Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Ainda andamos para frente

Outubro de 2018

NO MOMENTO da leitura deste Editorial, os dois candidatos que irão concorrer ao segundo turno da eleição presidencial já são conhecidos. Infelizmente para o País, poucas vezes enxergamos uma divisão tão raivosa de forças. É preciso que o vencedor do segundo turno tenha postura e competência para unificar o País, cumprir estritamente a lei e recolocar a economia nos eixos. O ajuste fiscal e a reforma da previdência não podem esperar mais. Não será tarefa fácil.

Mais uma vez, o setor agropecuário é o menos incerto. Os preços poderão ter maior flutuação, mas a demanda é garantida. A inflação e os juros não devem explodir. Mais uma vez, reforçamos o cuidado ao lidar com a nova realidade de inflação: na casa dos 4%. Juros estes que, antes, eram considerados baixos (por exemplo, 12% ao ano, agora, são altíssimos). E o dólar pode até chegar ao nível de R$ 4,50, mas tende a cair durante o início do próximo ano. Portanto, todo produtor deve fazer seu planejamento levando em conta uma nova realidade.

Nesse contexto, o setor agropecuário também sofreu menos com a crise econômica brasileira nos últimos anos. Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) confirmam isso: de 2014 a 2017, enquanto a economia nacional encolheu, em média, 1,38% ao ano; a agropecuária cresceu 3,75%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Neste momento, o cenário externo está complicado, com preços de combustíveis mais elevados, dólar valorizado e embate nas relações comerciais como entre China e Estados Unidos. Com tudo isso, neste ano, o Brasil deverá fechar novamente com um excelente balanço comercial no agronegócio, além de inflação sob controle e PIB positivo.

Ao longo desta edição da Agroanalysis, os articulistas apresentam suas preocupações e observações pertinentes a um período pré-eleitoral da maior importância para o Brasil. As colocações são diversas: apontam o caso do glifosato, que teve o seu uso suspenso e, depois, liberado um mês antes do plantio da soja; discutem o longo tempo para registrar uma molécula no Brasil (três vezes maior do que em países com agricultura relevante); e citam o fato de que todos os candidatos falam bem do agro, mas o extremismo (o “nós contra eles") pode aumentar e trazer riscos para todos os setores da economia.

O destaque de capa evidencia pontos polêmicos do Projeto de Lei (PL) dos defensivos que tramita na Câmara dos Deputados. Uma questão muito importante refere-se à proposta de mudança na coordenação do processo de avaliação e aprovação de novas moléculas – que tem demorado, em média, oito anos no Brasil (há casos de onze anos de espera!). A ideia do novo PL é dar ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) o papel de coordenar o processo, com definição de metas, sem excluir os poderes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de negar ou aprovar o registro de uma nova molécula. Esse ponto precisa ser definitivamente entendido e esclarecido.

A morosidade do processo de aprovação de novos defensivos provoca a perda de competitividade da agricultura brasileira. Segundo simulações, perdas de 5% a 10% de produtividade nas principais culturas do agronegócio brasileiro provocariam efeitos enormes para o setor e a economia nacional, com prejuízos na margem dos produtores, nas exportações, na geração de empregos, no PIB, entre outros fatores.

No setor de laticínios, depois de sete altas consecutivas no preço do leite para o produtor (de fevereiro a agosto de 2018), a expectativa é de virada no mercado, com a maioria dos laticínios apontando para queda no preço do leite, principalmente no Sul do País, onde a produção aumentou com mais força nos últimos meses. Pensando em 2019, para o primeiro semestre, espera-se um quadro mais ajustado entre a oferta e a demanda, fator positivo para as valorizações do leite no mercado brasileiro. A expectativa é de crescimento da demanda interna, porém o consumo ainda deverá ficar em níveis anteriores à crise econômica. A maior oferta de grãos, no Brasil e entre os principais produtores internacionais, deverá pressionar para baixo o custo da alimentação. No Brasil, as cotações em reais dependerão do câmbio!

Na entrevista do mês, Juca Andrade, vice-presidente da B3 (originada da fusão da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo – BM&FBOVESPA – com a Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos – Cetip), comenta a importância do agronegócio para o mercado financeiro e fala do esforço da empresa para estimular o lançamento de títulos para financiar os produtores e rentabilizar as carteiras dos investidores. Há espaço para a difusão das melhores práticas e a criação de produtos e políticas que, por exemplo, diferenciem produtores e empresas que utilizam instrumentos de hedge para gestão de risco.

Pela sexta vez, a Agroanalysis traz como Caderno Especial uma matéria da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), que representa uma área de prioridade para os órgãos federais de sanidade vegetal. A maior prova disso está no número de produtos biológicos aprovados pelo MAPA em anos recentes. Esta tendência deve continuar de forma mais intensa. A entidade apresenta a primeira pesquisa para mensuração do negócio no Brasil. O levantamento buscou, também, captar a percepção dos nossos produtores sobre o uso de produtos biológicos no processo de produção das suas culturas.