Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

ABCBio

1º Fórum Brasileiro De Biodefensivos

Outubro de 2017

Evento organizado pela Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), o 1º Fórum Brasileiro de Biodefensivos reuniu especialistas para debater, em 29 e 30 de agosto, as perspectivas e as tendências do segmento de defensivos biológicos.

Na abertura do evento, Gustavo Herrmann, presidente da ABCBio, destacou o uso de biodefensivos pela agricultura brasileira alicerçado no tripé de:

- disseminação- do conhecimento para assistência técnica no campo;

- boa- prática de produção para assegurar qualidade; e

- logística- eficiente para o produto chegar com condições adequadas à aplicação nas lavouras.

“Até o final do ano, devemos colocar em operação um projeto de capacitação online para atender as demandas de nossos revendedores, consultores e agricultores interessados. Com este acesso, ampliaremos o conhecimento sobre os usos e as aplicações dos defensivos biológicos", concluiu o presidente da Associação.

Arnaldo Jardim, secretário da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo (SAA/SP), ressaltou o compromisso da Pasta com o estímulo ao maior uso de defensivos biológicos. “Fizemos questão de marcar presença nesse evento justamente para reforçar o propósito de, junto com a ABCBio e as empresas do segmento, formularmos e incorporarmos políticas públicas que atendam todas as necessidades desse mercado", disse Jardim.

O secretário destacou, ainda, a necessidade de um olhar diferenciado. “Existem normas vigentes voltadas para os defensivos químicos, mas, nos biológicos, esse tratamento não deveria ser diferente?", questionou. Por isso, a Secretaria está promovendo entendimentos com os vários segmentos do mercado para se conhecerem melhor as alterações em termos de normas para modernizar o registro de biodefensivos.

PAINEL 1: REGISTRO DE BIODEFENSIVOS NO BRASIL

Carlos Venâncio, coordenador-geral de Agroquímicos e Afins do Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas, da Secretaria de Defesa Agropecuária, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (DFIA/SDA/MAPA), comentou sobre o expressivo crescimento no número de registros de produtos biológicos na Pasta: a quantidade passou de 139 para 277 entre 2015 e 2016.

O palestrante considerou oportuna a iniciativa da ABCBio de intensificar os esforços em melhorar o nível técnico dos profissionais que lidam com os biológicos. “Essa também é uma grande preocupação do MAPA, pois a área é muito complexa e demanda um conhecimento específico e bem aprofundado", concluiu Venâncio.

PAINEL 2: DEFENSIVOS BIOLÓGICOS E QUÍMICOS

Ronaldo Pereira, presidente da FMC América Latina, enfatizou que a questão não é o uso de um ou outro tratamento, mas sim de uma integração entre biológicos e químicos, juntamente com os conhecidos pilares do Manejo Integrado de Pragas (MIP). “Com mais ciência e menos preconceito, essa é a melhor proposta para o futuro do segmento no Brasil", afirmou.

Roberto Sant'Anna, gerente de Inovação e Sustentabilidade da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), salientou o esforço do controle de pragas para ir além da fronteira das fazendas. “Em função do clima tropical brasileiro, propício para a proliferação de pragas cada vez mais resistentes aos defensivos, são necessárias ações regionais que podem ultrapassar as fronteiras de estados e, até mesmo, de países, como no caso de culturas como a de soja", observou.

PAINEL 3: LINHAS DE FINANCIAMENTO PARA A PRODUÇÃO DE BIODEFENSIVOS

Foram realizadas apresentações de como os bancos públicos, as agências de fomento e a iniciativa privada podem potencializar e apoiar as novas tecnologias de biodefensivos.

Raffael Costa, dirigente da SP Ventures, afirmou que a sua empresa conduz investimentos em venture capital no Brasil. A sua atuação está focada na compra de participação acionária de empresas reconhecidamente inovadoras, com altíssimo potencial de crescimento no curto prazo, como a indústria de biodefensivos. “Investimos em novas plantas e laboratórios para pesquisa e desenvolvimento de produtos biológicos porque há uma forte pressão da sociedade por alimentos produzidos com baixo índice de resíduos", concluiu o dirigente.

Martim Francisco de Oliveira e Silva, técnico do Departamento de Indústria Química do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e Luís Felipe Maciel, gerente de Biodefensivos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), descreveram as linhas de financiamento e de apoio das suas respectivas instituições.

PAINEL 4: VISÃO DOS PRODUTORES

Alexandre de Sene Pinto, consultor em Manejo Integrado de Pragas e professor do Centro Universitário Moura Lacerda no campus de Ribeirão Preto, mostrou o resultado da pesquisa de campo elaborada por sua empresa de consultoria.

Cerca de 29% dos produtores rurais disseram adotar os produtos de controle biológico devido à ineficácia de agrotóxicos e transgênicos. Outros motivos apontados foram a proibição de alguns agrotóxicos e o surgimento de novas pragas. A questão da rentabilidade também pesa bastante, pois apenas 2% justificaram aplicar o produto por consciência ambiental.

