Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Reflexão

A ponte ao amanhã

Novembro de 2017

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO - Colunista

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

Outros textos do colunista

Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

Construímos muros demais e pontes de menos.

Isaac Newton

QUANDO INSTALADO o governo de transição de Temer, havia uma grande esperança por mudança. Afinal, exceto os torcedores da estrela vermelha, a enorme maioria da população brasileira não mais suportava a visão do caos econômico e político. Havíamos perdido o pé dos aumentos generalizados de preços, com inflação de dois dígitos, juros estratosféricos, comércio e indústria travados ou andando para trás. O agronegócio foi exceção.

O País vivia separado por muros “nós e eles”, e não existiam pontes seguras. A travessia esbarrava nas desconfianças e no medo. A campanha anterior, da esperança vencendo o medo, transformou-se em desesperança e pânico.

O presidente montou uma equipe econômica de alto valor e iniciou a construção das pontes ou das pinguelas ao amanhã. No entanto, a operação Lava-Jato foi mostrando a fragilidade ética das ações, e o que poderia ser uma retomada mais rápida da economia transformou-se em lenta retomada, com desvios constantes de acusações, delações e armadilhas. Nunca os políticos estiveram tão mal.

Muitas medidas positivas foram tomadas pelo governo atual, revertendo a tendência terrível anterior e oxigenando a economia brasileira. No tumulto político e policial, vieram desvios negativos como a “carne fraca”, mas alguns positivos como a ratificação pelo presidente Temer do documento oficial aprovado pelo Brasil na COP-21 (descarbonização da energia).

Desde então, a quatro mãos, o governo federal e o setor privado construíram uma proposta para o futuro energético brasileiro baseada em dois programas que se conectam: o RenovaBio, voltado ao estímulo via valorização da produção de energias renováveis como o etanol e o biodiesel, com modernas ações políticas; e o Rota 2030, com foco em motorização de veículos que atendam o objetivo da descarbonização. Do Ministério de Minas e Energia (MME), foi encaminhada à Casa Civil uma Medida Provisória (MP) para dar sequência aos Programas. E parou!

Dias atrás, em visita ao Brasil, o ex-presidente Obama reclamou do atual presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, que não valoriza o que foi ratificado pelos EUA na COP-21 e perguntou por que o Brasil não valoriza o seu programa de energias renováveis.

Enquanto, nos EUA, a troca de presidentes pode explicar o problema; aqui, é o mesmo presidente que luta para escapar do “processo Janot” e se esquece do que ratificou neste mesmo ano!

Dizia Shakespeare que “se você se sente só, é porque ergue muros em vez de pontes”. Dizia Cora Coralina que “há muros que só a paciência derruba e há pontes que só o carinho constrói”. Mais recentemente, o papa Francisco disse que “apenas os que dialogam podem construir pontes e vínculos”.

Não há tempo a perder com essa medida essencial ao retorno dos investimentos pela cadeia de cana-
de-açúcar. Esta cadeia é enorme, e dela dependem muitas centenas de municípios brasileiros. O pleito é correto e moderno e nada mais é do que a busca por corrigir as distorções causadas pelos combustíveis fósseis.

O futuro reservará surpresas, e as projeções feitas agora com as limitações da crise são empecilhos à visão. No entanto, as mais radicais mostram que, lá por 2040, os motores de combustão interna serão pelo menos 50% da frota global. Será essencial termos o etanol e o biodiesel como combustíveis limpos.