Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Juca Andrade

O agronegócio está no dna da B3

Outubro de 2018

JUCA ANDRADE, Vice-Presidente De Produtos E Clientes Da B3

A importância do agronegócio para o mercado financeiro e o esforço para estimular o lançamento de títulos para financiar os produtores e rentabilizar as carteiras dos investidores fazem parte do conjunto de negócios da B3 (Bolsa, Brasil, Balcão), formada pela combinação entre a BM&FBOVESPA e a Cetip. Nesta entrevista, Juca Andrade comenta as oportunidades de negócios oferecidas pela empresa ao setor.

QUAL É A IMPORTÂNCIA DO AGRONEGÓCIO PARA A B3?

JUCA ANDRADE: O agronegócio é fundamental para a economia brasileira e está no DNA da B3. Temos raízes profundas nesse mercado desde a criação da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Após a fusão da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&FBOVESPA) com a Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip) que deu origem à companhia, o mercado do agronegócio ficou ainda maior e mais relevante para nós. Além dos mercados de derivativos listados, temos, agora, produtos de balcão e de dívida em uma única empresa, a B3.

Como o agronegócio precisa de financiamento para continuar a crescer e servir de âncora para a economia do País, os papéis do mercado de capitais e da B3 são essenciais. Com a combinação de operações, em março de 2017 criamos uma empresa com um leque ainda maior de produtos e serviços para os nossos clientes, incluindo desde o financiamento até a entrega física de commodities. Hoje, o agronegócio é uma única força dentro da companhia. Tratamos o setor de uma maneira holística, de modo a integrar toda a cadeia de valor na nossa oferta comercial.

NESSA RELAÇÃO COM BANCOS, TRADINGS, CORRETORAS E OPERADORES, EXISTE UM TABALHO PARA ASSESSORAR PLAYERS – EM ESPECIAL, OS AGRICULTORES – A UTILIZAR O MECADO DE DERIVATIVOS (FUTUROS E OPÇÕES) NAS ESTRATÉGIAS DE NEGÓCIOS DA B3?

JA: Sim. Temos parcerias com bancos, corretoras, agroindústrias e cooperativas agrícolas para disseminar o conhecimento na gestão de risco. Estes são os nossos multiplicadores em todo o País, principalmente junto ao produtor rural. Nossa área educacional, a B3 Educação, é utilizada na formação profissional dos nossos clientes. Acreditamos que, ao concentrarmos o nosso foco nesse público, poderemos contribuir ainda mais para o desenvolvimento do agronegócio e do Brasil. Trata-se de um trabalho que nunca termina, está em evolução constante.

De forma geral, ainda temos espaço para evoluir na difusão das melhores práticas e na diferenciação dos produtores e das empresas que adotam políticas de gestão de risco fazendo uso dos nossos instrumentos de hedge. Podemos ser mais criativos. Por exemplo, as políticas de concessão de créditos pública e privada poderiam premiar com condições mais competitivas os agentes que fazem gestão de risco, dado que eles contribuem para reduzir o risco na cadeia do agronegócio. Queremos estimular o debate. Por isso, temos, na B3, a Câmara Consultiva de Commodities, um espaço dedicado às discussões sobre as principais cadeias produtivas do agronegócio nacional.

EXISTE UMA CONTRIBUIÇÃO DA B3 NA ORGANIZAÇÃO DAS CADEIAS PRODUTIVAS DO AGRONEGÓCIO EM TERMOS DE COMO SE FINANCIAM, GERENCIAM RISCOS E OPERAM OS MERCADOS FINANCEIROS, DE CAPITAL E DE SEGUROS?

JA: As soluções da B3 para o agronegócio contribuem para a gestão de risco nas cadeias produtivas por meio de derivativos listados e de balcão. O produtor precisa de proteção, pois o setor rural é um dos mais imprevisíveis da economia, por conta das variações climáticas, hidrológicas e ambientais. Ele procura a B3 para minimizar riscos, com efeitos em toda a cadeia de valor. Os nossos produtos estão à disposição de produtores, cooperativas, indústrias de insumos, tradings, indústrias de processamento, entre outros.

Possuímos contratos acessíveis a qualquer tamanho de empresa e que contemplam mercados de commodities como boi, café, milho, soja, açúcar e etanol. Além da proteção contra a oscilação dos preços das commodities, temos o futuro de dólar, contra os riscos cambiais. Estamos muito dedicados a ampliar a liquidez dos instrumentos do agronegócio. Os volumes ainda não refletem a relevância do setor na economia brasileira. O nosso programa de formadores de mercado, que está em seu terceiro ano disponível para os produtos do agronegócio, serve para garantir referências de preço aos derivativos listados e, com isso, estimular a liquidez. Já temos nove formadores de mercado nos futuros de commodities. E as empresas do setor podem, ainda, financiar-se por meio da emissão de títulos de crédito ou de ações.

OS TÍTULOS DO AGRONEGÓCIO TIVERAM, PRIMEIRAMENTE, UMA EXPANSÃO FORTE NAS LETRAS DE CRÉDITO DO AGRONEGÓCIO (LCAs) E, MAIS RECENTEMENTE, NOS CERTIFICADOS DE RECEBÍVEIS DO AGRONEGÓCIO (CRAs). QUAL É A IMPORTÂNCIA DESTES INSTRUMENTOS?