Entre as barreiras para um avanço ainda maior dos biodefensivos, 51% dos entrevistados apontaram a falta de informações sobre a tecnologia. A inserção de uma disciplina obrigatória sobre a tecnologia de aplicação de biodefensivos na grade curricular dos cursos de Ciências Agrárias ajudaria a mudar esse quadro.

Glenio Martins de Lima Mariano, presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), ratificou que esse desconhecimento faz parte da realidade: “apesar de os agentes biológicos possuírem grande potencial de crescimento, em nosso universo, principalmente de pequenos produtores rurais, são poucos com o domínio desta tecnologia".


PALESTRA 1: FUTURO, TECNOLOGIA E SUSTENTABILIDADE

Como será a dinâmica e a integração entre as tecnologias nos próximos anos, de modo a contribuir para a sustentabilidade no Brasil e no mundo?

Marcelo Augusto Boechat Morandi, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, destacou a importância da sustentabilidade e da tecnologia para a evolução do agronegócio brasileiro. Citou o momento como extremamente favorável para a disseminação do uso de bioprodutos, incluindo os defensivos biológicos, já que há uma preocupação, cada vez maior, com a sustentabilidade ambiental. “As projeções mostram que, no futuro, teremos uma população ainda mais urbana, com menos conhecimento sobre o agronegócio, porém mais exigente. Por isso, precisamos entregar sempre mais valor para a sociedade", concluiu Morandi.

Dirceu Júnior, diretor do Centro de Expertise de Agricultura Tropical da Bayer, ressaltou o uso de soluções integradas para aproveitar o potencial de cultivo das culturas. Para isso, exemplificou como o uso de tecnologia de maneira correta contribui para a produtividade: “por isso há produtores rurais com colheita de 110 a 115 sacas de soja por hectare, enquanto a média brasileira não passa de 60 sacas de soja por hectare".

PALESTRA 2: SOLUÇÕES EFETIVAS E ECONOMICAMENTE VIÁVEIS

Sjoerd Van der Ent, do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento em Microbiologia da Koppert, com sede na Holanda, trouxe a sua experiência para o desenvolvimento de soluções efetivas e economicamente viáveis. “Quando conhecemos o mercado, precisamos definir as propriedades que o produto precisa apresentar para entregar o resultado esperado. A formulação entra em jogo, porque qualquer tecnologia não atenderá aquela demanda", explicou. “Devemos desenvolver um produto para se encaixar no manejo da cultura em questão".

Na sua avaliação, a estabilidade dos micróbios é uma questão essencial, porque há diversos fatores que podem alterar a sua eficiência e, até mesmo, levá-los à mortandade. “Temos de verificar quão adequada é a forma como o produtor rural armazenará a solução. Ele pode colocá-la em um tanque acoplado a um trator ou caminhão até realizar a aplicação. Como isso poderá levar algumas horas, é importante realizar um treinamento para se ter a consciência de estar tratando com organismos vivos. Mas, de qualquer maneira, a sobrevida destes micróbios dependerá, principalmente, da formulação", destacou.

Além da questão do armazenamento, Van der Ent lembrou a necessidade de uma logística correta por parte das empresas e dos distribuidores para a manutenção do produto de controle biológico. O clima, a temperatura e o modo de aplicação podem interferir. “Outro fator de preocupação é a interação do agente biológico com outros agentes químicos ou mesmo biológicos das sementes e das misturas de tanque", acrescentou.

PALESTRA 3: OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS)

O representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic, mostrou que a utilização dos biodefensivos atende seis dos dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados durante a Cúpula das Nações Unidas de Desenvolvimento Sustentável em 2015.

São considerados como ODS:

- Erradicação da pobreza, por meio da geração de renda no campo;

- Fome zero e agricultura sustentável, mediante a alimentação saudável e a promoção da produção sustentável e do mercado de alimentos orgânicos;

- Boa saúde e bem-estar, por meio de uma vida saudável, com a alimentação de produtos sem resíduos;

- Consumo e produção responsáveis, mediante o controle de pragas nas plantações de modo natural;

- Ação contra a mudança global do clima, com menor uso de combustíveis fósseis;

- Proteção, recuperação e promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres, detendo a perda de biodiversidade.

“Portanto, o uso crescente dos biodefensivos contribui para o Brasil atingir as metas da agenda 2030, com a necessidade de cada vez mais se incentivar o uso massivo desta tecnologia", conclui Bojanic.

