Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

ORPLANA

Futuro do produtor de cana

Janeiro de 2018

MAIS PRODUTIVIDADE, MELHOR QUALIDADE DA MATÉRIA-PRIMA, MAIOR REMUNERAÇÃO


NOS ÚLTIMOS tempos, novas demandas e regras passaram a ser impostas à agroindústria canavieira. O cenário em mutação acendeu a luz de alerta dos dirigentes da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (ORPLANA). Veio a percepção de mudar a forma de atuação para continuar na atividade.

Com reposição estratégica, a ORPLANA reforçou a sua missão de garantir um futuro seguro e rentável para os produtores de cana-de-açúcar, com a busca da excelência na produção agrícola e na coordenação da cadeia sucroenergética.

Em 2014, foi formulado o Planejamento Estratégico para a ORPLANA 2015/2025, tendo como base um estudo sobre as necessidades para o desenvolvimento sustentável do produtor de cana, elaborado pelo professor de Economia da Universidade de São Paulo Marcos Fava Neves, por meio de informações apuradas e experiências adquiridas na ação Caminhos da Cana.

A gestão da entidade foi profissionalizada em 2015, com a contratação de Celso Albano de Carvalho, que assumiu a função de gestor executivo da ORPLANA e a missão de colocar o Planejamento Estratégico em prática.

PROGRAMA MUDA CANA

Lançado oficialmente em 24 de agosto de 2017, para a capacitação contínua dos produtores, é baseado na implantação do tripé de “gestão do negócio, matriz de risco, produtividade e sustentabilidade".

As atividades do Programa Muda Cana são desenvolvidas por meio digital, por palestras e por oficinas. “A atualização do produtor em relação às práticas agrícolas envolverá todos os processos de condução da atividade canavieira com inovações", exemplifica Celso Albano.

Há uma grade de disciplinas voltada à vertente gestão de riscos e comercialização. A capacitação envolverá 110 produtores das 32 associações filiadas à ORPLANA. Cerca de 3.520 associados atuarão como agentes de transformação, com replicação do conteúdo assimilado em todo o processo.

O planejamento inicial da ORPLANA prevê a capacitação anual de produtores de cinco associações anualmente. Desta forma, todas as entidades filiadas deverão ser atendidas pelo Programa em seis anos.

Como parte do Muda Cana, o Projeto Segmentação permitirá à ORPLANA conhecer de forma profunda o seu público e, com isso, melhor representá-lo. Trata-se da realização de um grande censo para traçar o perfil dos associados das filiadas da entidade. Haverá informações sobre o arrendamento das terras, as operações praticadas e as necessidades dos produtores. A partir dos resultados, serão levantadas e disponibilizadas soluções para as associadas repassarem aos produtores.

A ORPLANA formou um grupo de conhecimento para traçar esse raio X do produtor de cana, com envolvimento de várias instituições de pesquisa. Com informações e soluções personalizadas para cada regional, será montada uma plataforma para a aplicação do projeto.

Os pesquisadores da Polo BPM, de Ribeirão Preto, percorrerão 5.500 quilômetros para a aplicação de questionários e o levantamento dos dados nas cinco regionais da ORPLANA. A captação dos dados e a aplicação do conhecimento absorvido serão feitas por meio de aplicativo on-line.

Como a boa informação oferece condições para uma melhor tomada de decisão, a ORPLANA intensificou o acesso do produtor às notícias sobre mercado, política setorial, gestão, crédito, inovações tecnológicas e melhores práticas. A entidade desenvolveu uma grade diversificada de seminários, visitas técnicas, dias de campo e cursos e criou o Fórum Internacional dos Produtores de AgroEnergia, com a sua primeira edição realizada em 23 de agosto, durante a 25ª Fenasucro & Agrocana.

REFORMULAÇÃO DO CONSECANA

Com todas as ações voltadas para a produção mais eficiente, a entidade mantém como prioridade uma remuneração estimuladora para o produtor de cana manter-se na atividade.

Entre os dezenove projetos integrantes do Planejamento Estratégico da ORPLANA, está a reformulação do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP), cujo cálculo de remuneração leva em consideração a quantidade de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) por tonelada de cana – quantidade de sacarose obtida após o processamento da cana –, além das variações de preços de açúcar e etanol.

