Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Fenômenos climáticos extremos

O efeito de desastres naturais no setor agrícola

Novembro de 2016

A PRODUÇÃO agrícola é altamente dependente do clima e negativamente afetada por fenômenos naturais extremos, como inundações que podem resultar em perdas de colheitas. Pode não ser possível evitar a ocorrência destes fenômenos naturais extremos, mas o efeito desastroso pode ser reduzido por meio do planejamento adequado e de uma preparação eficaz. A vulnerabilidade associada com os riscos da ocorrência de fenômenos extremos pode ser controlada, em certa medida, pela previsão destes fenômenos e por medidas para reduzir seus impactos na agricultura.

Os eventos climáticos extremos ocorrem de muitas formas, como enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e tornados. Estes fenômenos meteorológicos não são novidade para a agricultura. Projeções realizadas pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) indicam que, no futuro, estes impactos deverão ocorrer de maneira mais severa e frequente, podendo provocar um aumento dos preços dos alimentos, além de redução da produtividade. Estudos divulgados pelo relatório do Comitê de Oxford de Combate à Fome (Oxfam) indicam que a população mais pobre é a que deve ser mais prejudicada pelos impactos causados.

Fenômenos climáticos extremos

Produzir alimentos num cenário de mudanças climáticas é um dos desafios enfrentados por agricultores. Fatores como o aumento da temperatura e secas prolongadas são algumas das possíveis alterações da vulnerabilidade para a produção agrícola relacionadas com as variações do clima. Na recente declaração para o Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro de 2016), o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, alertou que a produção mundial de alimentos está ameaçada pelas mudanças climáticas.

O recente furacão Matthew, que atingiu a Flórida (principal região produtora de cítricos dos EUA) depois de ter passado pelo Haiti, pela República Dominicana e por Cuba, mostra o poder de devastação deste tipo de fenômeno climático extremo. Foi a tempestade mais poderosa a atingir a região do Caribe em uma década, provocando ressacas violentas e fortes ventos e causando mortes. Segundo o Departamento de Agricultura e Serviços ao Consumidor da Carolina do Norte (NCAGR), dos Estados Unidos, o furacão provocou significativos danos na região, devido às inundações causadas.

Estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indica que, em média, nos países em desenvolvimento a agricultura absorve 22% do impacto total na economia causado por desastres naturais. No entanto, apenas 4% da ajuda humanitária têm sido atribuídos à agricultura após desastres. O estudo considerou 78 avaliações das necessidades pós-catástrofe em 48 países em desenvolvimento entre os anos de 2003 e 2013. Quando ocorrem secas, o setor da agricultura absorve até 84% de todos os impactos econômicos. Os resultados revelaram, ainda, que 42% das perdas avaliadas estavam na lavoura (inundações foram responsáveis por 60% do dano; tempestades foram responsáveis por 23%) e que a pecuária foi a segunda atividade mais afetada, com 36% do total de danos.

Ainda segundo o relatório da FAO, na América Latina e no Caribe, a maioria das perdas ocorreu após inundações, seguidas por secas e tempestades. O Brasil foi o mais afetado por consequência de inundações de 2009 em sua região Norte e, também, devido ao grande tamanho da sua produção agrícola. Outros países seriamente afetados incluem a Colômbia (2007, 2010 e 2011 – inundações), o México (2005 – furacão Emily; 2007 e 2011 – inundações e seca) e o Paraguai (2011-2012 – seca). O relatório destaca, ainda, o caso no Brasil relativo à diminuição da produção de café em até 10% depois da seca de 2007, impactando os preços internacionais.

O clima está mudando, e a agricultura também. Ao mesmo tempo, a população mundial está crescendo de forma constante e deve chegar a 9,6 bilhões até 2050. Para atender essa demanda, os sistemas agrícolas e alimentares terão de se adaptar aos efeitos adversos das alterações climáticas. A adoção de tecnologias agrícolas que ajudam a prevenir ou reduzir os riscos subjacentes precisa ser informada com uma clara compreensão de como os fenômenos extremos impactam lavouras, pecuária, pescas ou produção florestal; ou sobre o tipo de riscos que têm o maior impacto em cada subsetor. A adoção citada exige uma melhor compreensão de como os desastres comprometem a segurança alimentar e o crescimento do setor e da economia.

A ocorrência de ameaças naturais não pode ser evitada, porém podemos minimizar seus impactos se compreendermos melhor como elas acontecem. Uma correta avaliação da ocorrência de fenômenos naturais extremos contribui para uma melhor gestão da relação entre ameaças naturais e agricultura.