Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Reflexão

Refazer o país

Outubro de 2016

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO - Colunista

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

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Samba-enredo da escola Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 1989

A LUTA pela recuperação do País começa, de fato, em setembro de 2016, quase coincidindo com o 7 de setembro, quem sabe uma alusão positiva. A crise do Brasil é grave: afundado na recessão, com déficit público recorde, dívida pública que se multiplica, juros nas nuvens, inflação fora da meta, impostos que seguem sugando a produção e um nível elevadíssimo de desemprego. Tudo isso em meio a um escândalo de corrupção e prisões de funcionários do alto escalão do governo, do Legislativo, de fundos de estatais, enfim, todos investigados na operação Lava-Jato. Uma verdadeira luta da Polícia Federal para fazer a assepsia do País.

O que isso significa? A economia e a política contaminadas entre si, requerendo medidas urgentes do novo governo federal, tal qual médicos atendendo o “paciente Brasil” na UTI. Os ministros e o presidente Temer precisam de um ambiente asséptico para os cortes que farão, mas é fundamental ter em mente que isso é parte de um processo muito maior que precisa começar já! Afinal, foram anos de pregação de um discurso populista, um odioso divisionismo visando à transformação do Brasil em um país bolivariano, retrógrado e que nos levaria a uma situação muito pior do que “apenas” o caos econômico atual. Os exemplos claros dessa condução são, além do rombo fiscal, a política de energia caótica e a situação da educação e da saúde. Paga-se cada vez mais por serviços cada vez piores! Tudo isso e muito mais serão parte do novo processo de mudanças, desde a busca por acordos bilaterais de comércio, passando pela previdência e pelo sistema trabalhista, até as reformas tributária e política.

São partidos políticos demais e dedicação ao País de menos, com a limitada visão dos quatro anos de mandato. O Brasil precisa de pessoas com visão de longo prazo, sustentado por ações planejadas. Chega de heterodoxia alimentada por sonhos ideológicos imaturos. É preciso ter sequência nas ações positivas.

Um olhar sereno sobre a balança comercial brasileira, e outro sobre os empregos, que se caracterize claramente pelo peso do agronegócio. Por isso mesmo, pela dimensão e pela importância do agronegócio para o Brasil, suas lideranças devem abraçar os temas nacionais. Isso ficou claro no Congresso da ABAG, ocorrido em agosto último.

A questão das grandes reformas deve ser uma grande preocupação da ABAG nestes dois anos e meio que restam ao novo governo, pois são temas transversais que afetam todas as cadeias produtivas.

“Dar um jeito no País”, como pretende o presidente Temer, pressupõe abraçar as grandes reformas que deverão abrir uma avenida de crescimento com índices acima dos máximos 3% ao ano que são projetados, no Brasil de hoje, como “grandes índices”. O choque nas contas públicas contribui, pois dará asas às mudanças essenciais, mesmo com as dificuldades todas que o País enfrenta. Exemplo disso é que se trabalha, no Brasil, segundo estudos do Banco Mundial, 3,6 meses por ano somente para pagar impostos!

Outras questões, terríveis, são as ligadas à segurança jurídica ou mesmo ao crítico e preconceituoso posicionamento do governo que saiu sobre terras para estrangeiros. Afinal, o Brasil não tem poupança, sozinho, para fazer o crescimento necessário!

A sensação é que se abriu uma porta, e a luz penetrou num ambiente insano. Isso traz esperança e força, mas requer posição institucional firme, planejamento e cobranças pelo que se quer para o futuro do País.