Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Fomentar a sustentabilidade no cacaueiro

Retrospectiva do Partnership Meeting

Janeiro de 2019

SÃO PAULO sediou a 28ª edição do evento Partnership Meeting, da World Cocoa Foundation (WCF), entre 24 e 25 de outubro de 2018. Foi o maior evento global de sustentabilidade em cacau e ocorreu pela primeira vez no Brasil. Participaram mais de trezentas pessoas, de alto nível, vindas de trinta países, com dezoito origens de cacau representadas.

Em dois dias de conferência, setenta palestrantes compartilharam seus conhecimentos e experiências. Com destaque para a cacauicultura do Brasil e da América Latina, temas relevantes foram abordados, como produtividade, qualidade, sustentabilidade, inclusão social e preservação ambiental.

Na abertura, o ministro do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Blairo Maggi, evidenciou a rigorosa legislação brasileira na proteção da mata nativa e dos recursos naturais. Mais de 25% do território nacional – o correspondente a aproximadamente 210 milhões de hectares – está protegido em áreasdentro de fazendas produtivas.

Blairo mencionou, também, a importância do cacau para a economia, com geração de 180.000 empregos diretos e 720.000 indiretos. A lavoura desenvolve papel importante como agente de reflorestamento e desenvolvimento sustentável em diversas regiões, por meio de sistemas agroflorestais (SAF).

Fomentar a sustentabilidade no cacaueiro

De acordo com o ministro, o MAPA possui planos de aumentar a produção de cacau brasileira em 50% nos próximos cinco anos, com o objetivo de chegar a 300.000 toneladas de cacau por ano.

Também houve um discurso por parte do estado da Bahia, patrocinador do evento, além da participação de Guilherme Leal, fundador da Natura e, também, da Dengo (marca de chocolate premium), “entrevistado" no palco pelo presidente da WCF. A conversa inspiradora abordou a história de vida do empresário e a sua trajetória profissional, amparada em valores como a colaboração, a diversidade e a preservação da dimensão humana do negócio, bem como o seu envolvimento com o cacau, a partir de 2011.

Os painéis contaram com profissionais de destaque das maiores empresas de cacau e chocolate do mundo, além de pesquisadores, especialistas de diferentes áreas, líderes dos principais países produtores de cacau, representantes de organizações, governo e organizações não governamentais (ONGs) e produtores de Gana, Costa do Marfim, Peru, Equador e Brasil. Entre os temas amplamente discutidos, podemos citar:

- Caminhos para a produtividade em diferentes geografias;

- Combate ao desmatamento por meio da preservação da paisagem;

- Diferentes modelos de organização de produtores;

- Agricultura sustentável e biodiversidade;

- Renda e sustento no cacau;

- Qualidade, sabor e genética do cacau;

- Os produtores de amanhã: crianças e jovens das comunidades de cacau;

- Empoderamento- de mulheres para mais sustentabilidade no cacau;

- Digitalização de pagamentos para melhorar a vida dos produtores.

Lançado oficialmente durante o Partnership Meeting, o CocoaAction Brasil é uma iniciativa desenvolvida em parceria com a WCF e atuante no País desde março de 2018. A sua previsão é durar cinco anos, com foco na melhoria da sustentabilidade dos produtores de cacau das principais regiões, como Bahia, Pará, Espírito Santo, Rondônia e Mato Grosso.

O CocoaAction Brasil junta atores de toda a cadeia de cacau e chocolate. Fazem parte membros da indústria como Barry Callebaut, Cargill, Dengo, Mars, Mondelēz, Nestlé e Olam, as associações AIPC e ABICAB, entidades de pesquisa e extensão rural, governos estaduais e federal, entre outros parceiros.

Em conjunto, todos trabalharão de maneira colaborativa a fim de encontrar soluções para o aumento da produtividade e da qualidade do cacau, a melhoria das condições de vida e trabalho dos produtores, o fortalecimento das organizações de produtores, além de apoiar os modelos produtivos sustentáveis.

Logo após a conferência, houve uma viagem de campo para a região de Ilhéus, na Bahia, organizada pela WCF em parceria com a P&A, para cerca de trinta participantes de diversos países. Estes puderam testemunhar a estrutura produtiva presente na região por meio de visitas a fazendas de cacau pequenas e grandes, à Biofábrica de Cacau (viveiro de mudas), à Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e ao Centro de Inovação do Cacau (CIC).

Como mensagem final, o evento colocou a América Latina e o Brasil no centro das atenções para o futuro da produção de cacau com rentabilidade e responsabilidade social e ambiental. Ficou claro que o Brasil conta com tudo para promover a produção dessa lavoura com sustentabilidade e responsabilidade. A união dos diversos elos da cadeia, com parcerias público-privadas, irá tornar essa expectativa uma realidade.

