para a erradicação da fome. Quando pensamos nos desafios dessa ambição, vem-nos à mente a complexidade da produção no campo. Olhamos para a figura do agricultor, aquele com a responsabilidade de produzir com cada vez mais segurança. Temos muito orgulho de conseguir reunir todos esses profissionais gabaritados.

ALBERTO AMORIM, COORDENADOR-GERAL DAS CÂMARAS SETORIAIS E DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO DO ESTADO DE SÃO PAULO

O tema deste evento é fulcral para o desenvolvimento do País e do mundo. Em 1970, tínhamos proprietários rurais e ouvíamos dizer “o Brasil será o celeiro do mundo". Naquela época, importávamos comida. Hoje, somos um dos grandes players internacionais, no top dos produtos agrícolas, com cenário futuro bom.

Esperamos que o resultado deste evento provoque uma próxima edição ainda mais aprimorada, em condições ainda melhores para as cadeias produtivas de valor, com foco no cerne das questões, que tragam educação e cultura para o setor.



PAINEL 1: VISION 2050

ALAN BOJANIC, REPRESENTANTE DA FAO NO BRASIL

O projeto Visão 2050 estabelece nove áreas críticas de ação para se trabalharem e atingirem resultados nas próximas décadas: valores e comportamentos; desenvolvimento humano; poder e energia; agricultura; florestas; economia; construções; mobilidade; e materiais.

Falamos de uma população de 9,8 bilhões para 2050, que se estabilizará em 11,2 bilhões em 2100. A produção de alimentos terá de aumentar em 70%. O crescimento ocorrerá nos países menos desenvolvidos, com previsão de maiores renda e consumo.

O relatório da FAO e da OCDE projeta para o horizonte das safras 2016/17 e 2025/26 um aumento na produção de grãos (milho, trigo, arroz e cereais secundários) de 2,6 bilhões de toneladas para 2,8 bilhões. O Brasil contribui com 8% deste total.

Quando comparamos esse período com 2007-2016 e 2017-2026, assistimos a uma diminuição na taxa de crescimento da produção e da demanda em diversos produtos básicos (cereais, carnes, pescados, laticínios, raízes e tubérculos, açúcar e azeite). Esta tendência também acontece com os preços.

Depois da crise financeira de 2007 e 2008, os preços dos alimentos tiveram queda e se estabilizaram. A tendência de longo prazo é de pequena redução. A demanda da China, depois de um período de crescimento, começou a se estabilizar. Para os próximos anos, espera-se uma ascensão da Índia.

Terceiro grande exportador de alimentos, a tendência do Brasil é superar os Estados Unidos em termos de volume, mas não em receita. A Europa, grande exportador de produtos com valor agregado, deve crescer em produtividade. Apesar de grande exportador, o Brasil é pequeno importador de alimentos, embora disponha de 60 milhões de hectares degradados para incorporar na produção.

Com limitações em área, a China segue como o maior exportador mundial de peixes. Os Estados Unidos continuarão fortes em grãos, sendo grandes competidores da soja brasileira. Quatro países são as opções para fornecer esses 70% a mais de grãos necessários para 2050: Brasil, Argentina, Ucrânia e Canadá. Em termos de expansão de área, destacam-se a Argentina e o Brasil.

Como notícia ruim, o relatório de 2017 da FAO aponta um aumento da fome no mundo, depois de vinte anos de queda. A insegurança alimentar caiu de 15,0% para 10,6% entre 2000 e 2015. Depois, entre 2015 e 2016, subiu de 777 milhões de pessoas para 815 milhões.

CARLA BRANCO, GERENTE DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (CEBDS)

No Brasil, o CEBDS representa o World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), sediado na Suíça. É uma Organização Não Governamental (ONG) criada no Rio de Janeiro, em 1997. No Brasil, fomos a primeira instituição a: (i) tratar de sustentabilidade por meio do conceito de triple bottom line, associado aos três pilares (ambiental, econômico e social); e (ii) preparar um relatório empresarial de sustentabilidade para o ano em questão.

O WBCSD, criado durante a Eco-92, foi o responsável pelo Vision 2050, publicado em 2010. Em 2012, o CEBDS tropicalizou este material, durante a realização da Rio+20, com o Visão Brasil 2050 – a nova agenda para as empresas. Em 2015, surgiu a agenda de 2030 da ONU, ou seja, cinco anos depois do surgimento do Vision 2050.

Junto com o WBCSD, lançamos o Climate-Smart Agriculture (CSA), que visa ao aumento sustentável da produtividade e da renda agrária, à adaptação e ao aumento de resiliência às mudanças climáticas e à redução das emissões de gases do efeito estufa.

