Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Brasil

Pecuária na economia em recessão

Novembro de 2016

A Agroanalysis apresenta pelo nono ano seguido o Caderno Especial sobre pecuária, sempre editado em novembro. Nos últimos tempos, conta-se com o apoio e as sugestões do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), responsável por iniciativas louváveis no setor. Os textos exploram assuntos interessantes e variados. No começo, traçamos uma rápida visão da situação enfrentada pela criação com a recessão da economia brasileira.

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O Acordo de Paris na Conferência das Partes sobre a Mudança Climática (COP-21) e a aplicação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) em função do novo Código Florestal também são objetos de análise. As questões do futuro em termos das mudanças tecnológicas e das exigências de qualidade e competitividade da cadeia produtiva são vistas como fatores de pressão para as propriedades rurais profissionalizarem a gestão. Para completar, tem-se a ligação de fatores como infraestrutura, nutrição e defesa sanitária com a rentabilidade da pecuária.


RETRATO DE UMA TEMPORADA DIFÍCIL

Menor produção bovina

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Em 2016, o Brasil acumula dois anos de Produto Interno Bruto (PIB) negativo, com reflexo muito negativo no consumo de proteína animal. No caso da carne bovina, houve uma grande queda no consumo. Muitos frigoríficos fecharam as portas. Com margens baixas, há uma queda de braço entre a indústria e os criadores. Em fase de retenção de fêmeas, cuja participação na quantidade de abate vem em queda, a produção fica menor. A estiagem afetou muito a engorda de animais no Centro-Oeste, enquanto a alta no preço do milho desestimulou o confinamento. Os preços do bezerro, do boi magro e do boi gordo tentam resistir, mas é difícil remunerar a todos na cadeia.

Retenção de fêmeas

A menor taxa de abate verificada no ano passado combina queda na quantidade abatida de animais com aumento no tamanho do rebanho. A redução na quantidade abatida ocorre praticamente nas matrizes, retidas para produzir os bezerros. Isso promove aumento no rebanho. Essa situação deve reproduzir-se novamente neste ano. Se a recessão na economia ainda persistir com força em 2017, será um duro teste para a manutenção dos atuais níveis de preços. Nesse contexto, existe, ainda, a concorrência forte das outras carnes.

Balanço das exportações

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Há um esforço enorme para aumentar as exportações na proteína animal de um modo geral, seja por parte do Governo ou da iniciativa privada. Na carne bovina, houve um aumento na quantidade embarcada, mas uma queda na receita. Em comparação com o ano passado, a diferença não deverá ser significativa em termos de entrada de divisas. A grande novidade certamente é a China, sem contar ainda Hong Kong. A negociação com os Estados Unidos é promissora, assim como com os países do Leste Asiático, como Japão, Vietnã, Malásia, Tailândia, entre outros.


BUSCA DA PRODUÇÃO EFICIENTE

FRANCISCO BEDUSCHI, Presidente do GTPS e coordenador da Iniciativa de Pecuária do Instituto Centro de Vida (ICV)

Tendo como objetivos acabar com a pobreza, lutar contra as desigualdades e combater as mudanças climáticas, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) elaborou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2015.

O documento, assinado por 193 países, entre eles o Brasil, contempla dezessete princípios objetivos e tem a pretensão de equilibrar a prosperidade humana e a proteção do Planeta até 2030.

Nessa direção, sabemos que a pecuária brasileira é peça fundamental, pois ocupa 60% da área antropizada no Brasil, sendo fonte de subsistência para cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Desde a sua criação, o GTPS atua diretamente relacionado com o 17º princípio da agenda, chamado de Parcerias em Prol das Metas.

No final de 2015, lançamos o Manual de Práticas para Pecuária Sustentável, sob a premissa de que o uso adequado de tecnologias sustentáveis melhora as características físico-químicas do solo e aumenta o acúmulo da sua matéria orgânica, melhorando, com isso, o balanço de carbono da criação.

Para cada elo da cadeia produtiva avaliar a sua contribuição na busca pela sustentabilidade, em junho último produzimos o Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável (GIPS). Para disseminar o seu uso, o próximo passo é trabalharmos no desenvolvimento de uma plataforma online. A intenção é estimular os usuários a fazerem uma autoavaliação, enxergarem os gargalos e trabalharem num processo de melhoria contínua.

