Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Demanda aquecida e câmbio

Fatores positivos para a soja na safra 2018/19

Outubro de 2018

DEVIDO À expectativa de redução da produtividade da soja e aumento dos custos de produção provocado pelo câmbio, o lucro, na atual safra 2018/19, deverá ser inferior ao da safra passada.

Os preços da soja grão tiveram forte alta ao longo deste ano, inclusive durante a colheita. A maior demanda pelo grão brasileiro, com a quebra de produção na Argentina e a briga comercial entre a China e os Estados Unidos, favoreceu os embarques nacionais. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma exportação de 74,00 milhões de toneladas para 2018, frente ao recorde até então de 68,15 milhões de toneladas embarcadas em 2017. Além da demanda aquecida, o câmbio valorizado puxou para cima as cotações em reais, chegando a valores próximos de R$ 94,00 por saca de 60 quilos em Paranaguá, no Paraná.

Demanda aquecida e câmbio

No curto e no médio prazos, o dólar valorizado continuará atuando como fator de sustentação das cotações no mercado brasileiro. Além disso, a demanda firme, os estoques internos reduzidos e a entressafra nos Estados Unidos deverão colaborar com esse cenário. Os estoques internos estão estimados em 3,86 milhões de toneladas ao final de 2018, 26,6% menores em relação ao volume no final do ano passado, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE).

Para o vendedor, neste semestre, poderão aparecer oportunidades de travar o preço ou negociar antecipadamente a produção 2018/19. No mercado internacional, o quadro está um pouco diferente. As cotações estão frouxas diante da expectativa de uma safra recorde nos Estados Unidos em 2018/19. A colheita começará em outubro/novembro.

No relatório de agosto, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) estimou a safra norte-americana em 124,81 milhões de toneladas, frente aos 117,30 milhões de toneladas estimados em julho – um salto de 6,4%. O recorde até então foi registrado na temporada passada, quando foram colhidos 119,52 milhões de toneladas. Por fim, outro ponto de atenção é com relação a uma possível retomada da conversa entre os Estados Unidos e a China quanto às tarifações, o que poderia mexer com o cenário do lado da demanda.

RESULTADOS ECONÔMICOS

No Brasil, a alta nos preços da soja favoreceu o resultado da atividade na temporada 2017/18. Considerando a região de Rondonópolis-MT, o preço médio de venda do grão entre junho de 2017 e julho de 2018 foi de R$ 66,16 por saca de 60 quilos, segundo um levantamento da Scot Consultoria. Nesse cenário, o lucro por hectare (ha) foi de R$ 155,10. Foram consideradas as estimativas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) para os custos de produção (R$ 3.634,54/ha) e a produtividade média (57,28 sacas/ha) na temporada em questão.

Demanda aquecida e câmbio

Alterando o preço de venda para os valores máximos que a soja atingiu na região neste ano – ao redor de R$ 77,00 por saca –, o lucro estimado sobe para R$ 776,02/ha.

Para 2018/19, a expectativa é de uma redução de 1,8% na produtividade média no estado, em função da previsão de um clima menos favorável especialmente no Centro-Oeste. Com relação aos custos de produção, o câmbio impactou negativamente os preços dos insumos. O aumento médio estimado em 2018/19 é de 5,4% em relação à safra que está se encerrando.

Do lado dos preços de venda para a temporada 2018/19, os contratos futuros de soja na B3 (antiga BM&F) apontam para uma saca próxima de US$ 20,00 para o primeiro trimestre de 2019 em Paranaguá-PR. Considerando um câmbio entre R$ 3,90 e R$ 4,00, falamos de uma saca entre R$ 78,00 e R$ 80,00.

Levando em conta o diferencial de preços médios ocorridos nos últimos três anos, de -13,0%, nas cotações de Rondonópolis-MT em relação às de Paranaguá-PR, a expectativa é de uma saca entre R$ 65,00 e R$ 70,00 em Rondonópolis no primeiro trimestre de 2019. Nesse caso, o lucro estimado é de R$ 80,49/ha. Além do aumento dos custos de produção, a menor produtividade deverá prejudicar os resultados (frente à safra 2017/18) ao se considerar a venda no primeiro trimestre de 2019.