Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Macroeconomia

A economia pós-eleições

Outubro de 2018

O SEGUNDO semestre de 2018 foi marcado amplamente pelo processo eleitoral, que colocou em segundo plano o ambiente econômico atual. Lamentavelmente, o debate criado em torno desse processo furtou-se, quase inteiramente, das propostas e das alternativas econômicas para os próximos anos.

Esse é um quadro relativamente assustador, pois, diferentemente das últimas quatro eleições, o próximo presidente herdará uma economia que vivencia profundos desajustes macroeconômicos.

Sem sombra de dúvida, a maior urgência em termos de necessidade de ajuste recai sobre o campo fiscal. A aceleração dos gastos públicos promovida entre 2006 e 2014 levou a União a um estado de profundo desequilíbrio das suas contas.

Nesse sentido, o Brasil chegou a apresentar superávits primários superiores a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) no início da década passada. Estes resultados foram construídos, basicamente, por meio do aumento da carga tributária, que saltou para mais de 35% do PIB. De qualquer forma, a dimensão desses resultados, considerando uma dívida pública naquele período bem menor do que a atual, criou tempo para que se promovesse um ajuste efetivo pelo lado dos gastos públicos na década passada (o que não foi feito).

Os fundamentos macroeconômicos permaneceram inalterados durante o primeiro mandato do presidente Lula, que manteve as contas públicas ajustadas e a inflação sob controle em um contexto de regime cambial flutuante.

No entanto, esse quadro foi paulatinamente sendo alterado a partir de 2005/2006. Os gastos públicos passaram a crescer de forma acelerada, erodindo de forma gradual o resultado das contas do governo federal. Ao mesmo tempo, o Banco Central (BCB) passou a tolerar patamares inflacionários relativamente mais elevados, abandonando o seu compromisso de praticar uma política monetária orientada para atingir o centro de meta da inflação.

Esse quadro foi complementado, naquele período, por crescentes estímulos à demanda agregada via crédito, o que proporcionou um aumento do consumo das famílias centrado, predominantemente, na aquisição de bens duráveis.

Esse conjunto de ações só foi possível em face do aumento dos preços internacionais de commodities a partir de 2005 e da crise financeira dos EUA, que levou o banco central norte-americano a baixar a taxa de juros a zero. O influxo de dólares no País a partir do efeito conjugado desses fenômenos levou a uma expressiva apreciação do real frente às demais moedas. Este fato contribuiu para conter a evolução dos preços no Brasil, o que permitiu ao BCB praticar taxas de juros relativamente mais baixas.

Essa linha de conduta foi mantida e agravada durante o governo Dilma. Essa lógica foi sintetizada na finada “Nova Matriz Econômica", que expressava as orientações de política econômica durante o primeiro mandato da presidente. De acordo com a “Nova Matriz", os resultados fiscais deveriam ser menos expressivos (ou seja, maior espaço para aumentar gastos), as taxas de juros deveriam situar-se em patamares mais baixos (isto é, maior tolerância a uma inflação mais elevada) e a taxa de câmbio deveria situar-se em um patamar que tornasse a economia mais competitiva (o que contribuiu para acelerar a inflação).

Essa estratégia torpe foi coroada pela continuidade dos estímulos ao crédito, cujo foco passou a ser o setor imobiliário.

Os desajustes cobraram seu preço em 2015, e, desde então, o Brasil convive com um quadro recessivo (erroneamente chamado de crise), fruto de excessos de estímulo ao crédito que levaram a um patamar insustentável do endividamento das famílias. Além disso, o quadro fiscal apresenta-se profundamente desajustado, com um expressivo déficit da União.

O próximo presidente herdará uma economia que marcha em ritmo lento, dado o contexto de desalavancagem das famílias (que reduziram seu consumo nesse processo). Ao mesmo tempo, terá que lidar imediatamente com a indigesta questão fiscal, cujo foco inicial deverá ser a reforma previdenciária.

Essa herança contempla, ainda, uma economia que vivenciou um período de baixos níveis de investimento produtivo e em infraestrutura (em outras palavras, uma economia despreparada para crescer de forma sustentável).

Em síntese, o próximo presidente terá pela frente desafios que não são pequenos e que demandarão enormes esforços nos campos político e econômico.