Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Sarah Theurich

Nova geopolítica para o agronegócio brasileiro

Outubro de 2017

SARAH THEURICH, Diretora Associada para América Latina da Geoeconomica

A GeoEconomica (www.geoeconomica.com) é uma consultoria de análise de riscos políticos, com sede em Genebra, na Suíça. Sarah Theurich trabalhou, durante vários anos, numa organização da ONU em Genebra e estudou na London School of Economics (LSE), na Queen Mary University of London e na Sorbonne, entre outras instituições.

AGROANALYSIS: A INTERNACIONALIZAÇÃO PROVOCA DESAFIOS AO SETOR AGROPECUÁRIO?

SARAH THEURICH: Nas análises associadas à inserção internacional do agronegócio, produtores, investidores e exportadores agropecuários brasileiros precisam ser sensibilizados sobre a dimensão da geopolítica e os riscos geopolíticos. Com a globalização, o Brasil tornou-se, de forma rápida, uma potência mundial em alimentos, fibras e biomassa, com liderança na produção e na exportação em diversas cadeias produtivas.

No entanto, para tomar emprestada uma expressão comumente usada no próprio agro, o mundo político fora da porteira fica cada vez mais complexo. Com a evolução recente da conjuntura geopolítica global, desafios emergem para o setor agropecuário. Temos de fazer as considerações habituais sobre os ambientes econômico e comercial, mas a incorporação de uma perspectiva de cenários e riscos geopolíticos às decisões estratégicas do agronegócio passa a ser essencial.

QUAL É A CONTRIBUIÇÃO DA VISÃO GEOPOLÍTICA PARA O BRASIL?

ST: A geopolítica mostra como mudanças nas relações de poder internacionais afetam determinadas regiões do mundo. Isso ajuda no entendimento sobre como riscos geopolíticos e políticos afetam o ambiente de negócios. O agronegócio brasileiro, por exemplo, tem na Ásia um destino importante das suas exportações. O que acontece com a China e a sua inserção regional, com a maior competição entre os EUA e a China, ou mesmo com a Coreia do Norte, afeta decisivamente o ambiente de negócios do agro naquela região. Nosso propósito na GeoEconomica é buscar auxiliar empresas do setor do agronegócio a incorporarem cenários internacionais em sua avaliação estratégica de oportunidades de negócios.

Ao mesmo tempo, o Brasil está no circuito dos investimentos estrangeiros diretos para infraestrutura e logística. Isso cabe tanto ao lado dos suprimentos de insumos, como ao escoamento da produção agropecuária. Assim, uma rede sofisticada desenvolve-se ao redor do agronegócio do País, em termos de tecnologia, indústria e serviço. Esse sistema precisa, também, compreender quais são os riscos políticos no Brasil e os riscos geopolíticos da América do Sul para decidir sobre estratégias de investimentos.

EXISTEM TENDÊNCIAS NAS QUESTÕES GEOPOLÍTICAS?

ST: A rápida diversificação geopolítica em relação aos mercados transformou o Brasil em um verdadeiro global trader. De um lado, tem-se o destaque no atendimento dos novos consumidores da Ásia, do Oriente Médio e do Golfo Pérsico, e, de outro, dá-se a manutenção de parceiros tradicionais como os Estados Unidos (EUA) e a União Europeia (UE). O resultado foi positivo, com ampliação considerável das exportações agropecuárias brasileiras.

Em 2015, China, EUA e UE representaram quase três quartos das exportações brasileiras, tendo o restante ficado com os demais países. Esse caráter global reforça a necessidade de compreender e integrar às decisões estratégicas as análises sobre os riscos geopolíticos e os impactos sobre os fluxos, seja de investimento ou de comércio. Desdobramentos políticos como a eleição de Trump, o Brexit, a crise do Catar e a instabilidade política em partes da América Latina podem afetar o agronegócio brasileiro e gerar riscos ou oportunidades de negócios. Por isso, temos de olhar, hoje, para as grandes tendências geopolíticas, com as suas potenciais interferências no agronegócio.

PODEMOS COMEÇAR PELA INDEFINIÇÃO DA CONFIGURAÇÃO DO PODER INTERNACIONAL?

ST: Sim. O processo de desconcentração do poder mundial iniciado há mais de duas décadas ainda está em curso. O sistema internacional contemporâneo deixou a unipolaridade do pós-Guerra Fria centrada no poder indiscutível dos EUA. Após a crise financeira de 2008, alguns anteviam a multipolaridade, fato que não necessariamente se realizou. O caminho cresce, agora, no sentido da relação entre EUA e China, com momentos de cooperação e competição entre eles. Isso poderá definir novas dinâmicas do sistema internacional nos próximos anos, com consequências importantes para o Brasil e a América Latina.

