Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Chegou a hora das reformas

Janeiro de 2019

A EQUIPE de governo do novo presidente está praticamente formada. O ponto negativo, constatado pela sequência de notícias publicadas na mídia, refere-se aos desencontros entre os seus membros, que parecem estar divididos em grupos de interesses específicos. O ponto positivo diz respeito às boas equipes que comandarão a agropecuária e a economia do País. Nesse sentido, a equipe econômica sinaliza que trabalhará para alcançar o equilíbrio fiscal e realizar as reformas necessárias. O governo deve priorizar, neste momento, a reforma da previdência, e tudo indica que esse assunto será encaminhado ao Congresso ainda neste início de ano.

Para o produtor, as perspectivas são boas, a começar pela safra recorde. O dólar deve ficar próximo ao patamar atual. As projeções apontam para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) superior a 2,5%. A inflação estará sob controle, com projeções indicando uma variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de +4,1%. O comportamento dos preços em 2019 fica relativamente em linha com o cenário de recuperação lenta da economia. Isso sugere pouca necessidade de aperto monetário no ano, e, assim, as previsões do mercado financeiro sinalizam uma taxa básica de juros de 7,5% ao longo do ano.

Na política agrícola, o Plano ABC representa um conjunto de tecnologias aplicadas à agricultura e à pecuária com os objetivos de reduzir a emissão de gases do efeito estufa (GEE) e aumentar a retenção de carbono na vegetação e no solo. A Agroanalysis discute se esses objetivos estão sendo alcançados e, ainda, se os sistemas de produção promovidos pelo Plano ABC são capazes de garantir a renda do produtor.

No mercado de algodão, apesar da maior oferta do produto em 2018, as exportações com dólar valorizado e a demanda interna aquecida puxaram para cima as cotações em reais, garantindo um bom retorno ao produtor. Já para este ano, a previsão também é de lucro, mas inferior ao registrado na temporada passada. Os custos de produção devem aumentar, e o preço médio em reais será um pouco mais baixo devido ao aumento da oferta. É preciso sempre manter o monitoramento do mercado para definir o melhor momento da comercialização. Os melhores preços para o vendedor deverão ocorrer no primeiro semestre.

Externamente, aconteceu em Katowice, na Polônia, a 24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-24/UNFCCC, nas siglas em inglês). O seu grande desafio era definir as regras de trabalho que darão condições para operar o Acordo de Paris, firmado em 2015. Em outras palavras, tratou-se de uma ratificação do compromisso dos países de adotar medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Houve um avanço no balanço das ações que já estão em curso, mas muitas arestas ainda precisarão ser acertadas na próxima convenção, a ser realizada no Chile.

No Brasil, a Associação Nacional dos Produtores e Importadores de Inoculantes (ANPII) apresenta um case reconhecido como de amplo sucesso no agronegócio. As pesquisas com bactérias fixadoras de nitrogênio viabilizaram a expansão do carro-chefe da agropecuária nacional: a soja. O nitrogênio, disponível de forma abundante na natureza, é assimilado pelas plantas por meio de modificações químicas promovidas pelos inoculantes. Por meio de alianças tecnológicas estratégicas dos seus associados com órgãos de pesquisa, a ANPII ampliou o potencial de produção da soja.

Entre os eventos interessantes realizados no agro, um destaque especial cabe ao setor de cacau e chocolate. Importantes empresas, organizações não governamentais (ONGs), institutos de pesquisa e extensão rural, entre outros, montaram uma aliança inédita para promover o renascimento dessa lavoura carismática no País. Será um projeto focado em produtividade, qualidade, sustentabilidade, inclusão social e preservação ambiental. O Brasil pode reconquistar a autossuficiência na cacauicultura, deixando de importar e, ainda, gerando excedentes para exportação.

Na entrevista do mês, Luis Madi, diretor do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), traz a sua visão sobre a complexidade existente no mercado atual de alimentos de escala global. As notícias falsas nas redes sociais sobre produtos alimentícios colocam as empresas do setor em estado de alerta pleno. Institutos que realizam pesquisas científicas estão sendo chamados para levar aos consumidores as informações que são verdadeiras de fato. Esse é um processo de educação da própria sociedade. E o embate entre produtos naturais e industrializados não pode ser feito com caráter ideológico. Afinal, o alimento é um item indispensável para a vida humana.

O Caderno Especial deste mês apresenta a indústria sementeira nacional e os seus desafios nos mais diversos aspectos, desde a pesquisa e o desenvolvimento das novas variedades genéticas até a construção dos marcos regulatórios. Esse é um assunto diretamente associado à competitividade do agronegócio brasileiro. Operações de escala global acontecem entre empresas no território nacional. Como possuem uma importância estratégica vital para esse negócio, as atividades da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (ABRASEM) e da Associação Brasileira dos Obtentores Vegetais (BRASPOV) devem ser melhor analisadas e compreendidas.