Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Macroeconomia

Recuperação ou espasmo?

Outubro de 2016

AS ÚLTIMAS semanas foram marcadas pelo retorno do otimismo em vários setores da economia brasileira. Este otimismo tem condicionado boa parte das expectativas acerca da nossa economia: as projeções para a recessão de 2016 se tornaram um pouco mais moderadas e sinalizam para um crescimento da ordem de 1% no ano que vem. Como reflexo desse processo, alguns segmentos começaram a esboçar alguma melhora nas vendas recentemente, sancionando a perspectiva de que, potencialmente, o pior tenha ficado para trás.

Obviamente, esse fenômeno tem conexão intrínseca com o encaminhamento do desfecho da crise política, que culminou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O desanuviar desta crise, associado a um novo governo que se mostrou minimamente funcional e que conseguiu restabelecer relações funcionais com o Congresso, levou a uma clara percepção de melhora da governabilidade. Ao mesmo tempo, o redirecionamento da orientação de política econômica para diretrizes essenciais de reconstrução dos fundamentos macroeconômicos contribui para a melhora do humor dos agentes econômicos.

O ponto central nesse processo é saber se esse otimismo sustentará uma retomada da atividade econômica no médio prazo. De fato, o País ingressou na mais severa recessão dos últimos cem anos da pior forma possível. Em um contexto de queda acentuada e prolongada da renda como a que o Brasil enfrenta atualmente, a demanda agregada do setor privado doméstico está em retração. A dinâmica de pessimismo que se instaura no ambiente privado nesse processo potencialmente gera uma espiral depressiva dessas componentes de demanda, levando a uma recessão profunda e prolongada. Nesse quadro, a demanda do setor privado doméstico demora a se recuperar por si só, o que se traduz em uma queda da renda por um período prolongado, com elevados custos sociais. O evento mais marcante de uma dinâmica dessa natureza ocorreu na Grande Depressão norte-
americana na década de 1930. Por conta disso, os governos, desde então, passaram a atuar com política econômica para afetar a demanda agregada e, com isso, abreviar os ciclos recessivos.

No caso brasileiro, o profundo desajuste das contas públicas inviabiliza a utilização dos instrumentos de política fiscal para estimular a demanda agregada e a produção. Do lado da política monetária, as limitações em termos de estímulos também são grandes: a inflação elevada não permite que o Banco Central promova uma política monetária expansionista, via corte da taxa de juros, para estimular o consumo e os investimentos. Ao mesmo tempo, a taxa de câmbio no patamar atual não tem representado um elemento que estimule a demanda pelo canal do setor externo. De fato, as exportações brasileiras seguem virtualmente estagnadas.

A somatória desses fatores sugere que o Governo não dispõe de instrumentos de estímulo à demanda agregada neste momento para reverter o ciclo recessivo. Some-se a isso o fato de que as famílias ainda se encontram relativamente endividadas e com orçamento apertado. Esse fenômeno sugere que existe pouco espaço para uma retomada mais robusta da economia brasileira neste momento.

Isso significa que não existem elementos palpáveis que indiquem a ocorrência de uma recuperação sustentada da economia brasileira em breve. Ao contrário, o aumento do desemprego tende a contrapor esse movimento no curto prazo, podendo representar um vetor contrário ao sentido da recuperação.

Evidentemente, o ambiente político e econômico melhorou no País nas últimas semanas. No entanto, o Governo ainda enfrenta limitações significativas quanto ao uso dos seus instrumentos para estimular a economia no segundo semestre. Ao contrário disso, as reformas propostas e os ajustes necessários nas contas do Governo têm caráter recessivo.

A síntese da análise indica uma forte probabilidade que estejamos atravessando uma recuperação da atividade econômica que não necessariamente será sustentável ao longo do tempo. Em outras palavras, podemos estar observando apenas um espasmo de crescimento, e não uma recuperação de fato, neste momento.