Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Reflexão

Visão ou torcida?

Outubro de 2017

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO - Colunista

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

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A melhor visão é a intuição.

Thomas Edison

AOS LEITORES e analistas do agronegócio mais ligados ou mais antenados às mudanças globais, uma pergunta aparece com frequência nas suas reflexões sobre expectativas: o momento atual é só um desarranjo ou, de fato, são mudanças globais?

Em primeiro lugar, segundo recente análise de Martin Wolf publicada no jornal Financial Times, com base em estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização das Nações Unidas (ONU), a participação do Produto Interno Bruto (PIB) dos países ricos e a dos emergentes mudaram radicalmente. Os ricos detinham 62% do PIB mundial em 1990, passaram a apresentar apenas 39% e, em 2022, devem empatar com os emergentes. Se, por um lado, o peso demográfico tem efeito nisso, o que é lógico; por outro lado, há, como consequência, a preocupação pela desaceleração nas fontes de claro dinamismo em tecnologia e produtividade.

Em segundo lugar, seguindo a lógica da queda secular dos preços das commodities (em média, de 15% ao ano), a produtividade global hoje estagnada preocupa muito.

Em terceiro lugar, o forte crescimento do uso de matérias-primas agrícolas para a produção de biocombustíveis acabou criando, com o petróleo, fortíssima correlação em termos de preços.

Uma outra questão importante a se acrescentar é o recente estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) a respeito das expectativas para os próximos dez anos, segundo o qual haverá uma queda da taxa de crescimento da demanda por alimentos, assim como os preços do petróleo tenderão a ficar ao redor de US$ 50 por barril.

Esses novos assuntos significam rupturas ou amarrações muito importantes para o agronegócio brasileiro. Com o País mostrando-
se à frente dos competidores em termos de ganhos de produtividade, com três safras por ano e produção acontecendo de maneira sustentável, o seu efeito poupa-terra entre 1985 e 2006, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), foi de 171 milhões de hectares, ou de 29 milhões de hectares na agricultura e 142 milhões de hectares na pecuária.

Ao sabor dos tons ameaçadores das mudanças e das oportunidades que elas oferecem, o setor produtivo do agronegócio é protagonista e tem amplas condições de se expandir muito mais. Para isso, seria fundamental reduzir o custo Brasil e acelerar reformas urgentes que deem suporte à coragem provada do setor privado do agro. Na logística, planos já com papéis amarelados não saem das estantes; o sistema tributário, maluco, estanca o crescimento; e a previdência matará o País se não for corrigida.

O mundo como se vê não ajudará tanto! Os produtos de cana, soja e outros óleos vegetais, assim como o capital externo que quer vir ao Brasil, precisam da valorização das externalidades positivas (benefícios ambientais) que a proposta do RenovaBio oferece a longo prazo.

O agro é a grande perspectiva nacional. Apoiá-lo é estratégico, e não político; suportá-lo é gerar empregos e desenvolvimento irradiado e desconcentrado no País.

Ainda há tempo para o atual governo de transição acordar para o novo mundo! O agro deve ser a plataforma brasileira de exportações, com as suas enormes cadeias produtivas, desde bens de capital, passando por produtos, serviços e veículos, até máquinas e implementos.

É visão, é torcida!