Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Marcos Azambuja

A vocação agrícola do país era nítida desde o primeiro momento

Outubro de 2016

MARCOS AZAMBUJA é diplomata de carreira no Ministério das Relações Exteriores (MRE)

Diplomata de carreira no Ministério das Relações Exteriores (MRE), exerceu as funções de embaixador do Brasil na Argentina (1992-1997) e na França (1997-2003), secretário-geral do Itamaraty (1990-1992), coordenador da Conferência Rio-92 e chefe da Delegação do Brasil para Assuntos de Desarmamento e Direitos Humanos, em Genebra, na Suíça (1989-1990).

É autor de livros e ativo palestrante sobre temas relativos a relações internacionais nos seguintes campos: desarmamento, desenvolvimento sustentável, integração regional, direitos humanos, Antártica e política espacial.

Foi vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), do Conselho Curador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do Conselho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (GACInt/USP).

AGROANALYSIS: ESTAMOS ORGANIZADOS PARA TERMOS PAPEL DE PROTAGONISMO E LIDERANÇA NO AGRONEGÓCIO MUNDIAL?

MARCOS AZAMBUJA: Temos uma produção agropecuária imensa e uma população ordeira. Se não dermos certo, o mundo também não dará, porque perderá um de seus grandes modelos. Somos a síntese do mundo, desiguais e multirraciais. Nessa direção, o agronegócio faz parte da nossa solução, e não do problema.

Internamente, precisamos fazer muitas pontes. Mais do que nunca, conversarmos sem aceitarmos o jogo maniqueísta do bem contra o mal. Temos de diminuir isso para evitar a divisão do País em facções, o que levará um tempão para se reabsorver. Precisamos de grandes homens, com a mistura dos perfis de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Rui Barbosa. Queríamos já estar na outra margem, com a travessia do rio já feita. Não queremos vinganças ou retribuições, mas sim o País inteiro e sem ressentimentos.

A VOCAÇÃO AGRÍCOLA FAZ PARTE DOS PRIMEIROS REGISTROS DO PAÍS?

MA: A primeira informação tem 516 anos, na carta escrita por Pero Vaz de Caminha para o rei de Portugal. Ele descrevia a existência de uma terra ampla, vasta, chã, cheia de águas e com o clima ameno. A vocação agrícola era nítida desde o primeiro momento. Esse era o nosso destino. É curioso, mas, até agora, não conseguimos entender esta primeira mensagem do negócio nacional ser o agronegócio. O próprio nome do Brasil vem de uma madeira que produzia certas tinturas, o seu primeiro produto comercializado com o mundo.

Na heráldica nacional, as armas e os escudos do Brasil apresentam nos seus flancos folhas de tabaco e café. Portanto, a agricultura está presente da maneira mais emblemática. É uma obviedade extraordinária entender a vocação agropastoril do Brasil. Não conheço ninguém que chega até aqui e, depois de uns dias, não se dê conta da naturalidade irresistível dessa vocação. Ao longo dos séculos, lutamos para transformar esse destino irresistível em vocação igualmente resistível.

A VISÃO PREDOMINANTE SEMPRE PENDEU PARA O FASCÍNIO E O ENCANTAMENTO COM A CIDADE?

MA: O Brasil maltratou a sua agricultura. Era um desprestígio trabalhar no campo, tida como uma atividade modesta e manual, ligada à escravidão, apesar de, durante muito tempo da nossa história, termos sido um país essencialmente rural. Éramos um arquipélago de fazendas, onde a vida se dava, com a existência de algumas cidades. Essa ideia levou muito tempo para ser desvencilhada e ainda não está totalmente dominada. Existem núcleos de resistência.

Durante o século XX, o desprestígio da agricultura tinha uma falsa legitimação científica, com base em três motivos. Primeiro, havia a teorização de que a indústria tinha um prestígio e uma qualidade maiores. Segundo, um país agrícola tinha um destino inexorável de pobreza e marginalidade, com a degradação das suas relações de troca. Terceiro, havia a ideia de a indústria promover a urbanização.

HAVIA O PENSAMENTO DE QUE O FUTURO E O PROGRESSO ESTAVAM NO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO URBANA?

MA: Essa constatação é bem real. Durante o século XX, a influente Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) sugeria que a indústria acumulava tecnologia, enquanto a agricultura ficava mais ou menos no remanso de não querer. Assim, os recursos agropecuários foram transferidos para alimentar a industrialização do País. Não era um erro, mas uma necessidade. Embora tivéssemos condições agropecuárias extraordinárias, a nossa tecnologia era rudimentar.

Por isso, rejeitamos essa ideia de uma supremacia industrial sobre o agropastoril, e vice-versa. Fomos criados com a ideia de que a possibilidade de incorporação do Cerrado ao Brasil produtivo não existia. Assistimos a uma dupla revolução: a viabilidade do Cerrado e o ganho na ciência e na tecnologia agrária com o trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e das universidades.