Enfim, a pecuária representa um vasto leque de oportunidades para contribuir com a mitigação das mudanças climáticas. O setor faz parte da solução, e não do problema. Cabe-nos, assim, intensificar o uso das tecnologias sustentáveis e disseminar os bons exemplos.


PECUÁRIA BRASILEIRA: DADOS E ACESSOS

ÉDSON BOLFE, Coordenador do Sistema Agropensa da Secretaria de Inteligência e Macroestratégia (SIM) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Desde o século XVI, a pecuária brasileira participa do processo histórico, cultural e geográfico de desenvolvimento do País. Nas últimas décadas, esta importante atividade incorporou diversas inovações tecnológicas e, hoje, ocupa papel de destaque na economia e na sociedade.

A Embrapa, por meio do Sistema Agropensa, analisa inúmeras informações e dados da agropecuária, tendo, em 2016, organizado e disponibilizado as bases públicas geradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) e da Pesquisa Trimestral do Abate (PTA), por exemplo, estão disponíveis em uma plataforma amigável de painéis interativos via dashboards, estruturados e categorizados por meio de ferramenta de business intelligence (BI).

Da mesma forma, podem ser acessados os totais dos rebanhos de bovinos, bubalinos, ovinos, caprinos, vacas ordenhadas, espécies comerciais da aquicultura, entre outros. Registros sobre produção, procedência, rendimento, preço médio de produtos de origem animal, como leite, ovos, couro e lã, também fazem parte da base de dados.

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Indicadores sobre o abate de diferentes rebanhos (bois, vacas, novilhas, novilhos, vitelas, vitelos, frangos e suínos) podem ser acessados por número de animais e peso das carcaças. Todas essas informações, disponíveis em escalas para o Brasil, regiões, estados e municípios, podem ser analisadas em diferentes períodos desde 1990, com geração de gráficos, tabelas unitárias ou relatórios comparativos.

Desta forma, o usuário obtém rapidamente respostas sobre as questões de interesse do setor da pecuária brasileira. A ferramenta é uma valiosa fonte de informação para pesquisadores, analistas financeiros, empresários, gestores públicos, jornalistas, estudantes e profissionais da área. Os dados e as informações podem ser aplicados para a tomada de decisão e no planejamento estratégico rural, colaborando com o entendimento e a evolução da pecuária nacional, tornando-a ainda mais competitiva.


MONITORAMENTO DA RESTAURAÇÃO FLORESTAL

LEDA FONTELLES, Especialista em Conservação do programa Agricultura e Alimentos do WWF-Brasil

A restauração florestal busca, de forma intencional, recuperar uma área degradada para restabelecer sua estrutura e função ecológica. Esse processo é fundamental para recuperar ecossistemas reduzidos pela degradação, tais como água, biodiversidade, fixação de carbono etc.

Atualmente, o Código Florestal é o principal marco legal que obriga a restauração florestal no Brasil, por meio das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e da Reserva Legal (RL). A estimativa governamental, traduzida em meta na COP-21 de Paris, é de recuperar 12 milhões de hectares. Viabilizar a recuperação ambiental nesta escala e monitorar a sua efetividade são dois grandes desafios.

Responsáveis legais pelas propriedades e pelos passivos de desmatamento, muitos produtores rurais entendem a restauração florestal como gasto e perda de área produtiva. Por isso, a existência de mecanismos efetivos de financiamento e Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) poderia auxiliar na aceleração e na qualificação do processo de restauração.

Nesse sentido, por meio dos programas de conservação e das instituições parceiras, o WWF-Brasil busca metodologias mais econômicas e alternativas de restauração. Essa ação permite uma receita financeira para diminuir e compensar os custos da recuperação ambiental. Por isso, ampliamos algumas pesquisas em áreas em processo de restauração com a introdução de Veículos Aéreos Não Tripulados (os VANTs), ou mais conhecidos como drones.

O estudo está sendo realizado em três regiões-piloto: 7,0 hectares de Cerrado no núcleo rural de Pipiripau-DF; 9,5 hectares de Mata Atlântica em Lençóis Paulista-SP; e 16 propriedades rurais na região amazônica em Apuí-AM. O processo ainda está no início, com a coleta de dados, o teste de tecnologias e a comprovação de hipóteses sobre a efetividade em obter os dados e o custo do monitoramento com drones.

Essa pesquisa tem, também, como objetivo desenvolver uma metodologia de monitoramento da efetividade dos processos de restauração florestal para as áreas da Amazônia. O trabalho está sendo feito em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Embrapa Instrumentação e o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).

