Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Leite e derivados

O desafio da inserção internacional

Outubro de 2016

A COMPETITIVIDADE do Brasil no agronegócio mundial é observada em vários mercados de commodities, assumindo papel de destaque na produção e na exportação de inúmeros produtos agroalimentares. O País apresenta, também, relevância na produção de lácteos, sendo o quarto maior produtor mundial.

Leite e derivados

A balança comercial de leite e derivados, no entanto, mostra uma situação de fraca competitividade, tendo representado apenas 0,36% das exportações do agronegócio e tímidos 0,17% do total geral das exportações em valor no ano de 2015. O Brasil é, historicamente, um importador líquido de produtos lácteos e encontra dificuldades em mudar tal posição. Grande parte desse déficit explica-se pela alta competitividade das importações em relação ao preço doméstico. Importar produtos lácteos está mais barato do que os produzir internamente. O leite em pó, por exemplo, chega ao Brasil ao preço de US$ 0,29 por litro de leite. Por outro lado, considerando o mês de agosto como referência, o preço ao produtor foi de US$ 0,52 por litro. Enquanto isso, em junho, o preço internacional ao produtor foi de US$ 0,26 por litro na Nova Zelândia, US$ 0,24 por litro na Alemanha e US$ 0,29 por litro na Argentina.

As importações de leite e derivados já atingiram US$ 397 milhões no acumulado do ano até agosto de 2016, sendo 65% deste valor referentes a leite em pó. Com isso, o déficit comercial em lácteos atingiu US$ 276 milhões. O crescimento das importações no período recente foi devido à combinação de preços domésticos em elevação (baixa oferta no Brasil) e preços internacionais em patamar deprimido (grande oferta da UE). Para tentar conter um pouco a alta de preços ao consumidor brasileiro, o Governo autorizou a reconstituição do leite em pó para a produção de UHT nas regiões de abrangência da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) pelo período de um ano. As importações de lácteos, em volume, estão em torno de 5% da captação nacional de leite, e as compras só não estão sendo maiores devido à queda de produção no Uruguai e na Argentina – queda esta que atingiu cerca de 13% comparando-se o primeiro semestre de 2016 com o mesmo período de 2015. Outro fator relevante é a renovação das cotas de importação de leite em pó argentino, estabelecendo um volume-teto de 4,3 mil toneladas por mês de junho de 2016 a maio de 2017.

A tendência é que esse diferencial entre os preços domésticos e internacionais se reduza nos próximos meses, em função do declínio sazonal dos preços no Brasil e da recuperação das cotações no mercado internacional. Existe um ambiente externo de baixa rentabilidade em vários países. No caso dos europeus, a euforia pós-fim das cotas está dando lugar a um ambiente, também, de crise de rentabilidade. Assim, a tendência é que a expansão da oferta ocorra em menor ritmo e os preços sigam em trajetória de elevação, ainda que moderada.

Leite e derivados

De todo modo, o setor lácteo brasileiro continuará apresentando dificuldades em competir internacionalmente. O desafio das exportações passa por vários fatores, alguns dos quais podem ser transpostos por ações da cadeia produtiva, tais como maior escala de produção, baixo custo de matéria-prima, aproveitamento das vantagens comparativas e estratégias bem definidas de abertura do mercado. Outras ações, que não dependem apenas dos agentes da cadeia produtiva e afetam diretamente a competitividade brasileira, são: uma boa política sanitária; negociações comerciais que levem à redução de barreiras ao comércio; suporte governamental em problemas cotidianos de transações; desoneração tributária; baixo custo logístico; e uma taxa de câmbio favorável.

O setor tem sido muito penalizado pelo custo Brasil, devido às estradas rurais precárias, aos altos encargos trabalhistas, à baixa produtividade da mão de obra e aos altos custos de energia elétrica. A baixa produtividade das vacas e a fragmentação da estrutura produtiva também aumentam os custos de produção, tornando a realização da inserção internacional cada vez mais distante.