Temos como pontos desejáveis até 2030 o aumento em 50% na quantidade disponível de alimentos e o fortalecimento da resiliência das comunidades agrícolas. Pretendemos reduzir as emissões derivadas da agricultura e das mudanças derivadas da agricultura comercial em 50%, o correspondente a 3,7 gigatoneladas de carbono equivalente por ano até 2030, e 65% até 2050.



PAINEL 2: DESAFIOS

PRODUZIR COM QUALIDADE E SUSTENTABILIDADE

LUIZ LOURENÇO, PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA COCAMAR COOPERATIVA AGROINDUSTRIAL

Gostaríamos de ver o cooperativismo avançar. O sistema recupera e melhora as condições de vida de uma população. O Paraná é um exemplo de grandes cooperativas bem gerenciadas e muito profissionalizadas, com crescimento constante e contínuo.

Espalhada pelo norte e pelo noroeste do estado do Paraná, com 13,2 mil associados, 2.366 colaboradores, 1,2 milhão de toneladas como capacidade armazenadora e 2,4 milhões de toneladas no recebimento de grãos, a Cocamar faturou, no ano passado, R$ 3.750 milhões. Nessa região, predomina a pequena propriedade. A cooperativa funciona como uma grande fazenda, na compra de insumos e na venda da produção. Essa escala oferece maior poder de negociação.

No Brasil, há uma quantidade enorme de áreas pecuárias com produtividade e faturamento baixos. Trata-se de áreas de arenito de difícil manejo em São Paulo, no Paraná e no Mato Grosso. Com tecnologia desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), essa realidade está em mudança no Paraná, na região do arenito Caiuá, com 3,2 milhões de hectares, dos quais 70% estão ocupados com pecuária e 40% degradados e em degradação. Por ano, a produção média da propriedade rural é de 4 arrobas por hectare (@/ha), com faturamento de R$ 520,00.

Começamos o trabalho de intensificação da produção da propriedade em 2012, com a utilização da soja para melhorar o solo e, depois, fazer a pecuária de inverno. A Embrapa calcula a existência de 50 milhões de hectares no Brasil para a realização desse tipo de trabalho.

Nesses anos, com a disseminação do sistema de integração lavoura-pecuária, a receita das propriedades aumentou cerca de oito vezes, com a produção de 8 @/ha mais a plantação de soja. Um dos projetos de referência no Brasil é o da Fazenda Santa Brígida, no estado de Goiás. Entre as safras 2006/07 e 2015/16, a produtividade por hectare avançou no milho (de 90 sacas para 193), na soja (de 45 sacas para 74) e na pecuária (de 2 para 28 arrobas).

Iniciada em 2012, temos uma bem-sucedida parceria público-privada, a Rede Fomento da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (Rede ILPF), formada entre as empresas Cocamar, Dow AgroSciences, John Deere, Parker, Syngenta e Embrapa. Seu objetivo é acelerar a adoção dos sistemas de iLPF por produtores rurais como parte de um esforço para a intensificação sustentável da agricultura brasileira.


COMBATER O DESPERDÍCIO

ALAN BOJANIC, REPRESENTANTE DA FAO NO BRASIL

Estima-se que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos é desperdiçado no mundo. Deste montante, o desperdício de 630 milhões de toneladas acontece em países industrializados, enquanto 670 milhões naqueles em desenvolvimento. Isso é equivalente a 30% dos alimentos e a 15% das calorias totais produzidas, inclusos alimentos para alimentações humana e animal.

As perdas na América Latina, de 127 milhões de toneladas, correspondem a 15% dos alimentos produzidos na região e 6% em nível mundial. Os desperdícios acontecem em 28% na produção, 22% no manuseio e no armazenamento, 17% na comercialização e na distribuição, 6% no processamento e 28% no consumo. Só os alimentos desperdiçados no varejo dariam para alimentar mais de 30 milhões latino-americanos.

Esses números precisam ser atualizados, pois se baseiam em estudos realizados em 2011.

As perdas e os desperdícios estão relacionados com as questões de melhorar as infraestruturas de armazenagem, de transporte e portuária. As suas implicações são gerais, pois impactam a sustentabilidade dos sistemas alimentares, reduzem as disponibilidades local e mundial de alimentos, interferem negativamente na nutrição e na saúde, diminuem a renda dos produtores, aumentam os preços para os consumidores e afetam o meio ambiente pelo uso ineficiente dos recursos naturais.

