Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Cooperativismo de crédito

Papel importante para a sustentabilidade do agro

Outubro de 2016

NO DIA 5 de agosto, mais de 3 bilhões de pessoas em todo o Planeta receberam uma aula sobre aquecimento global. O Brasil, nação com a segunda maior área de florestas do mundo, orquestrou com maestria a abertura das Olimpíadas mais verde da história. O feito colocou o tema numa ampla vitrine, mas é preciso fazer mais, em termos reais, para melhorar os resultados ambientais do País.

Esta é a complexidade da sustentabilidade nos dias atuais: é um tema difundido no âmbito público e privado, mas ainda precisa avançar para alcançar resultados mais satisfatórios. Sinal disso é que a humanidade entrou no “cheque especial" dos recursos naturais do Planeta no dia 8 de agosto. Traduzindo: o “orçamento" anual de recursos renováveis já foi todo consumido – quase cinco meses antes de o ano acabar.

Cooperativismo de crédito

Estamos em uma época de renovação de compromissos mundiais, como a COP-21 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Todos os setores estão sendo intimados a contribuir para resolver os problemas ambientais e sociais, incluindo as cooperativas de crédito, que têm, na sua essência, a união de pessoas para o desenvolvimento econômico e o bem-estar social.

No Brasil, o cooperativismo de crédito é um dos treze ramos do cooperativismo. Todos estes ramos compartilham os sete princípios universais do cooperativismo. Em um estudo de 2013, foram mapeados na literatura os principais artigos de sustentabilidade e correlacionados com estes princípios. Como é possível ver na figura a seguir, todos os princípios têm alguma relação, mas vale destacar o quinto ('Educação, formação e informação'), o sexto ('Intercooperação') e o sétimo ('Interesse pela comunidade'). Este último estipula que as cooperativas trabalhem para o desenvolvimento sustentado das suas comunidades por meio de políticas aprovadas pelos membros.

As cooperativas de crédito, historicamente, são grandes parceiras da inclusão financeira. Além da democratização do acesso ao crédito e a outros produtos financeiros a menores custos – inclusive para a parcela da população com pouco acesso aos serviços financeiros tradicionais –, tais cooperativas fomentam o desenvolvimento local sustentável, promovendo a redução das diferenças sociais.

Outra especificidade é a operação somente com associados, de diferentes perfis, e em uma área de ação específica. Isso garante a aplicação da poupança local na própria região, contribuindo para a geração de emprego e renda e para o desenvolvimento regional sustentável.

As cooperativas de crédito fazem parte do setor financeiro, que tem participado da transição para a economia verde. Desde os anos 90 do século passado, as instituições financeiras vêm aderindo a iniciativas autorregulatórias de sustentabilidade, devido à conscientização da sociedade por uma maior corresponsabilidade e um maior gerenciamento de riscos ligados a questões socioambientais. Entre outras instituições, podemos listar a UNEP FI (United Nations Environment Programme Finance Initiative), a Declaração de Collevecchio, o Pacto Global, os Principles for Responsible Investment (PRI), os Princípios do Equador e o Protocolo Verde. A maior parte das iniciativas foca em avaliação de riscos socioambientais, investimentos, inclusão financeira, ética e transparência.

É por meio do investimento socialmente responsável (Socially Responsible Investment – SRI) que as instituições financeiras conseguem influenciar o desenvolvimento sustentável a partir do seu core business, pois elas fazem escolhas de investimento tomando os critérios de sustentabilidade como norte. As cooperativas de crédito estão, atualmente, reforçando esse compromisso mais ativo com a sustentabilidade, seja fornecendo crédito para a economia real, financiando projetos relacionados a questões socioambientais ou mesmo incorporando na sua avaliação de risco alguns critérios socioambientais. Se seguirem os princípios do cooperativismo, elas estarão muito próximas dos chamados negócios sociais, cujo maior exemplo é o Grameen Bank, criado pela iniciativa Yunus – cujo foco é o desenvolvimento de negócios sociais –, na qual há um propósito ambiental e social, mas que apresenta autossustentabilidade financeira, completando o tripé da sustentabilidade.

No Brasil, a recente criação da autorregulação, com a Resolução CMN nº 4.327 do Banco Central do Brasil, de 25 de abril de 2014, vem exigindo políticas socioambientais obrigatórias para mais de 2.000 bancos sob sua jurisdição. Ela exige que as instituições financeiras tenham políticas socioambientais levando em conta relevância e proporcionalidade e, principalmente, gerenciando o seu risco socioambiental. Para as cooperativas de crédito, o maior impacto é uma avaliação mais criteriosa da concessão de crédito. O agronegócio é um dos setores de maior risco socioambiental. Como os produtores que tomam crédito direcionado já estão acostumados com as exigências, a novidade está ligada aos créditos diretos com as instituições financeiras.

Cooperativismo de crédito

No Sicredi – instituição financeira cooperativa com 3,3 milhões de associados, em vinte estados brasileiros –, por exemplo, a Política de Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental foi atualizada em 2015, reforçando a importância do gerenciamento do risco ambiental. Essa é, também, uma oportunidade de incentivar negócios sustentáveis por meio do crédito e apoiar o desenvolvimento do seu associado.

Em 2016, um estudo do Rabobank, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz' da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e da Universidade de Oxford mostrou, entre outros resultados, que há uma correlação positiva entre desempenho socioambiental e saúde financeira do produtor rural. Ou seja, quanto maior o desempenho socioambiental, maior tende a ser a saúde financeira do produtor, e vice-versa. As cooperativas de crédito, os produtores e a sociedade em geral só têm frutos a colher com essa tendência.