Atualmente, avaliamos as potencialidades de diferentes modelos de VANTs e a qualidade dos dados obtidos em voos com diferentes configurações de altitude, velocidade, recobrimento e sensores. A proposta é detectar os melhores equipamentos em diferentes contextos e comparar os resultados com as metodologias tradicionais de monitoramento. Até o momento, têm sido feitos sobrevoos em áreas implantadas em 2012 e que foram monitoradas até 2015.


NÃO COMPRAR DE QUEM DESMATA É COMPRAR DE NINGUÉM

ALCIDES TORRES, Sócio da Scot Consultoria

As manchetes das grandes redes de supermercados e a rede de comida rápida McDonald's anunciam a não compra de carne de frigoríficos que abatem boiadas originárias de áreas de desmatamento.

E seguem outras matérias: “Carrefour e McDonald's estabeleceram critérios de compra de carne bovina de áreas sustentáveis" (Diário de Cuiabá – 03/09/2016); “Empresas buscam carne verde para não maltratar boi nem desmatar Amazônia" (UOL – 04/10/2016); “Carrefour veta compra de carne de área desmatada na Amazônia" (O Estado de S. Paulo – 25/08/2016).

Será que, de repente, essas redes de distribuição da carne bovina tiveram uma febre de civismo? Mas, é o uso do poder econômico – que deveria ser do Estado – para policiar quem produz em obediência às regras e quem as não respeita. É um precedente perigoso e radical.

E os exageros seguem. Há quem não comprará carne de frigoríficos dos fazendeiros obedientes às leis do desmatamento. Parece ser um ato de intimidação, truculência e arbitrariedade.

Vejam mais esta: “Rede de supermercados Carrefour anuncia compromisso com o desmatamento zero da Amazônia. Pelo acordo, alinhavado com a ONG ambientalista Greenpeace, a empresa monitorará os fornecedores de carne, a fim de bloquear a compra de fazendeiros com gado em área de floresta cortada. O boicote é a qualquer tipo de desmatamento, ilegal e legal" (O Estado de S. Paulo – 25/08/2016).

É preciso explicar a impossibilidade de produzir alimentos, animais ou vegetais, a partir da biomassa sem desmatar. Esses paladinos do meio ambiente deveriam fechar as portas e deixar de vender alimentos? Quem daria semelhante conselho ensandecido? Esse é o lado negativo, tenebroso e radical.

Existe, é claro, o lado positivo. É importante todos saberem que a pecuária brasileira exporta perto de um quinto da sua produção com respeito aos biomas, aos rebanhos, aos vaqueiros, aos fazendeiros e aos consumidores.

Apesar de visarem promover as marcas dessas redes de supermercados e lanchonetes, essas ações atestam que esses compradores vão além de distribuir alimentos garantidos pelo serviço de inspeção federal. O consumidor, brasileiro e estrangeiro, possui a certeza de que a carne bovina ali exposta, seja ela in natura ou processada, é legal sob todos os aspectos. Por isso, um agricultor ou pecuarista precisa, hoje, ter, entre seus consultores, um advogado, tal a quantidade de normas, regras e portarias a que está submetido.

Essas ações são boas, também, por selecionar pecuaristas competentes que extraem do solo, da água, da energia solar, das pastagens e dos bovinos. O seu produto é saudável, nutritivo e acessível aos consumidores de diferentes faixas de renda. É um modelo de exploração sustentável, desenvolvido com tecnologia nacional para a produção de alimentos nos trópicos.

Por fim, como sempre há esperança no final do túnel, vejam: “a Arcos Dourados, maior franqueadora da rede de comida rápida McDonald's no mundo, anunciou o início de aquisição de carne produzida em áreas de pecuária considerada como sustentável no bioma amazônico" (Reuters – 17/08/2016).


INTENSIFICAÇÃO E EXCLUSÃO NA CRIAÇÃO

MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA, Sócio e coordenador da divisão pecuária da empresa AGROCONSULT

O nível tecnológico da pecuária brasileira aumentou com consistência nos últimos 25 anos. O que aconteceria se tentássemos produzir o mesmo volume de carne bovina ofertado em 2015 com o nível de tecnologia de 1990? Mais 250 milhões de hectares de florestas precisariam ser transformados em pastagem e incorporados ao sistema de produção.