Nas questões ambientais, os alimentos produzidos por 30% das terras agricultáveis do mundo não são consumidos. Isso diminui a eficiência no uso dos recursos naturais e interfere nas mudanças climáticas, com as emissões de gases do efeito estufa.

Entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030, o de número 12 trata da produção e do consumo sustentáveis, para reduzir pela metade as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e abastecimento, inclusive as perdas pós-colheita, do varejo ao consumidor.

As principais ações praticadas pela FAO envolvem: o incentivo ao consumo de frutas, hortaliças e verduras “feias" ou amassadas; pesquisas sobre técnicas de manejo e pós-colheita; aumento da validade dos produtos; embalagens inteligentes; desenvolvimento de alimentos funcionais; e educação alimentar.


PAINEL 3: MITOS E FATOS

O objetivo de fazer com que os fatos se sobreponham aos mitos é quase uma batalha perdida. Os mitos falam à emoção, e os fatos falam à razão. Nesta briga, os primeiros vencem os últimos. Esse é o desafio que lançamos para este debate.


NUTRIÇÃO E SAÚDE

FILIPPO PEDRINOLA, MÉDICO ENDOCRINOLOGISTA

Vivemos uma era de terrorismo nutricional e de pseudociência difundidos pela mídia. Na Medicina, precisamos basear-nos em publicações científicas validadas. Um dos seus primeiros princípios é “primum non nocere".

Perguntamos por que algumas pessoas envelhecem mais rápido. A idade cronológica não muda, mas a idade biológica sim, com as escolhas feitas para se alimentar, fazer atividades físicas regulares e administrar as emoções e a espiritualidade.

Somos 99,9% iguais geneticamente. Esse 0,1% de diferença é o chamado polimorfismo genético. O nosso DNA não muda, mas, de acordo com as escolhas, a epigenética pode despertar genes bons e ruins, com impacto na saúde.

Estudos mostram por que um dos gêmeos idênticos criados em diferentes situações econômicas e sociais pode ter câncer ou infarto se a genética é a mesma. Isso foi motivo de publicação e capa da revista Time em 2010.

Em termos de bem-estar, no primeiro pilar aparece a alimentação saudável, com pouca gordura saturada e carboidrato refinado, mas com muitos prebióticos e probióticos. Os chineses já diziam que a saúde começa pelo intestino, nosso segundo cérebro. Além de abrigar 70% do sistema imunológico, lá são produzidos cerca de 90% da serotonina, mensageiro químico do bem-estar.

Esses fatores interferem na microbiota, nas bactérias boas e ruins. O desbalanço na flora intestinal acarreta uma situação chamada de intestino permeável, com a entrada de antígenos e intolerâncias alimentares como ao glúten e à lactose. Essa inflamação silenciosa causa doenças cardiovasculares, diabetes, pressão alta e câncer.

Quando digeridas, as proteínas transformam-se em aminoácidos para ajudar na formação dos músculos. Já os açúcares acumulam-se na forma de gordura. As frutas, as verduras e os legumes, com as suas vitaminas e fibras, geram energia, saúde e bem-estar. As gorduras boas, como o ômega-3, melhoram o colesterol bom, enquanto as gorduras e os ácidos graxos saturados levam a excesso de gordura.

O índice glicêmico mostra como a velocidade do carboidrato ingerido impacta no aumento da glicose no sangue. A ingestão de carboidratos refinados provoca produção alta de insulina, hormônio anabolizante do corpo, com acúmulo de gordura na região abdominal. Isso desencadeia doenças.

A carga glicêmica leva em conta os índices glicêmicos das refeições para fazer uma média. Então, pode ser melhor comer uma sobremesa durante a refeição do que apenas no meio da tarde.

O padrão alimentar saudável reduz o risco de doenças crônicas. Se existisse uma dieta boa para todo mundo, não haveria tantos artigos e livros sobre esse assunto.

Um segundo pilar é o pilar emocional. O estresse entra na vida das pessoas de forma sorrateira. Uma das técnicas usadas para combatê-lo é a meditação, com uma alimentação mais consciente. Trata-se de atentar não só para o que comemos, mas para como comemos.


EFICIÊNCIA NO USO DA TERRA E DOS INSUMOS

CAIO CARBONARI, PROFESSOR NO DEPARTAMENTO DE PRODUÇÃO E MELHORAMENTO VEGETAL DA FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRONÔMICAS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA (DPMV/FCA/UNESP), NO CAMPUS DE BOTUCATU

Estamos com eficiência no uso da terra. A produção brasileira cresce em ritmo mais acentuado do que a expansão das terras plantadas. Isso contribui para a sustentabilidade na agricultura. Continuaremos esse processo com ciência, tecnologia e inovação.