JA: Estes instrumentos são interessantes para quem tem dinheiro disponível para investir e para quem precisa de recursos para crescer. Permitem às empresas financiar-se a custos mais atrativos do que os habituais empréstimos bancários. Nesses tempos de juros cada vez mais baixos na renda fixa tradicional, tais instrumentos atraem investidores interessados em aumentar a rentabilidade de suas carteiras com a diversificação. Esses títulos oferecem isenção de Imposto de Renda (IR) para pessoas físicas e, por isso, caíram no gosto dos investidores.

Num primeiro momento, o mercado ficou concentrado nas LCAs, emitidas por bancos com lastro em financiamentos vinculados à cadeia do agronegócio. Porém, a crise econômica dos últimos anos mudou um pouco esse cenário. Com a diminuição no ritmo de concessão de crédito bancário, esse lastro ficou mais escasso, as LCAs diminuíram e os CRAs ganharam espaço, alcançando uma carteira superior a R$ 30 bilhões. Os CRAs são uma opção de renda fixa com previsão de fluxo de caixa das remunerações e das amortizações dos títulos. Esta previsibilidade é muito boa para os investidores. É apenas o começo.

A COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM) PUBLICOU, NO COMEÇO DE AGOSTO, A INSTRUÇÃO Nº 600, QUE REGULAMENTA AS OFERTAS PÚBLICAS DOS CRAs. QUAIS SÃO OS BENEFÍCIOS PARA O MERCADO?

JA: A CVM fez uma consulta pública e aprimorou a regulação. As medidas são positivas e bem-vindas, pois foram construídas com o mercado. Ao regulamentar as ofertas públicas de CRAs pela primeira vez, a autarquia estabeleceu obrigações e vedações para a atuação das companhias securitizadoras. Estas poderão realizar ofertas públicas sem a contratação de instituições intermediárias até o valor de R$ 100 milhões se tiverem estrutura interna adequada.

A instrução definiu, por exemplo, os direitos creditórios que podem compor o lastro de uma emissão pública de CRA. Será permitido o uso de debêntures, desde que fique comprovada a vinculação da destinação dos recursos captados na emissão para o produtor rural. A partir do dia 31 deste mês, quando a Instrução entrar em vigor, o regime fiduciário será instituído em toda oferta pública de CRAs, com a constituição de patrimônio separado e auditoria das demonstrações financeiras. Tais títulos poderão ser adquiridos por investidores de varejo, e haverá critérios adicionais para a proteção destes investidores. Esperamos que o volume de emissões desses papéis aumente, uma vez que esse arcabouço regulatório poderá ajudar a reduzir a percepção de risco e resultar numa elevação da demanda.

O RENOVABIO É UM MECANISMO ENGENHOSO DE VALORIZAÇÃO DO POTENCIAL DE DESCARBONIZAÇÃO DOS BIOCOMBUSTÍVEIS. COMO A B3 PODE CONTRIBUIR NA SUA IMPLEMENTAÇÃO?

JA: Em 2015, ao assinar o Acordo de Paris, o Brasil assumiu um compromisso bastante expressivo de redução de emissões: 37% até 2025. Isso vai exigir um grande esforço da sociedade, uma mudança de postura das empresas e dos cidadãos em geral. Não podemos mais ser lenientes com a sustentabilidade do Planeta; temos de fazer a nossa parte para reduzir os efeitos que levam ao aquecimento global. O programa RenovaBio surge dentro desse contexto e tem por objetivo criar o primeiro mecanismo nacional de práticas de mitigação, por meio dos Créditos de Descarbonização de Biocombustíveis (CBios).

Os títulos serão transacionáveis de energia renovável e permitirão a redução de emissões de gases do efeito estufa a partir de 2019. Estamos atentos às possibilidades desse novo mercado. Juntamente à Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) e à Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), a B3 estuda as oportunidades associadas ao programa de emissão dos CBios. Aguardamos as condições legais e regulatórias para estimular o lançamento e a negociação destes papéis.

A B3 POSSUI PAPEL IMPORTANTE NA FORMAÇÃO DE OPINIÃO MEDIANTE A REALIZAÇÃO DE PARCERIAS COM ENTIDADES DO AGRONEGÓCIO?

JA: O Brasil precisa de debate e, principalmente, de diálogo. As empresas têm o seu papel a cumprir, e a B3, nesse sentido, acredita nas parcerias com as entidades do agronegócio para contribuir com o desenvolvimento da economia brasileira. Não podemos ser vozes isoladas em mercados que precisam de ação conjunta. Temos trabalhado firmemente nesse propósito e mantemos parcerias relevantes junto a Ministérios, empresas e associações, como a ANBIMA e a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), entre outras. Estas parcerias ajudam-nos a falar com toda a cadeia do agronegócio e os seus mais diversos participantes, dando voz a quem produz, trabalha ou faz negócios no campo, e permitem o diálogo com as autoridades. Também nos ajudam a estar cada vez mais próximos dos nossos clientes, antecipando tendências e revelando oportunidades.