No entanto, não se trata de um ganho facilmente perceptível, pois o nível tecnológico da produção pecuária aumentou num ritmo bem inferior ao da agricultura. Mas, essa discussão fica para outro momento.

Quando se constata um ganho médio na produtividade, a primeira impressão que se tem é de que todas as unidades produtoras estejam avançando de forma igual. Mas, na prática, não é bem assim que acontece.

Uma parcela dos produtores segue na frente com a incorporação de tecnologia e modernização do modelo de produzir em velocidade muito superior. Estes criadores criam condições de agregar outras áreas, além de aumentar o rebanho por unidade disponível de pasto.

Desconfiado, outro grupo tende a acompanhar o primeiro, mas num ritmo mais lento. E, no final, vem o grupo dos produtores sem evolução nos sistemas de produção. Estes não incorporaram quase nada de tecnologia e, quando muito, alteraram apenas um pouco o nível de produtividade. Estão estagnados no tempo.

Infelizmente, na pecuária, o grupo estagnado é o mais numeroso. Tomando como base o censo do IBGE de 2006, é possível fazer uma segmentação: estimamos em cerca de 1,4 milhão de pecuaristas em estado precário, enquanto algo em torno de 300 mil criadores teria chegado em 2016 com condições de se manter na atividade. E, deste total, apenas cerca de 50 mil produtores estariam incorporando tecnologia em ritmo desejável, a ponto de se manterem na atividade pelos próximos anos.

Esse retrato de diferentes estratos tecnológicos explica o processo de exclusão em curso na pecuária nacional. Como os preços reagem aos movimentos de mercado, se a demanda for a mesma para todos os players, os preços tendem a se adaptar aos pecuaristas de maior nível de tecnologia, responsáveis pela maior parcela de oferta.

Resguardadas as proporções e as diferenças de escala, esse mesmo comportamento é observado entre o público do Rally da Pecuária, em que 20% dos mais produtivos respondem por 50% das arrobas vendidas no total.

Com maiores níveis de produtividade, a pecuária é mais rentável, pois os ganhos em escala permitem aumentar o lucro da fazenda, mesmo com margens mais baixas por unidade produzida. Sendo assim, o pecuarista mais produtivo suporta preços de mercado inferiores. E vai além, haja vista que, no longo prazo, a sua resposta às quedas de margens é justamente aumentar ainda mais a oferta, com incorporação de tecnologia.


DEFESA SANITÁRIA ANIMAL

Vacinas e vacinações

Substâncias de natureza proteica que induzem a formação de anticorpos, as vacinas possuem a ação básica de proteger os animais contra os diferentes agentes causadores de doenças. Quando usadas corretamente, elas induzem no animal a formação de anticorpos contra uma doença específica durante um determinado período, que pode ser diferente conforme o microrganismo.

Parte importante do calendário sanitário de uma propriedade, a vacinação apresenta excelente relação custo-benefício: as doenças podem ser prevenidas e erradicadas pelo aumento da imunidade do rebanho, sem prejuízos econômicos, epidemias e barreiras sanitárias. É importante lembrar que nenhuma vacina gera imunidade de 100% nos animais.

Embora não tenha indicação terapêutica, o uso da vacina quando a doença estiver presente no rebanho pode reduzir o aparecimento de novos casos da enfermidade, com controle do surto e diminuição do dano.

Uma das causas comuns da diminuição da imunidade do rebanho é a entrada de animais de “compra" ou trazidos de outras propriedades, que também devem ser imunizados. Deve-se ter cuidado com a sensação de sucesso aparente, pois isso pode levar à interrupção ou à diminuição do uso da vacina no rebanho.

As vacinas refrigeradas precisam de ambiente com temperaturas entre +2 °C e +8 °C, não podendo ser congeladas ou aquecidas; daí a importância em se escolher uma revenda ou loja agropecuária que atenda essas condições.

O período de transporte, em recipientes como caixas de isopor e térmicas, com a quantidade adequada de gelo, ajuda na manutenção da temperatura. A geladeira para armazenar as vacinas na propriedade deve ser de uso exclusivo. Deve-se lembrar sempre que as falhas na conservação do produto impactam diretamente na qualidade da imunização do rebanho.

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Para receber a vacinação, o animal precisa estar saudável e em bom estado nutricional. Aqueles convalescentes, cansados ou estressados necessitam de recuperação para receberem a aplicação. A vacina contra a brucelose merece, ainda, uma atenção extra: os animais tratados com antibióticos não devem ser vacinados. Após receber a dose, a movimentação do animal deve ser tranquila e sem estresse.

