Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Algodão

Fardo valioso

Novembro de 2017

A nada 'macia' trajetória da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) para transformar o país que chegou a importar algodão em um dos maiores produtores e exportadores da pluma do mundo.

O BRASIL é o quinto maior produtor e o quarto maior exportador mundial de algodão. É, também, o maior fornecedor de algodão sustentável do Planeta. Aproximadamente 30% de toda a fibra licenciada pela entidade suíça Better Cotton Initiative (BCI) saíram de lavouras desse país gigantesco, bem ao sul do Equador. Essas marcas são o resultado mais evidente de um grande agronegócio, a cotonicultura brasileira, setor da economia que não apenas soube crescer e se desenvolver, mas, principalmente, se reinventar, graças à união e à organização dos produtores e aos grandes investimentos em pesquisa, tecnologia e gestão.

Dizer que o algodão brasileiro teve de se reinventar não é frase de efeito; é fato. Ao longo da história da cotonicultura no País, o algodão já foi plantado em quase todo o território nacional: no litoral, no Sudeste e no Sul, no Nordeste e, nos últimos trinta anos, no Cerrado brasileiro. Em cada época e região, a atividade teve características distintas, mas os trechos mais notáveis dessa história deram-se nos anos 70 e 80 do século passado, no semiárido nordestino, e a partir da década de 1990 até os dias atuais, com a introdução e o avanço da cultura no Cerrado.

Contrapor essas duas fases é importante para se ter a dimensão de quanto a cotonicultura – que quase chegou a desaparecer no Brasil – progrediu nas últimas décadas, começando do zero, em novos moldes e cenários. Nessa transição entre o velho e o novo, surgiu a Abrapa, considerada uma das mais atuantes entidades de classe do agronegócio e o retrato de uma nova forma de pensar e agir no setor algodoeiro.

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Na década de 1980, a área ocupada com cotonicultura no semiárido chegou a 4 milhões de hectares. À época, o Ceará possuía a maior extensão de lavouras de algodão contínuas do mundo. Para se ter uma ideia, na safra 2017/18, o Brasil deverá plantar pouco mais de 1 milhão de hectares. O que distingue essas duas fases é a capacidade atual de produzir muito mais no equivalente a um quarto da área do passado. Por “muito mais" entenda-
se colher 1,7 mil quilos de algodão por hectare, contra 300 quilos por hectare no passado. O que mudou? Absolutamente tudo – inclusive o próprio algodão, que teve de ser adaptado ao novo bioma. Até a década de 1980, quase toda a cotonicultura nacional era de variedade arbustiva. No Cerrado, optou-se pelo algodão herbáceo, de perfil anual, com as lavouras sendo totalmente replantadas a cada safra e o que sobra delas sendo destruído, para evitar que se torne substrato para a proliferação de pragas como o bicudo-do-algodoeiro.

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As características de clima, solo e relevo do Cerrado também ajudaram a mudar a cara da cotonicultura brasileira, segundo explica o presidente da Abrapa, Arlindo de Azevedo Moura. “O terreno plano favoreceu a mecanização em todas as etapas da produção. Isso tornou a atividade mais produtiva, dando-lhe capacidade de escala e permitindo ao Brasil não apenas voltar ao jogo no mercado internacional, como tornar-se, com o tempo, o grande fornecedor que é. Foi preciso muito empreendedorismo, profissionalismo e investimento por parte do produtor", explica Moura, ressaltando a influência direta de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – por meio do Centro Nacional de Pesquisa do Algodão (CNPA) – e, mais tarde, entidades de pesquisa e desenvolvimento ligadas aos produtores na construção dessa nova história.

Hoje, o Brasil é um grande player nesse negócio, cujo comércio movimenta em torno de US$ 23 bilhões por ano no mundo e, por aqui, na última safra, representou em Valor Bruto da Produção (VBP) R$ 20,8 bilhões. Na safra 2016/17, o País produziu 4,0 milhões de toneladas de algodão em caroço ou 1,6 milhão de toneladas de pluma, o produto beneficiado que segue para a indústria nacional e para exportação. Se as estimativas se confirmarem, na safra 2017/18 haverá 1,8 milhão de toneladas de pluma, 11,3% a mais do que no ciclo anterior.