Com uma abordagem simplista e irresponsável, insere-se, na opinião pública, a informação de que o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Na prática, isso não significa nada de relevante. Quando comparamos o consumo à área cultivada no Brasil, caímos da primeira para a sétima posição. Passam à nossa frente Japão, Coreia, Alemanha, França, Reino Unido e Itália. Se correlacionarmos o consumo com a produção agrícola, passamos para a décima primeira posição.

Desde 2004, mostramos uma tendência clara de estabilizar o consumo de agrotóxicos no Brasil. A área plantada e a produção crescem, enquanto o consumo de agrotóxicos segue bastante estabilizado. Precisamos avançar na análise de risco, na relação perigo versus exposição. Na literatura científica internacional, existe o Coeficiente de Impacto Ambiental (EIQ, na siga em inglês) do uso de agrotóxicos.

Tomamos o banco de dados do consumo de agrotóxicos de 2002 a 2015 para quatro culturas importantes no Brasil: soja, milho, algodão e cana. Falta atualizar para 2016. Tivemos uma queda de 52% para o componente trabalhador e 33% para o componente ambiental. Na média, a redução ficou em 37%.

Quando comparamos esses índices com os das principais regiões do mundo produtoras de soja, milho e algodão, a nossa situação é igual à dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa.


SEGURANÇA DOS ALIMENTOS

ELIZABETH NASCIMENTO, PROFESSORA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FCF/USP)

Os alimentos são uma necessidade vital e, também, uma fonte de prazer. Neste segundo contexto, são, ao mesmo tempo, a nossa redenção e a nossa perdição, indo diretamente do jardim do Éden a problemas cardiovasculares, obesidade e intoxicações.

O pesquisador Kroes dizia que, “no caso do alimento, a exposição é intencional". Não comer causa mais riscos à saúde do que comer e acarreta riscos muito maiores do que aqueles causados pela maioria das substâncias químicas nocivas presentes nos alimentos. Os alimentos podem conter bactérias, vírus, fungos, protozoários e leveduras. Ao longo dos séculos, controlamos o uso dos vegetais e das carnes sem acarretar problema.

Em eventuais excessos, causam problemas os aditivos (corantes, conservantes e antioxidantes, dentre outros) e os contaminantes (resíduos de metais e medicamentos, praguicidas etc.).

Todas essas substâncias precisam ser compreendidas e assimiladas. Há quinhentos anos, Paracelso falava que “as substâncias são todas tóxicas, dependendo da dose".

O risco é a probabilidade de uma substância produzir dano em determinadas condições. Corresponde à relação toxicidade versus exposição. Já a segurança é a probabilidade de a substância não produzir dano em determinadas condições. Não existem risco zero nem segurança absoluta.

As empresas e os órgãos regulamentadores utilizam o conceito de risco químico. Trata-se de uma estimativa entre a exposição a um agente químico ou físico e a incidência de algum resultado adverso. A Ingestão Diária Aceitável (IDA) permite que o indivíduo se exponha a uma substância todos os dias da sua vida sem sofrer dano.

As substâncias químicas presentes em alimentos, quando em altas doses, podem acarretar um efeito agudo. Por isso, existem limites máximos para resíduos e aditivos. A dificuldade está em captar a percepção da sociedade com relação à exposição crônica.

Do ponto de vista da Ciência, contamos com instrumentos para definir limites máximos permitidos de acordo com o conceito de IDA, que são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Codex Alimentarius etc.

A partir da avaliação do risco, existem o gerenciamento e a comunicação para mudar a percepção das pessoas em relação aos riscos que elas correm.


ORGÂNICOS E CONVENCIONAIS

LUIS MADI, DIRETOR DO INSTITUTO DE TECNOLOGIA DE ALIMENTOS (ITAL)

Como deseja saber de tudo, o consumidor fica desorientado. Estudos de mercado no Brasil da empresa HealthFocus apontam que 50% dos consumidores cansaram de receber informação. Eles querem decidir e ter informações mais confiáveis. Um trabalho da Kantar de junho último mostra perda de confiança nas mídias e nos aplicativos, assim como a necessidade de bons veículos se protegerem de fake news.

Trabalhamos há dez anos nessa posição de inserirmos informações técnicas e científicas para o consumidor. Basta verificar no site do ITAL. Não é tarefa fácil. Os mitos afastam consumidores de produtos seguros e de qualidade, por aqueles acharem, erroneamente, que estes podem causar prejuízo à saúde.