A revisão do Consecana-SP acontece a cada cinco anos, e este ano é o momento. A ORPLANA, por parte dos produtores, e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), na representação das indústrias, realizaram, ao longo de 2017, uma série de reuniões para promoverem a revisão do sistema. Com a queda nos valores de açúcar e etanol, a defasagem apurada entre o custo de produção de cana e o valor de ATR pago ao produtor ficou em 14,96%. A recomposição desta diferença passou a ser uma das principais reinvindicações dos produtores.

Frente a esse novo cenário sucroenergético, a ORPLANA defende uma remodelagem mais profunda do Consecana-SP. Para isso, apresentou, na reunião do sistema, realizada em novembro do ano passado, a “Proposta Sustentável de Criação e Compartilhamento de Valor: Consecana Pro-Int"*.

Essa proposta mantém o modelo Consecana-SP exatamente como ele é, considerando as mesmas equações de componente do seu valor, forma de divulgação, estrutura e governança. Porém, adiciona a construção conjunta de valor, via eficiência, a ser compartilhada entre as usinas e os produtores, com a criação do Consecana Pro-Int, válido para os produtores integrados ao sistema ORPLANA, o que corresponde a aproximadamente 10% da cana da região Centro-Sul.

Para Celso Albano, “a proposta não interfere nos parâmetros para cálculos de valores de arrendamento e parceria, no entendimento de que o proprietário da terra não sofreu impacto de custos advindo das alterações no sistema de produção, diferentemente de como acontece com a mecanização da cana".

O valor de ATR Pro-Int será o preço Consecana-SP + remuneração variável: reconhecimento + eficiência + qualidade. O cálculo desses prêmios por eficiência contempla fatores como: assertividade na estimativa de produção; cumprimento do programa da safra: entrega diária; entrega mensal; eficiências – custo de cana esteira (desonerar os custos da indústria); prêmio energia (bagaço excedente). Já os prêmios por qualidade da matéria-prima incluem: impureza mineral; impureza vegetal; e fator qualidade (proposta da UNICA).

Segundo Celso Albano, “o modelo foi construído democraticamente por meio de amplo debate com o Conselho Deliberativo que representa as 32 associações ligadas à entidade. Inspirou-se em modelos existentes, vitoriosos e que buscam maior equilíbrio coletivamente, via um processo de criação e compartilhamento de valor".

A proposta está sendo analisada pela equipe de estudos e pelos membros da UNICA. Para a ORPLANA, a sua aprovação trará importantes mudanças à cadeia produtiva de cana-de-açúcar, pois está alinhada às demandas mundiais sobre a responsabilidade social corporativa. Os seus benefícios (ganhos de eficiência) no curto, no médio e no longo prazos podem ser mensurados e devem, em muito, superar os 4,84% máximos de incremento de custo de compra de cana que, hoje, ocorrem caso 100% dos produtores atinjam 100% dos valores de bonificação.

Celso Albano ressalta “o alinhamento da proposta à missão, à visão e aos valores do Consecana, da ORPLANA e da UNICA. A sua aprovação permitirá que a cadeia produtiva de cana entre na nova era da construção conjunta de sustentabilidade econômica, ambiental e social, de forma harmoniosa e integrada".

NÚMEROS DA ORPLANA

- 32 associações de cinco estados diferentes;

- Mais de 11 mil produtores de cana;

- 80% dos produtores independentes do País;

- 90% sendo pequenos e médios produtores;

- Atuação em 500 municípios canavieiros;

- Fornecimento de 70 milhões de toneladas de matéria-prima.


VANTAGENS DA PROPOSTA

- Sustentabilidade do produtor de cana e valorização da cadeia produtiva;

- Criação e compartilhamento de valor entre produtores e indústria;

- Redução nos custos do processo industrial e maior rendimento industrial;

- Foco das usinas na sua competência central;

- Ajuda na desoneração dos ativos na área agrícola;

- Garantia e regularização de suprimento (redução de ociosidade do ativo industrial, diluição de custo fixo);

- Estímulo à profissionalização do produtor de cana;

- Redução do endividamento pelo ganho geral de produtividade.