Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O endividamento Chinês

O gigante está alavancado

Janeiro de 2018

AS TURBULÊNCIAS do lado político dominaram os noticiários brasileiros ao longo de 2017. Com a economia em recuperação e com um processo eleitoral em vista que pode ser um divisor de águas (dada a necessidade de prosseguir com a agenda de reformas), parece bastante razoável que as questões políticas nacionais continuarão a comandar as manchetes ao longo deste ano de 2018. Entretanto, embora os temas domésticos demandem grande atenção, não podemos esquecer que há importantes dilemas se desenrolando no ambiente externo. Um deles é o excesso de endividamento na economia chinesa. Embora ela esteja relativamente bem e o presidente chinês, Xi Jinping, em seu discurso no 19º Congresso Nacional do Partido Comunista, tenha indicado que a governo está vigilante a esse problema, temos que permanecer atentos a respeito de como a China lidará com o seu nível de endividamento e como isso poderá afetar o agronegócio brasileiro.

POR QUE A DESACELERAÇÃO DOS INVESTIMENTOS É IMPORTANTE PARA A CHINA?

Há tempos, a China tem impulsionado a sua economia por meio da expansão dos investimentos, principalmente via empresas estatais. Esta estratégia foi reforçada após a crise de 2008, gerando um problema de excesso de ociosidade da capacidade industrial instalada. A origem deste problema está no descompasso entre a expansão dos investimentos e o limitado crescimento da demanda por esses bens e serviços, seja no mercado interno (consumo das famílias ou do governo), seja no setor externo (via exportações). Este descompasso tem implicado que uma fração dos investimentos não dê retorno econômico.

O QUE CHAMA A ATENÇÃO NO NÍVEL DE ENDIVIDAMENTO CHINÊS?

De acordo com os números do Banco Central Chinês (People’s Bank of China), o endividamento total da economia chinesa deve ter encerrado o ano de 2017 em 269% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Em outras palavras, o estoque total de dívida daquela economia é de pouco mais de US$ 32 trilhões (quase dezesseis vezes o PIB do Brasil!). Na realidade, mais do que o volume total de dívida, chama a atenção o seu crescimento: em 2007, o estoque de dívida total era de 149% do PIB – ou seja, em dez anos, a dívida chinesa cresceu 80% além da expansão do seu PIB (que, acumulado no período, cresceu 151,6%). Essa forte expansão concentrou-se, principalmente, na dívida corporativa, que, por sua vez, é composta majoritariamente pelas emissões das empresas estatais.

Desse arranjo, podem surgir diversos desafios para as autoridades chinesas, entre os quais vale a pena destacar dois:

- O excesso de capacidade instalada da indústria chinesa sugere que podem ser limitadas as necessidades econômicas de novos investimentos. Porém, uma redução abrupta dos investimentos poderia levar a uma desaceleração muito forte do PIB chinês, algo que seria sentido por toda a economia global. Felizmente, as autoridades chinesas têm conseguido desacelerar paulatinamente estes investimentos, tornando esse processo de ajuste mais suave.

- Como parte significativa dos investimentos não tem dado retorno econômico, não está claro como está o balanço dos bancos que emprestaram para essas empresas. Não pode ser surpresa que a inadimplência leve a perdas para essas instituições. Dado o expressivo volume do estoque de dívida da economia chinesa, esse problema pode não ter proporções apenas modestas. Felizmente, como a presença estatal é grande tanto do lado dos credores, quanto dos tomadores de crédito, o governo chinês poderia resolver este problema por meio de emissão de moeda. Certamente, a consciência disso pode levar a um problema de risco moral e agravar ainda mais a situação antes que ela estoure.

Embora o nível de endividamento da economia chinesa seja elevado, a princípio não há uma crise “dobrando a esquina”. Porém, as características deste endividamento chamam muito a atenção. Como, em geral, as piores crises são aquelas que não foram previstas, vale a pena o universo agro ficar atento às estratégias do Xi Jinping para lidar com esse problema. Os mercados enxergam o Brasil e, principalmente, o nosso agronegócio fortemente ligados à economia chinesa. Um problema lá, certamente, pode ter fortes impactos aqui.

OS INVESTIMENTOS CHINESES AVANÇAM SOBRE O AGRONEGÓCIO

A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2017, o gigante asiático de novo despontou como o mais importante destino das exportações brasileiras. Setores como o de soja, por exemplo, sabem da importância da demanda chinesa para a manutenção ou até a elevação dos preços pagos pelo produto. A ausência do gigante asiático neste mercado geraria uma verdadeira transformação na cadeia. Além da força compradora ligada aos produtos primários, a China também ampliou a presença em outras áreas que não só o agronegócio brasileiro.

Desde 2010, o ingresso de empresas chinesas ganha força em volume, abrangência de setores e recursos investidos. Nos últimos anos, a China esteve presente nas áreas de produção e transmissão de energia elétrica, licitações no setor de infraestrutura, aquisição de participação acionária em bancos brasileiros ou internacionais já em operação no Brasil, e mais. No ano passado, a entrada de investidores chineses no agronegócio brasileiro persistiu, e a Hunan Dakang Pasture Farming, unidade do grupo chinês Shanghai Pengxin Group, investiu cerca de US$ 200 milhões na aquisição de 57% das ações da trading e processadora de grãos brasileira Fiagril. O investimento tem como principal interesse a área de soja e milho e está localizado em Lucas do Rio Verde-MT.

Em resumo, a parceria Brasil-China está ganhando força ano após ano. Pequim, inclusive, já deu vários sinais de que o elo com o Brasil é o “coração” da relação do país com a América Latina. Impactos na segunda maior economia do mundo seriam fortemente sentidos por aqui, e não só no agronegócio, como nas áreas de infraestrutura, finanças, energia e comércio internacional.