O próximo evento Partnership Meeting da WCF será em Berlim, na Alemanha, em outubro deste ano.

MODELO PIONEIRO DE SUSTENTABILIDADE

Responsável pelo anúncio e coordenador da iniciativa em parceria com a WCF, Pedro Ronca afirma que “um discurso unificado com autoridades dos governos locais e nacional faz com que todos aprendam juntos, por meio de um sistema consolidado de monitoramento e avaliação".

Membro da empresa brasileira de consultoria em agronegócios P&A Marketing, Pedro afirmou, também, que “o CocoaAction Brasil trabalhará no sentido de encontrar soluções para elevar o aumento da produtividade e da qualidade do cacau brasileiro". E completou: “Estamos, também, comprometidos com a melhoria das condições de vida e trabalho dos produtores, junto ao fortalecimento das organizações de produtores apoiadoras de sistemas sustentáveis".

Na opinião do presidente da WCF, Richard Scobey, “o CocoaAction Brasil está comprometido a desenvolver uma verdadeira plataforma de parcerias público-privadas com o governo brasileiro. Para isso, estruturamos um Comitê Nacional para guiar as decisões importantes sobre sustentabilidade de cacau no país". De caráter global, a iniciativa pretende coordenar esforços para ampliar a produção, garantir renda aos produtores, erradicar o trabalho infantil, promover igualdade de gênero no campo e combater o desmatamento, entre outros objetivos.

De acordo com Scobey, as oportunidades atuais do setor incluem o status de liderança do país nas áreas de reflorestamento e preservação da biodiversidade por meio dos modelos de produção agroflorestais e cabruca. Os avanços recentes assistidos no estado do Pará também servem de inspiração para os modelos de altaprodutividade.

Diversos desafios mencionados por Scobey deverão ser enfrentados. O déficit no fornecimento doméstico significa a necessidade de o Brasil importar aproximadamente 70.000 toneladas de cacau anualmente. A baixa produtividade da pequena propriedade, entre 200 e 500 quilogramas por hectare, precisa ser aumentada. Faltam entidades para a organização dos produtores, e há, ainda, as ameaças de pragas e doenças, especialmente a devastadora monília.

Para Scobey, os esforços iniciados pela WCF levaram à criação do CocoaAction Brasil. Isso facilitará a implementação e o monitoramento da estratégia. Muitas oportunidades poderão ser identificadas para trazer expertise às discussões de normas. Isso complementará os gaps de recursos. Novos insights e conhecimentos ampliarão o impacto do CocoaAction.

Nira Desai, representante da WCF diretamente engajada com o CocoaAction Brasil, cita como parceiros da iniciativa junto ao governo e ao terceiro setor: o MAPA; o Ministério do Meio Ambiente (MMA); o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC); o Ministério da Integração Nacional (MI); as Secretarias de Agricultura dos estados da Bahia, do Pará, do Amazonas, do Espírito Santo, de Mato Grosso e de Rondônia; a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Cacau do MAPA; a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA); a ABICAB; a AIPC; entre outros.

De acordo com Nira, o CocoaAction Brasil recorre, também, ao conhecimento de parceiros do setor de cacau por meio de um Comitê Técnico, que inclui a CEPLAC, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o CIC, serviços de extensão agrícola como EMATER-RO, Incaper, Emater-Pará, Bahiater e Empaer-MT, a UTZ/Rainforest Alliance, a AIPC, a ABICAB, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), além de representantes da indústria de cacau e chocolate.

MOMENTO DA AMÉRICA DO SUL

Moderadora do painel “Combatendo ao desmatamento, com uma abordagem territorial", a diretora executiva da IDH no Brasil, Daniela Mariuzzo, explicou sobre a atuação da IDH junto às empresas do setor cacaueiro para apoiar a produção sustentável de cacau na África e em algumas regiões da Ásia. Com uma visão de abordagem territorial, a IDH desenhou a estratégia usada pela Iniciativa Cacau e Florestas em Gana e na Costa do Marfim.

Para Daniela, “países como Colômbia, Peru, Equador e Brasil poderão expandir a produção sustentável de cacau tendo como estratégia a abordagem territorial. Em Mato Grosso, estamos no começo do planejamento, na área do pacto do Vale do Juruena, para a produção sustentável de cacau se tornar realidade".

O CocoaAction Brasil também beneficiar-se-á de lições aprendidas por meio de iniciativas similares atualmente sendo implementadas pela WCF e pela indústria em outros locais, como Costa do Marfim e Gana (ambos na região oeste do continente africano), os dois maiores países produtores de cacau do mundo.