Felizmente, aparecem boas publicações. Podemos citar os livros “Food Myths Debunked", de James Cooper, “Agradeça aos Agrotóxicos por Estar Vivo", de Nicholas Vital, “A Mentira do Glúten", de Alan Levinovitz, e “In Defense of Processed Food", de Robert Shewfelt.

No estudo “Ingredients Trends", em 2014, levantamos a necessidade de regulamentar alguns itens relacionados aos produtos naturais e orgânicos. Fizemos uma comparação sobre as partes nutricional e sensorial dos diversos produtos. Havia alegações de que alimentos orgânicos sejam mais saudáveis e nutritivos. Não constatamos evidências científicas disso.

Tanto para o sistema orgânico, como para o tradicional e convencional, as normas e as regras são importantes. Na Secretaria de Agricultura, procuramos incentivar a agricultura familiar na produção de orgânicos, mas será por meio da convencional que teremos alimentos seguros e saudáveis para a sociedade.

ROBERTO KOVALICK

Fizemos uma reportagem para o Jornal Nacional da TV Globo no dia de divulgação da pesquisa da Kantar. Ficamos felizes com o fato de as pessoas procurarem a imprensa tradicional. Significa que teremos emprego por mais tempo. Como jornalistas, consideramos desafiador levar uma determinada mensagem para um público cercado de mensagens enviadas para conquistar a sua atenção. O grande interesse existente em relação a comida representa uma boa notícia e oportunidades pata todos nós.



CAMINHOS PARA CHEGAR A 2030 E 2050

MAURÍCIO LOPES, PRESIDENTE DA EMBRAPA

Felizmente, com esse avanço exponencial da tecnologia, as rupturas aparecem no horizonte. É desafiante pensar sobre as trajetórias desejadas para o agro e o País. Apesar das incertezas, podemos tomar múltiplos caminhos.

Novidades complexas emergem a todo o tempo. Não dá para desfazer tudo hoje e fazer o novo amanhã. Em nosso radar, a noção de trajetória aponta as direções preferenciais para onde queremos ir e para ganharmos capacidade para antever o futuro potencial.

Os 17 ODS da agenda 2030, talvez, sejam o estudo mais poderoso feito pela sociedade moderna. Os seus conteúdos e metas são complementares e interdependentes. Em nossas viagens, ficamos impressionados com a sua capacidade de integração de esforços e operação uníssona.

Na Embrapa, temos o desafio de avaliar o estado da arte da nossa programação e o grau de alinhamento aos ODS. Perguntamos se miramos alvos que fazem sentido em relação a essa visão emergente da sociedade. Muitas empresas e instituições buscam a mesma coisa.

Não falamos somente de agricultura e alimentação. Os ODS possuem uma conexão com o futuro e o mundo da agricultura e da alimentação. Tentaremos dar um flash dessa agenda.

O objetivo 1 trata da pobreza, sendo que 80% das pessoas pobres vivem em áreas rurais. O objetivo 2, relativo à fome, aponta para o fato de que há uma produção abundante de alimentos no mundo, mas, ao mesmo tempo, 800 milhões de pessoas não desfrutam disso no mundo. O objetivo 3, relativo à saúde, mostra a importância da nutrição e, portanto, da agricultura e da alimentação. No objetivo 4, a alimentação oferece qualidade para a educação nas escolas. No objetivo 5, aponta-se que as mulheres produzem a metade do alimento no mundo, mas ainda padecem de preconceito e exclusão.

Nesse raciocínio, tem-se a contribuição da agricultura sustentável para reduzir a escassez de água (objetivo 6) e gerar energia (objetivo 7). Nos países em desenvolvimento, um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) é sustentado pela agricultura. O desenvolvimento do campo reduz a pobreza e a desigualdade, assim como gera medidas para a redução nas perdas de alimentos (objetivos 8, 9, 10, 11 e 12). Ainda muito dependente da energia fóssil, a agricultura moderna precisa ser descarbonizada para combater a mudança climática (objetivo 13).

A disponibilidade de água doce no Brasil remete-nos a olhar com carinho o potencial existente na aquicultura (objetivo 14), assim como a questão da diversidade biológica (objetivo 15). Como resultado da redução da pobreza e da fome, tem-se o fortalecimento das instituições e a contribuição para a estabilidade e a paz no mundo (objetivos 16 e 17).

Buscaremos o progresso numa só direção. No agronegócio brasileiro, há exemplos de avanços que dialogam com os desafios postos para essa agenda. Podemos construir um branding fabuloso para o País, baseado na integração de alimento, bebida, tradição, cultura, gastronomia e turismo, dentre outros elementos.

Terminamos com uma frase célebre, dita no século XIX pelo pensador Arthur Schopenhauer: “a tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê".