Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Um novo Mercosul?

Novembro de 2016

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

Outros textos do colunista

REUNIÕES E reuniões sucedem-se entre lideranças privadas e governos dos países do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) com os objetivos de melhorar a harmonização das políticas macroeconômicas e setoriais e permitir um trabalho mais articulado do bloco frente a terceiros mercados.

Mais recentemente, com as mudanças nos governos da Argentina e do Brasil, uma brisa liberal varreu o Cone Sul, uma vez que o Paraguai e o Uruguai já estavam nessa mesma página. Seja como for, cresce o convencimento entre os atores referidos de que precisam sair do discurso solidário para caminhar concretamente rumo a acordos ambiciosos com grandes mercados importadores. E a ideia de país protecionista fechado vai ficando para trás. Apesar de alguns setores específicos defenderem uma espécie de “reserva de mercado” via medidas protecionistas, a maioria do empresariado regional já entendeu que a abertura mais ampla acaba beneficiando todo mundo.

O Acordo Transpacífico não deixou de ser uma provocação para o MERCOSUL. Ficar de fora daquele poderoso bloco foi negativo e mostrou a lentidão de nossos negociadores internacionais. Agora, o próprio Itamaraty, reforçado com a "aquisição" da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), transforma-se em agente catalizador de alianças, retomando as negociações com a União Europeia. O ministro da Agricultura brasileiro, por sua vez, convencido da necessidade de abertura de novos mercados, especialmente asiáticos, comandou uma recente viagem de técnicos e empresários a vários países de tal região em busca de parcerias.

Do ponto de vista do agronegócio regional, tal atitude é essencial, por razões óbvias: somos a única área continental do Planeta capaz de responder com rapidez à crescente demanda global por alimentos, energia e fibras. Temos terra, tecnologia e gente capaz em todas as cadeias produtivas. Mas, ainda precisamos afinar melhor nossas práticas internas. Ainda existem desconfianças regionais entre os países, por velhas mazelas que não mudam. Entre elas, está a incrível dificuldade de o açúcar brasileiro acessar o mercado portenho, tema que se arrasta há décadas.

O certo é que não dá mais para competir entre nós para chegar a mercados compradores, e o exemplo da soja é gritante: juntos, os países do MERCOSUL produzem mais da metade da soja mundial e ficam brigando por acessos especiais.

Em recente evento do LIDE em Buenos Aires, até o tango foi usado para provocar os agentes privados e os representantes dos governos da Argentina e do Brasil. No início do evento, foi lembrado o tango “Cuesta Abajo”, de Gardel e Le Pera, como desafio às lideranças atuais: "Si arrastré por este mundo la verguenza de haber sido y el dolor de ya no ser...". A interpretação desta letra é clara: quem tem responsabilidades públicas ou privadas tem, agora, que tomar decisões que orientem o futuro da região no cenário global. Porque, se isso não for feito, haverá de chorar nesse futuro, quando não mais terá essas responsabilidades e, portanto, nada mais poderá fazer. E também foi dito que, se tivéssemos um trio de negociadores como a poderosa e trinacional linha atacante do Barcelona, com Messi, Neymar e Suárez, ninguém seguraria o agro do MERCOSUL. Seria um gol atrás do outro, e seríamos mesmo os campeões mundiais da alimentação.