Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

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Obstáculos atuais à saúde do agronegócio brasileiro

Outubro de 2017

Frederico Braun D’Avila, Diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB)

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NOS DIVERSOS encontros, fóruns e congressos do agronegócio feitos anualmente no Brasil, são apresentados diagnósticos precisos sobre os gargalos e os entraves diários enfrentados pelos produtores rurais. Assim como nas modernas avaliações médicas, o setor é dissecado com rigor por especialistas, enquanto sugestões avançadas de “tratamentos” são compartilhadas com tomadores de decisão.

Muitos dos participantes desses eventos são parlamentares, membros dos Executivos federal e estadual, além de indivíduos comprometidos com o setor produtivo. Entretanto, poucos “tratamentos” são levados a termo ou são adequados de modo a beneficiar eficazmente os “pacientes”.

O agronegócio brasileiro é um indivíduo naturalmente saudável, mas, às vezes, fica sujeito a um ambiente insalubre. Quando precisa de tratamento, não é fácil ter acesso a uma porta do sistema de saúde com alto nível de excelência.

Analogias à parte, é importante elencar alguns obstáculos expressivos que dificultam a vida do produtor brasileiro. O Estado cobra com eficiência o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL), porém o julgamento da constitucionalidade do imposto está na Justiça há duas décadas, e, até hoje, não temos um sistema de seguro rural eficiente.

A logística do País, a sua legislação trabalhista e o sistema tributável ainda precisam de aperfeiçoamento. O Ministério da Agricultura, apesar da boa condução do orçamento do Plano Safra, todo ano precisa negociar duramente recursos e taxas de juros competitivas perante o Ministério da Fazenda, um contrassenso, uma vez que se espera valorização para um Ministério tão atuante como aquele.

Uma potência agrícola como o Brasil deve lograr um planejamento orçamentário robusto, quadrienal. Também é necessário articular melhor os atores que definem as diretrizes do financiamento do agronegócio, para abrirem mais oportunidades de investimento no setor.

Frente à sociedade brasileira, é importante lançar pautas positivas e mitigar as controvérsias, como as polêmicas quanto às populações indígenas, aos alimentos orgânicos e à Floresta Amazônica, temas sobre os quais, ressalta-se, nenhum de nós é contrário.

No Brasil, o bode expiatório é o produtor rural, seja pecuarista, agricultor, granjeiro ou qualquer outro. E isso é muito diferente do que acontece nos EUA, onde os produtores celebram orgulhosamente a primeira semana de plantio de cada safra com bandeiras do seu país em seus tratores e suas plantadeiras. Lá, comemora-se, também, o National Ag Day (www.agday.org), que enaltece o homem do campo por colocar alimento farto e de qualidade na mesa do povo americano.

Por aqui, o produtor ainda não ganhou o merecido destaque diante da população urbana e é mais lembrado quando os preços dos produtos sobem ou em algum caso isolado de agressão ao meio ambiente. Enquanto isso, o vizinho Paraguai derruba entraves e fomenta o setor agrícola, e 100% dos produtores brasiguaios não têm intenção de regressar ao Brasil.

Se, daqui para frente, a Argentina evitar outro casal Kirchner e a Bolívia e a Venezuela livrarem-se dos seus líderes bolivarianos, será a vez de a agricultura brasileira ter a eficiência de um laboratório de ponta para ajustar pontos vitais juntamente com os nossos governantes e revigorar algumas lideranças do nosso agronegócio.