DESAFIOS PARA 2019

EDUARDO BRITO BASTOS, Diretor executivo da AIPC


Em 2018, tivemos, no Brasil, pela primeira vez na história, um encontro da WCF, o Partnership Meeting. Isso gerou um clima de esperança renovada no setor de cacau e chocolate.

Discutimos assuntos interessantes para a cadeia em todo o mundo. Falamos sobre o aumento da renda dos produtores e a redução da pobreza no campo. Ponderamos sobre como zerar o desmatamento e promover a restauração de áreas degradadas. Chamamos a atenção, também, sobre o empoderamento feminino e o controle de enfermidades, entre outros assuntos.

Foram dois dias intensos de reuniões mais dois dias para a realização de visitas. Tudo isso rodeados de uma centena de reuniões estratégicas. Procuramos aproveitar ao máximo a presença dos líderes globais, públicos e privados. Afinal, esse setor movimenta mais de US$ 100 bilhões por ano.

Aqui no Brasil, defrontamo-nos com os nossos próprios desafios, divididos nos três grandes eixos clássicos da sustentabilidade: econômico, social e ambiental.

Nas áreas econômica e social, não podemos jamais desviar-nos do foco de aumentar a oferta de amêndoas ao mercado por meio de ganhos de produtividade. Somente assim poderemos aumentar a renda do produtor, com a consequente melhoria das suas condições de trabalho e vida. Isso reduzirá as desigualdades no campo, bem como diminuirá a necessidade de importações para suprir a demanda local.

Nesse caminho, em paralelo, teremos de trabalhar forte em treinamento e capacitação, seja com a rede pública (nos níveis federal e estaduais) ou a privada. É fundamental uma articulação mais forte com o SENAR. Teremos de buscar resultados para a melhoria da gestão nas propriedades rurais. Para conquistarmos mais mercados externos, a qualidade e a sanidade são dois pontos fundamentais. Teremos de ter um controle mais efetivo de pragas, como a monília, que já bate na nossa porta.

Na área ambiental, defrontamo-nos com o desafio enorme de ajustar a política de manejo das cabrucas (áreas de cacau mescladas com árvores exóticas e/ou nativas) na Bahia e no Espírito Santo. Precisamos, ainda, cumprir a agenda de restauro de larga escala não somente no bioma Amazônia – como no Pará –, mas em outros estados onde a lavoura está em crescimento – como Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Acre.

É sempre importante lembrar que o cacau, enquanto lavoura nativa da Amazônia, pode e deve ser considerado como floresta à luz do Código Florestal. Portanto, plantar cacau em agroflorestas significa reflorestar.

Temos, ainda, uma frente de trabalho voltada ao apoio da reorganização da cadeia de valor de cacau e chocolate. Para isso, será importante o apoio dos serviços para o mapeamento do setor, já iniciados pelo governo federal (MDIC, MAPA, CEPLAC e Embrapa) e por entidades como o CIC, de Ilhéus-BA. A organização dos dados e o levantamento dos mapas georreferenciados poderão dar mais “acuracidade" aos números setoriais, ainda de caráter muito empírico.

Há, também, uma responsabilidade muito grande de apoiar que os atores internos e externos irriguem mais recursos para a produção. Sem crédito novo, não conseguiremos os insumos necessários para dobrarmos a produção em dez anos. A nossa meta para 2028 é sair do atual patamar de 180 mil toneladas para algo em torno de 400 mil.

Todas essas atividades estão sendo discutidas em um fórum permanente com atores governamentais (federais, estaduais e municipais), não governamentais e privados. Existe uma agenda de metas gerais, com ações específicas para alocação dos recursos humanos e financeiros necessários. Teremos novos governos e interlocutores, mas a rede permanece à disposição para a construção e a validação de um amplo plano de trabalho.

O consumo de chocolate cresce na ordem de 1,7% ao ano. Isso representa uma rica oportunidade para crescermos no mercado global com uma janela voltada para o Brasil. Merecemos ocupar um espaço mais relevante do que essa colocação nada honrosa de sétimo posto no ranking mundial de produtores. Aqui, do lado interno, possuímos uma oportunidade incrível. Se retomarmos o crescimento econômico e voltarmos aos níveis de 2011, precisaríamos somente de mais 30 mil a 40 mil toneladas para suprir o mercado interno!

O evento da WCF deixou dois registros para reflexão. Primeiro, ao servir de vitrine para apresentar ao mundo a possibilidade de retornarmos ao jogo. Segundo, ao mostrar para nós mesmos que, com bons parceiros, mais diálogos construtivos e planos bem elaborados, podemos levar o País ao pódio. Só vale se for incluir e trazer mais renda ao produtor e valor a toda a cadeia e ao País. Foquemos nisso para que 2019 seja um excelente ano!