Além de produzir muito e com qualidade, o Brasil, por meio da Abrapa, investiu na sustentabilidade da cadeia produtiva, o que presume uma produção lastreada nos três pilares do conceito: econômico, social e ambiental. Na safra 2016/17, o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) – que, desde 2013, opera em benchmarking com a BCI – certificou 74% da área de algodão no Brasil e 76% da produção do País.

SETOR COESO

Em 7 de abril de 1999, foi criada a Abrapa. Antes dela, contudo, já existia, desde 1997, a Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), que foi uma espécie de embrião da entidade nacional. Ainda em 1999, formaram-se outras quatro associações estaduais: a Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa), a Associação Sul-Matogrossense dos Produtores de Algodão (Ampasul), a Associação Paulista dos Produtores de Algodão (Appa) e a Associação Goiana dos Produtores de Algodão (Agopa). Somaram-se a essas a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), a Associação dos Cotonicultores Paranaenses (Acopar), a Associação Maranhense dos Produtores de Algodão (Amapa), a Associação Piauiense dos Produtores de Algodão (Apipa) e a Associação dos Produtores de Algodão do Tocantins (Apratins).

VITÓRIA INTERNACIONAL

Em 2005, a Abrapa venceu uma disputa, iniciada em 2002, na Organização Mundial do Comércio (OMC), contra os subsídios concedidos pelo governo americano aos seus cotonicultores, que tornavam a concorrência entre os dois países assimétrica. Os resultados efetivos só vieram cinco anos depois. “A vitória nessa disputa, que se deu em proporções de Davi e Golias, nos permitiu um salto que beneficiou toda a cadeia produtiva", diz o presidente da Associação. Para gerir os recursos definidos pelo “acordo-quadro" bilateral entre Brasil e Estados Unidos, foi criado, em 2010, o Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). A Abrapa pôde, então, incrementar a sua estrutura e prover melhorias nas associadas, sobretudo nos laboratórios de classificação de fibra por High Volume Instrument (HVI), e as viagens internacionais para prospectar e consolidar novos mercados foram intensificadas. Da mesma forma, tornou-se possível destinar mais verbas para a pesquisa científica, assim como para a elaboração e a execução de novos projetos para fortalecer a imagem do produto e da cadeia de valor.

“Investimos em qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Criamos programas e iniciativas específicos para cada uma dessas áreas e tiramos do papel um antigo projeto de falar diretamente para o consumidor final, por meio da moda e das pessoas que lançam tendências e influenciam, nessa grande indústria", afirma Moura, referindo-se ao movimento Sou de Algodão, lançado em 2016, na São Paulo Fashion Week (SPFW). A Abrapa almeja incrementar o consumo de produtos confeccionados com a matéria-prima no mercado interno em 10% num prazo de cinco anos.

RASTREABILIDADE: SISTEMA ABRAPA DE IDENTIFICAÇÃO (SAI)

Implantado a partir de 2004, o SAI rastreia 100% da produção de algodão exportada pelo Brasil. Na safra 2017/18, será possível identificar o produtor, a algodoeira onde o produto foi beneficiado, o laboratório que o classificou, a unidade produtiva de origem, além das características intrínsecas da pluma.

QUALIDADE: SBRHVI E CBRA

O Standard Brasil HVI (SBRHVI) é um programa comprometido com a qualidade, a transparência, a rastreabilidade e a credibilidade do algodão brasileiro. Ele se divide em três pilares: o Centro Brasileiro de Referência em Análise de Algodão (CBRA), o Banco de Dados da Qualidade do Algodão Brasileiro e a orientação aos laboratórios participantes. Atualmente, integram o programa doze laboratórios, que somam 57 máquinas de HVI. O objetivo do programa é, ao parametrizar e harmonizar a classificação instrumental, gerando informações fidedignas, garantir mais segurança para quem compra e quem vende o algodão brasileiro, valorizando a imagem da fibra dentro e fora do País.