PALESTRA 4: PANORAMA DO MERCADO DE ORGÂNICOS

Reginaldo Morikawa, diretor superintendente da Korin Agropecuária, mostrou que o mercado mundial de orgânicos chegou a US$ 81 bilhões. O aumento foi de 440% nos últimos quinze anos. Os maiores plantios acontecem na Austrália (22,7 milhões de hectares), Argentina (2,1 milhões de hectares) e EUA (2,0 milhões de hectares). Os dados são do Research Institute of Organic Agriculture (FiBL) e da IFOAM ­– Organics International.

“O Brasil posiciona-se de forma muito positiva quanto ao consumo de orgânicos e se iguala a países mais desenvolvidos como a Austrália, a Espanha e o Japão", afirma Morikawa.

Segundo levantamento feito pela Coordenação de Agroecologia e Produção Orgânica (COAGRE), da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo (SDC), vinculada ao MAPA, a área de produção orgânica no País pode ter ultrapassado os 750 mil hectares em 2016. A agricultura familiar representa 75% dos agricultores certificados.

“Os consumidores estão cada vez mais preocupados em comprar produtos com apelo sustentável, produtos com atributos de eficiência e de responsabilidades ecológica, econômica e social", completa Morikawa.

Nesse contexto, Álvaro Garcia, gestor do Programa de Aprovação de Insumos da IBD Certificações, expôs a procura crescente de certificações de insumos para a agricultura orgânica. “As empresas buscam a certificação dos insumos biodefensivos não apenas para atender a demanda da produção orgânica, mas também para suprir as requisições do mercado agrícola convencional, cada vez mais exigente", explica.


CASOS DE SUCESSO NA APLICAÇÃO DE BIODEFENSIVOS

Fazenda Agropecuária 3G

Proprietário Paulo Eduardo Garcia Junior

O proprietário realiza cultivo orgânico com 300 hectares de cana e 60 hectares de soja, com o uso de biodefensivos há vinte anos. Com o aprimoramento do manejo sustentável de pragas, conseguiu eliminar em 100% os danos causados pelas pragas nas lavouras.

O sistema de manejo com biodefensivos exige maior controle quando comparado com o cultivo convencional, pois requer constante capina das plantações para eliminar as ervas daninhas sem o uso de químicos. É necessária uma atenção especial para as formas de aplicação. O produto exige cuidados nas fases de transporte, armazenamento e aplicação. O seu efeito não é imediato como é no químico.

Grupo MNS (empresa distribuidora de hortifrutigranjeiros)

Programa Colheita Segura (PCS)

O objetivo é assegurar uma colheita com segurança, com repasse aos produtores de Boas Práticas Agrícolas (BPA) e manejo consciente da lavoura, com o uso preferencial de produtos biológicos.

O produto selecionado foi o pimentão. Foram produzidas 1.920 toneladas do produto, com índice de conformidade de 80% das amostras analisadas de resíduos. Para isso, foram realizadas em torno de mil visitas técnicas e mais de cem pessoas foram capacitadas.

De acordo com Francisco Araldo Pezzato Junior, gestor do PCS, e Thiago Ezio Moreira, gestor de Qualidade do Grupo MNS, “houve uma queda de cerca de 50% tanto no uso de fungicidas, quanto no de inseticidas", enquanto o emprego de defensivos biológicos passou de 3% para 31%.

Empresa Itaueira Agropecuária

Controle biológico na produção do melão Rei

O gestor da Itaueira Agropecuária – caracterizada como empresa líder na produção do melão Rei, com fazendas em quatro estados e exportadora para diversos continentes –, Tom Prado, afirmou que “25% dos produtos fitossanitários utilizados na produção são de origem biológica, sendo que a percentagem só não é maior devido à falta de biodefensivos disponíveis no mercado para todos os alvos de pragas e doenças".


LANÇAMENTO DE PESQUISA DE MERCADO

Mercado Brasileiro de Biodefensivos Agrícolas: Necessidades, Oportunidades, Desafios e Tendência

A ABCBio, em parceria com a Informa Economics IEG | FNP, anunciou o lançamento da primeira pesquisa qualitativa e quantitativa sobre o mercado brasileiro de biodefensivos. O crescimento deste mercado acompanha a tendência mundial de uma nova mentalidade dos produtores em relação à adoção do MIP.

Há uma carência de informações para as empresas fabricantes caracterizarem a demanda e as condições de uso dos defensivos biológicos. Os resultados do estudo possibilitarão maiores conhecimentos sobre as percepções, os hábitos e as tendências de recomendação e de uso de biodefensivos pelos agricultores em diversas culturas. O plano é iniciar os trabalhos neste mês e encerrá-los em fevereiro de 2018.

A proposta viabilizará economicamente a participação de empresas. “Os resultados da pesquisa serão cruzados com as informações mercadológicas das indústrias associadas formadas pelo nosso comitê estatístico. Isso nos proporcionará segurança quanto aos dados aportados e auxiliará na elaboração de projetos em prol da defesa do setor", finaliza Amália Piazentim Borsari, diretora executiva da ABCBio.