Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Aquicultura e pesca

A mais nova fronteira de produção de alimentos

Outubro de 2017

O BRASIL é o país com um dos maiores potenciais do mundo na produção de pescados. Temos a maior reserva de água doce do mundo, 5 milhões de hectares de lâmina d’água represados, uma costa marítima de 8,4 mil quilômetros de extensão, espécies nobres, clima favorável e matéria-prima em abundância para rações. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o País tem condições de produzir 20 milhões de toneladas de pescado por ano. Hoje, produz 1,4 milhão de toneladas.

O pescado é a proteína animal mais consumida no mundo, representando 35% do total. As suas exportações compõem 60% das exportações mundiais de proteína animal.

O consumo de pescados em nível mundial cresce de forma consistente. Passou de 9,9 quilos/habitante/ano, na década de 1960, para 14,4 quilos/habitante/ano, na década de 1990, e 20,0 quilos/habitante/ano, em 2014. As projeções da FAO para 2025 indicam um consumo médio de 21,8 quilos/habitante/ano, o que representa uma demanda adicional de mais 31 milhões de toneladas de pescados por ano.

O consumo nacional segue a mesma tendência: subiu de 6,55 quilos/habitante/ano, em 2005, para 10,57 quilos/habitante/ano, em 2015, segundo o MPA. Este crescimento levou o Brasil a ter déficits crescentes na balança comercial de pescados, chegando a US$ 915 milhões em 2016. A FAO coloca o Brasil como um dos países com maior potencial de crescimento do consumo para a próxima década.

Ao mesmo tempo, a aquicultura vem crescendo ao longo das últimas décadas e seguirá crescendo no próximo decênio: a FAO estima um aumento dos atuais 166 milhões de toneladas por ano para 196 milhões de toneladas por ano na próxima década. Para o Brasil, a estimativa é de um crescimento de 104% no volume da aquicultura no mesmo período, superando 2 milhões de toneladas por ano.

Enfim, temos um potencial de produção extraordinário, mercados interno e externo promissores e os maiores produtores mundiais reduzindo o seu ritmo de crescimento. Isso explica o número cada vez maior de empresas nacionais e internacionais que investem no setor de pescados no Brasil, como são os casos: do Grupo Calvo, que comprou a Gomes da Costa, a maior empresa de enlatados do Brasil; do fundo de investimentos Aqua Capital, que comprou a Genesias, do Fundo Caetés, que, por sua vez, investiu na empresa Peixes da Amazônia, Acre; da Regal Springs, maior produtora de tilápia do mundo, que se associou à Mar & Terra e anunciou investimentos de U$ 50 milhões para produzir 100.000 toneladas de tilápia por ano; da norueguesa AquaGen, maior empresa de genética de salmão do mundo, que comprou a Aquabel, maior em genética de tilápia do Brasil; e da Neovia, a gigante francesa de rações, que comprou a Nutrizon, grande produtora de rações para peixes em Rondônia.

Enfim, o “gigante começa a despertar”. É urgente, porém, que o País crie um ambiente mais adequado para o desenvolvimento da atividade, superando entraves relacionados a marco legal, carga tributária, investimentos em pesquisa, acesso ao crédito, assistência técnica e capacitação para a gestão profissional dos negócios. São incentivos à produção e à segurança jurídica para transformar o Brasil num grande produtor mundial de pescados e gerar emprego e renda para milhões de brasileiros.