Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Laranja dourada

Outubro de 2016

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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A CITRICULTURA brasileira tem um papel relevante na produção cítrica global: produzimos 34% da laranja que o mundo produz, respondemos por 57% da produção de suco e, principalmente, temos 79% do comércio total deste produto – de cada cinco copos deste maravilhoso alimento consumido no Planeta, três são de origem brasileira. A União Europeia é nosso maior mercado, com 66,7% do total exportado, seguida pelos Estados Unidos, com 20,7%, e pelo Japão, com 4,7%.

Mas, o consumo caiu muito nos últimos anos. Em 2005, cerca de 2,4 milhões de toneladas foram absorvidos pelo mercado, e, no ano passado, foram menos de 2,0 milhões. Uma queda de quase 20%!

Dois fatores são os principais responsáveis por essa mudança: o primeiro tem a ver com a enorme concorrência de outros sucos e bebidas que surgiram nos últimos anos, inclusive alguns também de origem brasileira. Hoje, se encontram facilmente em supermercados de qualquer país sucos de pêssego, goiaba, maracujá, manga, morango, açaí, maçã, mistos, entre outros.

E o segundo fator foi a mudança recente de hábitos alimentares. A vida corrida de toda gente fez o café da manhã, principal momento do consumo de suco de laranja, ficar muito menos demorado: as pessoas "engolem" qualquer coisa e saem correndo para o trabalho.

Enquanto essa queda expressiva aconteceu no mundo, houve uma mudança inversa no nosso mercado interno, que, no mesmo período, cresceu incríveis 40%. Mesmo com esse belo crescimento, ainda consumimos muito pouco, apenas 5% do suco produzido aqui. Ora, podemos crescer muito mais nesse nosso mercado, o que vale a pena por diversas razões, inclusive porque a citricultura tem um grande peso em nossa agricultura tropical: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 12.000 fazendas produzem essas frutas em 350 municípios, ocupando uma área de quase 500 mil hectares e gerando mais de 200 mil empregos diretos e indiretos. O PIB do setor alcançou US$ 6,5 bilhões no ano passado, e a cadeia toda de produção respondeu por cerca de US$ 190 milhões de impostos. A importância social do produto é notável: em 2015, a citricultura foi o setor do agronegócio que mais contratou funcionários.

E mais: está provado que o suco de laranja tem características alimentares que promovem saúde e bem-estar, sem falar no prazer dado ao paladar.

Pois bem, precisamos estimular o consumo interno para reduzir a dependência das exportações e estabilizar a atividade produtiva. Para isso, é necessário que haja ações do setor público e, também, do privado. Este último deve realizar uma ampla campanha mostrando as vantagens de consumir o suco de laranja.

E é fundamental reduzir a carga tributária: os impostos sobre o suco chegam a 34% do seu valor! É muita coisa para um setor tão significativo. Até porque os citricultores vêm enfrentando, nos últimos anos, uma luta dura contra uma terrível doença, o greening, que dizima os laranjais. E com seu esforço e o apoio da pesquisa e da tecnologia, vão vencendo mais essa contenda, como já venceram a tristeza dos cítrus nos anos 40 do século passado, o cancro cítrico na segunda metade do século XX, a clorose variegada dos cítrus (CVC) neste século e muitas outras.

Quanto ao mercado, com impostos tão altos fica difícil a competição.