Diante dessas considerações, o planejamento da vacinação, quando elaborado com antecedência, evita o acúmulo de atividades e o esquecimento de questões importantes. O levantamento considera o número de dose e de cabeça por faixa etária do rebanho e a quantidade, o tamanho, o calibre e as condições de uso das seringas e das agulhas, entre outros elementos.

O treinamento e a comunicação prévia dos peões são importantes para o manejo dos animais e a preparação das instalações (curral, tronco, seringa). As definições das datas das vacinações precisam levar em conta o programa oficial de vacinação da região e as épocas mais convenientes dos pontos de vista imunológico e climático.

Em função de uso de equipamento sem limpeza e em condição inadequada, vacina malconservada e ambiente contaminado, é comum a constatação indesejável da formação de abscessos nos animais.

A adoção do manejo racional na vacinação proporciona benefícios econômicos diretos, como a diminuição da perda de qualidade da vacina, da danificação de equipamentos (seringas quebradas e agulhas tortas) e de riscos de acidentes de trabalho, como melhorias na rotina das atividades nas fazendas.

Programas com vacinação obrigatória

Para bovinos e bubalinos, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) adota como ferramenta para controle e erradicação de importantes doenças os programas nacionais de:

- Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal (PNCEBT);

- Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA);

- Controle da Raiva dos Herbívoros e Outras Encefalopatias.

Grupos de doenças com vacinação

- Clostridioses- : sintomático (- manqueira- , “mal de ano"), gangrena gasosa/edema maligno, botulismo, - enterotoxemias- , tétano, morte súbita dos ruminantes.

- Doenças respiratórias e reprodutivas: - rinotraqueíte- infecciosa bovina (IBR, na sigla em inglês), diarreia viral bovina (BVD, sigla também em inglês), leptospirose e a - campilobacteriose- .

Controle de qualidade

Todas as vacinas veterinárias comercializadas no Brasil são aprovadas pela área de Controle de Qualidade Interno (da indústria produtora). Duplamente testadas, algumas delas passam pela área de Controle de Qualidade Oficial do MAPA, como, por exemplo, as vacinas contra a febre aftosa (testadas na espécie-alvo), a brucelose, o botulismo, a raiva, a manqueira (carbúnculo sintomático) e as toxinas beta e épsilon (β e ε) de Clostridium perfringens.

O pecuarista brasileiro conta com uma gama de produtos confiáveis e de diferentes formulações, mas o produto que melhor atende as necessidades sanitárias de cada faixa etária do rebanho fica a critério do médico-veterinário responsável pelo calendário sanitário da sua propriedade.

Recomendações para uma imunização adequada e duradoura

- Seguir as orientações do médico-veterinário;

- Verificar data de validade e instruções de uso no rótulo;

- Utilizar uma seringa para cada vacina;

- Vacinar à sombra e garantir que a caixa contendo a vacina esteja sempre à sombra e com a quantidade de gelo suficiente para manutenção da temperatura;

- Conter bem os animais a serem vacinados;

- Certificar-se da dose correta da vacina no local recomendado;

- Prioridade na qualidade da vacinação, e não na sua velocidade;

- Trocar de agulha a cada dez animais;

- Evitar a utilização de restos de vacinas;

- Usar somente material limpo.


TECNOLOGIA NO CAMPO: VIABILIDADE ECONÔMICA DA PROTEÍNA BOVINA

PAULO CÉSAR DANCIERI FILHO, CEO da COIMMA

Com o crescimento da população mundial, a demanda por grãos e proteína sofre incremento e enfrenta como desafio o aquecimento global, que, além de impor a recomposição de áreas degradadas, interfere na abertura de novas áreas de produção. De qualquer forma, esse aumento da produção primária desperta especial interesse no Brasil, em razão da sua abundância em recursos minerais, da sua privilegiada geografia e da sua vocação agropecuária.

Nessa tendência, como enxergam oportunidades de lucrar com este business, os produtores rurais e os investidores desempenham papel de relevância cada vez maior na alimentação do mundo.

No campo da agricultura, a gestão do conhecimento e a aplicação da tecnologia produtiva resultam em produções recordes de grãos em “segundas" safras, com rentabilidade para o produtor. Já na produção pecuária, ganham espaço o investimento em bens de capital e a gestão profissional das fazendas. Embora estes temas devessem estar na sua agenda estratégica, muitos pecuaristas enxergam a atividade como um investimento pouco rentável.