A TECNOLOGIA TROUXE UMA NOVA REALIDADE PARA O SETOR?

MA: A dimensão do agronegócio deu grandeza ao Brasil. A sua demonstração de protagonismo tem até despertado ações protecionistas, na tentativa de entrada dos produtos brasileiros nos mercados internacionais. A agricultura e a pecuária brasileiras cresceram muito em tecnologia e genética nos últimos anos. Esse movimento é o verdadeiro inventor de um Brasil incentivador do desenvolvimento da agricultura.

Na minha família, de longas raízes neste País, a ideia era de as pessoas virem do campo para a cidade, como se fossem patamares sucessivos de uma marcha. Não era a ideia de alternativas equivalentes de vida. E a cidade de referência era o Rio de Janeiro. Criamos a mitologia urbana e uma falsa sedução, enquanto a qualidade de vida em nossas cidades ficou muito ruim, com favela e pobreza. O Brasil negou-se a si mesmo. A nossa única grande guerra foi a agrícola.

HOJE, O AGRONEGÓCIO BATE NA PORTA DO ITAMARATY PARA AMPLIAR SEUS NEGÓCIOS NO MERCADO EXTERNO?

MA: Há uma oportunidade de cooperação crescente entre a diplomacia e o agronegócio. Temos uma inserção multilateral competente. Há grandes exemplos, como as chefias de brasileiros na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Essa é uma vantagem estratégica importante e de influência real. Deixamos de ser um ator econômico secundário para ser um protagonista. Somos o terceiro maior exportador mundial de alimentos. Chegaremos a uma posição de grande potência como um país inteiro, e não aos pedaços. Somos um dos países do BRICS, grande e emergente por causa da agropecuária, diferentemente da excelência da produção do Japão, da Coreia, da Suíça etc.

COM QUE FOCO O ITAMARATY E O AGRONEGÓCIO PODEM ANDAR DE MÃOS DADAS?

MA: No final do século XX, apostamos bem nos grandes arranjos mundiais, nos ciclos da OMC das Rodadas Uruguai e Kennedy. Depois, ficamos prisioneiros de acordos multilaterais e mais globais. Isso é bom, mas um tanto burocrático e lento. Daí precisarmos trabalhar de forma mais fragmentada e em pedaços, com acertos bilaterais, sub-regionais e plurirregionais.

Como primeiro ponto, devemos estar com os melhores sócios para negociarmos sem preconceito ideológico. Em segundo lugar, devemos fazer uma política de aproximação para os países vizinhos escoarem seus produtos por meio dos nossos sistemas rodoviário, ferroviário e portuário. Em terceiro, devemos conseguir uma melhor qualificação dos produtos, pois o protecionismo é muito usado para impedir a entrada de produtos de outros lugares, sob a alegação de proteção às saúdes animal e vegetal. Fui embaixador na França, onde as cidades têm um produto consagrado pelo nome. Então, Chambourcy é um lugarejo, mas é, também, uma marca de produtos lácteos conhecida mundialmente.

FALAMOS EM UMA PARCERIA COM MAIS FOCO E RESULTADO, MENOS TEORIA E MAIS PRÁTICA?

MA: Existem análises que levam a mais perguntas do que respostas e mais dúvidas do que certezas. Possuímos muitas afinidades entre os países da América do Sul, dos pontos de vista cultural, histórico e logístico. Somos praticamente uma comunidade. Mas, há predominância intensa de um posicionamento populista, nacionalista e protecionista. Estes ingredientes não levam a uma integração.

Se dependesse apenas do agronegócio, o Brasil não estaria em recessão, seria apenas um país em crescimento reduzido. Isso é um dado essencial. Trabalharemos com mais foco para fazer uma diplomacia de resultados. Os países não mudam tanto por autorreflexão, mas por pressão externa, em função de acabarem os espaços. Não há outro jogo a jogar. Portanto, vamos nos integrar e competir, com abertura e menos barreiras.

OS PARADIGMAS CONTRA O AGRO CONTINUARÃO A SEREM QUEBRADOS?

MA: Primeiramente, do lado interno, vamos rejeitar essa ideia de uma supremacia industrial sobre o agropastoril, e vice-versa. Fomos criados com a ideia de que a possibilidade de incorporação do Cerrado ao Brasil produtivo não existia. Assistimos a uma dupla revolução: a viabilidade do Cerrado e o ganho promovido pela pesquisa e pela Ciência Agrária com o trabalho da Embrapa e dos centros estaduais.

Na parte externa, durante anos, fomos vistos como destruidores do meio ambiente. Achávamos que era uma conspiração para nos mantermos pobres. Foram feitas bobagens, mas não devemos ter complexo de culpa. Existem imensas áreas preservadas, numa atitude mais saudável e consciente. Demos conta, portanto, de que esse cuidado não é para os outros, mas para nós mesmos.