Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

O pior ficou para trás

Outubro de 2017

OS INDICADORES apontam que a economia brasileira retorna vagarosamente aos eixos, com crescimento econômico nos próximos trimestres. No entanto, diferentemente do verificado em ciclos anteriores – em que a recuperação era rápida e robusta –, a retomada da trajetória ascendente no Brasil será lenta. Desta forma, para 2018, é razoável supor o registro de uma variação positiva no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, a demonstrar que o pior, de fato, ficou para trás. E, para o agronegócio, vale lembrar que a Selic deve ficar abaixo de 7% e o câmbio abaixo do valor de 2017. Poderá haver instabilidades quando se aproximar a eleição.

No agronegócio brasileiro, é comum a crítica da sua expansão na produção de commodities em vez de haver avanços sobre a produção de alimentos de maior valor agregado. Embora isso deva ser um objetivo do setor, os desafios não são triviais e é necessário cuidado para avaliar se o investimento realmente proporciona um retorno. A intensificação dos esforços nas etapas associadas à produção do alimento para o consumidor final envolve um modelo de negócio distinto, com maior imobilização de capital e exigência de maior coordenação entre os elos da cadeia produtiva.

A propósito, desperta atenção o Índice de Participação na Exportação do Produtor (IPEP), calculado e publicado, nos últimos doze anos, pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CECAFÉ). O seu objetivo é estimar a participação do produtor de café Arábica no valor da mercadoria desembaraçada para exportação. Nesse período, o IPEP manteve-se próximo de 85%. Isso é uma demonstração de eficiência e competitividade do setor exportador de café verde brasileiro. Comparado com os outros países produtores de café, o Brasil é o país que transfere a maior parte do valor da exportação para os preços internos recebidos pelo produtor.

No mercado de soja, a expectativa de maior estoque na safra 2017/18, diante do aumento da produção nos Estados Unidos e do crescimento da área semeada no Brasil, aponta para mais um ano de pressão de baixa sobre os preços da soja. Mesmo assim, a queda nos custos de produção pode garantir um lucro de R$ 429,55 por hectare na safra 2017/18, na região de Rondonópolis-MT. Este valor é 32,6% superior ao resultado médio de 2016/17.

Neste momento, a agropecuária depara-se com a judicialização de questões contraditórias, o que traz insegurança jurídica e atrapalha o desenvolvimento das suas atividades. Dois casos podem ser citados como exemplos neste momento. O primeiro diz respeito à constitucionalidade da cobrança do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL): o Projeto de Resolução do Senado nº 13/17 aprovou a medida, enquanto a Advocacia-Geral da União (AGU) é contrária, de acordo com o parecer do Supremo Tribunal Federal (STF). O segundo caso constitui-se nas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) movidas contra artigos do Código Florestal, com a interrupção do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Programa de Regularização Ambiental (PRA).

Com prejuízos para a expansão e o fortalecimento do seguro rural no Brasil, assiste-se ao contingenciamento sistemático do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Para 2017, a Lei Orçamentária Anual (LOA) autorizou a aplicação de R$ 400 milhões para custear as despesas do PSR. Isso possibilitaria subvencionar em torno de 75 mil apólices, considerando os percentuais de subvenção definidos por modalidade de seguro rural. Mas, com o corte de 50% no orçamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), em março último, foram contingenciados R$ 310 milhões (77,5%) dos recursos do PSR. Assim, o Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural (CGSR), colegiado responsável pela gestão do Programa, aprovou a distribuição do orçamento do PSR (R$ 90 milhões) para o primeiro semestre de 2017 para as culturas de milho 2ª safra, trigo e outros grãos de inverno, café, cana-de-açúcar, olerícolas, seguro pecuário, seguro de florestas e seguro aquícola.

Nos combustíveis, tem-se o debate sobre a convergência dos objetivos das políticas energética, ambiental, industrial e de desenvolvimento econômico em torno de um único projeto. O Brasil será beneficiado com a otimização dos motores a combustão interna por meio da introdução do híbrido flex e da célula a combustível movida a etanol. O programa de revitalização do setor de biocombustíveis, RenovaBio, e o novo Inovar-Auto, batizado de Rota 2030, podem levar o Brasil a um grande protagonismo internacional ao elegerem uma solução que atende simultaneamente objetivos nas áreas de energia, meio ambiente e desenvolvimento econômico.

Nesta edição, a Agroanalysis apresenta uma entrevista de Sarah Theurich, diretora associada para América Latina da GeoEconomica. Em análise, está a sensibilização sobre a dimensão da geopolítica e os riscos geopolíticos diante da inserção internacional do agronegócio brasileiro. Com a globalização, o Brasil tornou-se, de forma rápida, uma potência mundial em alimentos, fibras e biomassa, com liderança na produção e na exportação em diversas cadeias produtivas. Como faz parte do circuito dos investimentos estrangeiros diretos para infraestrutura e logística, o País precisa tirar proveito dessa posição vantajosa.

O Caderno Especial da Agroanalysis apresenta apurados registros do 1º Fórum Brasileiro de Defensivos, organizado pela Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio). Entre 2015 e 2016, a quantidade de produtos biológicos registrados no MAPA passou de 139 para 277. O seu uso na agricultura brasileira está alicerçado no tripé composto pela disseminação do conhecimento para assistência técnica no campo, pela boa prática de produção para assegurar qualidade e pela logística eficiente para o produto chegar com condições adequadas à aplicação nas lavouras. Os biológicos fazem parte do manejo integrado de pragas na agropecuária nacional.