Entre os criadores, apenas 10% fazem o controle de peso individual do rebanho. Enquanto isso, 15% utilizam equipamentos de manejo adequados. Estes exemplos mostram o fraco emprego de insumos na produção animal. Com relação ao bem-estar animal, a preocupação é muito pouca, como se este elemento não tivesse influência decisiva na qualidade da carne e nos resultados operacional e econômico da atividade.

Uma empresa organizada e rentável precisa levar em conta instrumentos como o CAPEX (abreviação do inglês para capital expenditure) e o EBITDA. Por isso, o rebanho, um ativo com demanda crescente, não pode ser tratado como investimento “passivo".

Investimento em tecnologia e gestão

No século passado, as commodities alimentares tiveram os seus preços reduzidos. Isso porque ganharam produtividade com investimentos em tecnologia e escala de produção. Como não fez esse caminho, a carne bovina foi uma exceção. Só no Brasil, a agricultura produz sessenta vezes mais proteína por hectare do que a pecuária, em uma área 2,6 vezes menor.

No mundo, com o maior rebanho comercial e a liderança na exportação de carne bovina, o Brasil enfrenta um paradoxo: de um lado, detém muita pastagem e rebanho bovino expressivo, com demanda crescente por proteína; e, de outro, experimenta margens operacionais baixas ou, até mesmo, prejuízo em suas operações.

Acontece que a carne bovina chega ao consumo com preços proibitivos para enorme massa da população. Com isso, torna-se cada vez mais um produto premium para uma parcela seleta de consumidores. Algo está errado. Com fome, o mundo precisa, antes de comer um produto premium, apenas comer produtos de valor proteico superior, como a carne bovina, conforme recomendações dos organismos envolvidos com o tema da segurança alimentar e o Desafio 2050.


MÉTRICAS NA PRODUÇÃO DE CARNE BOVINA: COMERCIALIZAÇÃO DE BOI OU CARCAÇA?

MATHEUS MORETTI, Nutricionista de bovinos de corte na Agroceres Multimix

Em um cenário de margens apertadas, a gestão das fazendas na pecuária é semelhante à de uma empresa. Para a saúde do negócio, a elaboração do planejamento e a definição das metas são fundamentais. Nesse contexto, o Ganho Médio Diário (GMD) é a métrica mais utilizada para validar pacotes tecnológicos.

A confiança no GMD depende da forma de comercialização. Se esta for feita com base no peso vivo, ele pode ser considerado como a métrica perfeita para validação dos resultados. Mas, se a comercialização ocorrer a partir do peso da carcaça do animal, a análise dos resultados pode ter falsas interpretações e ficar comprometida.

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Isso acontece porque, quando um animal é pesado, o valor obtido na balança é formado pela somatória de três grupos: a carcaça, os componentes não carcaça e o conteúdo do trato digestivo. Cada um deles possui o seu comportamento afetado por fatores como o nível de suplementação (quantidade de ração da dieta), a densidade energética da ração e o histórico nutricional.

O nível de suplementação, por exemplo, altera a taxa da passagem do alimento no corpo do animal, com redução da quantidade de conteúdo. Já a densidade de energia da dieta afeta a deposição de gordura, com influência no peso da carcaça. Da mesma forma, o crescimento das vísceras depende do histórico nutricional do animal, como no caso de animais em crescimento compensatório.

Assim, quando se calcula o GMD, não é possível saber qual desses fatores contribuiu mais ou menos para o peso medido na balança, pois não existe uma variação proporcional fixa entre os grupos componentes do corpo do animal.

Para contornar esse problema, uma variável utilizada em conjunto com o GMD é o Rendimento do Ganho (RG), obtido por meio da divisão do ganho em carcaça pelo ganho de peso do animal e, então, por meio da multiplicação do resultado por 100.

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A conta do ganho em carcaça é feita com a aplicação de rendimento de 50% no peso inicial – para saber o valor da carcaça inicial – e o valor da carcaça final registrado no romaneio após o abate. Multiplica-se por 100 para se ter o valor percentual, ou seja, o valor de RG mostrará qual porcentagem do GMD que está sendo depositada em carcaça.

Essa análise cruzada dos valores de GMD e RG permite avaliar a qualidade do ganho de peso dos animais e auxiliar a amenizar os vieses de interpretação causados pela pesagem.