CBRA

Em dezembro de 2016, a Abrapa inaugurou, em Brasília, o CBRA. Trata-se de um laboratório central de verificação e padronização dos processos classificatórios do algodão brasileiro que atua para garantir a qualidade e a credibilidade dos resultados aferidos nos diversos laboratórios instalados no território nacional. Tem aproximadamente 2 mil metros quadrados e foi dimensionado para checar até duas vezes a safra atual de algodão no Brasil.

Para saber mais sobre a Abrapa e os seus programas, acesse: www.abrapa.com.br

SINAL DE ALERTA NA CULTURA DO ALGODÃO

Incidência da mancha de ramulária

Considerada atualmente a principal doença da cultura algodoeira, com incidência crescente em todos os estados produtores, a mancha de ramulária, causada pelo fungo Ramularia areola, é motivo de grande preocupação. De acordo com a Embrapa Algodão, a doença é muito crítica e pode provocar uma redução de até 40% na produtividade.

No início da infestação, os sintomas da doença apresentam-se como pequenas manchas no limbo foliar, com aspecto branco-azulado. Em condições favoráveis, as lesões se desenvolvem, ficam delimitadas pelas nervuras das folhas e ganham um aspecto angular e pulverulento de cor branca, caracterizado pela intensa esporulação do patógeno.

Devido a tal criticidade, o controle químico da macha de ramulária representa uma das medidas mais importantes para reduzir os índices de severidade da doença. Nesse sentido, o monitoramento da lavoura é uma prática que deve começar cedo, em função da dificuldade de identificação das lesões iniciais.

Investimentos altamente significativos em pesquisas com fungicidas são realizados anualmente, porém é preocupante a ausência de novas moléculas com diferentes modos de ação. Da mesma forma, chama a atenção a rápida queda de performance de alguns grupos químicos, em decorrência do desenvolvimento de resistência.

O fungo Ramularia areola é considerado pelo Fungicide Resistance Action Committee (FRAC) um patógeno de altíssimo risco de desenvolvimento de resistência a fungicidas, devido à sua alta variabilidade genética, ao seu curto ciclo de vida, a múltiplas gerações que se dão durante o ciclo da cultura e à alta adaptabilidade genética dos seus mutantes.

Várias populações do fungo apresentam baixa sensibilidade aos grupos químicos das estrobilurinas e triazóis, ainda muito utilizados no manejo da ramulária no Brasil. Desta maneira, há uma redução no intervalo de dias entre as aplicações, além de se demandar o aumento das doses desses produtos para conseguir controlar o fungo. Consequentemente, há um aumento sucessivo do número de aplicações de fungicidas no controle de ramulária.

De acordo com dados de 2016 do Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt), inúmeros fungicidas utilizados no controle de ramulária não apresentam um nível de controle satisfatório (acima de ٨٠٪ de controle), restringindo o uso de moléculas consideradas muito eficientes e limitando o número de opções de fungicidas com foco no controle da doença.

TAMANHO DAS PERDAS

Análises da MB Agro (2017) demonstram que os impactos diretos da perda de controle da ramulária reduzem o VBP, que pode chegar próximo a R$ 4 bilhões por safra. Ainda segundo análises da MB Agro, os impactos da ramulária na produtividade final reduzem diretamente a rentabilidade dos cotonicultores, podendo gerar quedas nas suas margens em até 50% nas situações de perda de controle da doença.

Diante de tais dados alarmantes, podemos avaliar como muito importante a priorização do fungo Ramularia areola, incluindo-o na lista de 2017 de alvos biológicos estratégicos e de importância para o agronegócio brasileiro. Da mesma forma, há que se acelerar o registro de fungicidas que tenham em sua bula a descrição desse alvo biológico e que apresentem alta performance de controle e/ou sejam ferramentas importantes para a estratégia de manejo de resistência a este fungo.