HÁ ESPAÇO PARA O MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL)?

ST: No plano geral, temos de estar conscientes de que o ambiente estratégico do comércio e dos investimentos agropecuários será afetado pelo rumo a ser dado nessa evolução da configuração do poder internacional. Há incertezas geopolíticas ao longo da Eurásia – da Europa ao Oriente Médio e à Ásia –, cujos mercados são expressivos no agronegócio.

Existem oportunidades estratégicas para o agronegócio que não podem ser desperdiçadas, como o acordo futuro de livre-comércio entre o MERCOSUL e a UE, assim como o fortalecimento e a aproximação do MERCOSUL com os países da Aliança do Pacífico, o segundo maior bloco econômico da América Latina em exportações. Demandas potenciais devem surgir com o aumento da renda em países da África subsaariana. Para completar, tem-se a “nova Rota da Seda” da China, vinculada ao processo de interiorização da sua economia e à busca de moldar o espaço centro-asiático de investimento, infraestrutura e comércio.

E O RISCO DE UM PROCESSO DE DESGLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA?

ST: O jornalista econômico do Financial Times Martin Wolf fez uma observação interessante de que “a economia mundial ainda não está se desglobalizando, mas não está mais se globalizando”. A política do “America first” e, em particular, o recuo dos EUA em relação à Parceria Transpacífica (TPP), assim como o Brexit na Inglaterra, são certamente sinais de certo receio no Ocidente em relação à globalização. Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre 1950 e 2008 a expansão do comércio global foi o triplo do aumento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Mas, a partir de 2011, com taxas convergentes, o incremento do comércio ficou abaixo do registrado pelo PIB mundial em 2016. Essa desaceleração econômica e do comércio global pode descortinar tensões políticas antes matizadas por interesses e fluxos econômicos.

PODEMOS GENERALIZAR ESSE PROCESSO?

ST: Devemos focar em áreas sensíveis, como a Ásia, o Pacífico e o mar da China, cujas economias são vitais para o Brasil em termos de comércio externo e fontes de investimento. Riscos geopolíticos não podem ser ignorados. As exportações do agronegócio, como os setores de grãos e carnes, por exemplo, dependem fundamentalmente da estabilidade geopolítica para continuar fluindo. Não parece trivial que, no mar do sul da China, naveguem navios que representam um terço do comércio exterior brasileiro e US$ 5 trilhões do comércio mundial.

DEVERÁ PERSISTIR UM DESCOMPASSO ENTRE AS MUDANÇAS NO PODER MUNDIAL E A ORDEM INTERNACIONAL?

ST: Vamos fazer uma rápida retrospectiva. A ordem internacional contemporânea, com a arquitetura de regimes, instituições e mecanismos de governança, faz parte de um plano formatado a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Esse modelo encontra-se, agora, fragilizado por sinais de potencial desengajamento dos EUA nas instâncias de acordos multilaterais. Um enfraquecimento da OMC certamente afeta diretamente o agronegócio, por esta representar a única arena para a negociação de questões sistêmicas, como os subsídios. Isso explica, em grande parte, o travamento das negociações da Rodada de Doha, iniciada em 2001. Precisamos observar o que vai acontecer na Conferência Ministerial da OMC, no final deste ano, em Buenos Aires.

AS TRANSFORMAÇÕES GEOPOLÍTICAS SÃO DINÂMICAS E NÃO PARAM?

ST: Teremos de acompanhar de perto as repercussões desse processo para a tomada de decisão e o posicionamento internacional do agronegócio brasileiro. Este setor tem sido um dos principais agentes das mudanças econômicas e sociais ocorridas no País. As suas cadeias produtivas incorporam tecnologia, qualificam processos, capacitam recursos humanos e melhoram a gestão. Com a produção em larga escala tecnificada e as atividades em nichos de mercado de alto valor agregado, o potencial existente é enorme.

Para sustentar essa vantagem competitiva, num ambiente de evolução mundial, as autoridades públicas e as lideranças privadas do setor devem estar atentas. Será fundamental incorporar à sua estratégia internacional um procedimento sistemático de monitoramento das tendências, das oportunidades e dos riscos geopolíticos globais, assim como dos seus impactos para o setor e a empresa. A GeoEconomica tem auxiliado os seus clientes em inteligência geoestratégica e gerenciamento de riscos geopolíticos globais. Isso ajuda na competitividade e na tomada de decisões estratégicas de longo prazo para os produtores, os investidores, as associações, as empresas e os traders.