Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

O valor da exportação de commodities

Novembro de 2017

AO CONTRÁRIO de algumas respeitáveis teses, a entrevista do ex-embaixador Roberto Jaguaribe, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), mostra muito bem que as exportações agropecuárias brasileiras deixaram para trás a ideia de simples exportação de commodities, sem incorporação de tecnologia. O Brasil avança na pesquisa de importantes assuntos atuais: logística, agricultura de baixo carbono, agricultura de precisão, com todos os reflexos a montante e a jusante da porteira. Logicamente, esse fato não elimina a necessidade de o País avançar no desenvolvimento de indústrias de ponta, área em que realmente está atrasado.

A economia continua mostrando sinais de retomada lenta. A Selic deve terminar o ano em 7%, e o dólar, próximo dos R$ 3,30.

A inflação brasileira deverá encerrar 2017 abaixo do centro da meta estabelecida, de 4,5%. De fato, as projeções apontam para uma inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) na casa dos 3,0%. As perspectivas para a inflação no começo do ano eram próximas a 5,0%. Isso abre espaço para uma flexibilidade da política monetária, com retomada da atividade econômica e crescimento econômico de 3% para 2018. A grande fragilidade no cenário econômico brasileiro atual permanece sendo o lado fiscal. As contas públicas nacionais seguem deterioradas, com pequenas chances de reformas estruturais significativas ainda para 2017.

Enquanto isso, as lideranças da agropecuária discutiram, em seminário realizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a necessidade de redução da carga tributária, a simplificação do atual modelo de cobrança de impostos e a segurança jurídica na legislação. A taxação atual no sistema tributário nacional está muito concentrada no consumo e pouco na renda e na propriedade. Uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), em tramitação no Congresso Nacional, criaria o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA), que englobaria tributos como o Programa de Integração Social (PIS), o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), estaduais e municipais. O fundamental é assegurar a não elevação da carga tributária no curto prazo e, na sequência, um melhor ambiente de negócios para propiciar a redução dos custos.

Lançado em 2010, o Plano de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) projetou a liberação de R$ 152 bilhões via crédito do Plano Agrícola e Pecuário (PAP) até 2020. Deste total, R$ 27,1 bilhões seriam incluídos nos Planos Plurianuais. O restante viria de outras fontes, sendo R$ 30,6 bilhões do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Os gastos do Programa ABC até a safra 2015/16 representam entre 35% e 40% do projetado. Isso sugere que as suas metas não serão atingidas se depender apenas dos recursos públicos.

Na pecuária de corte, houve a comemoração dos dez anos de trabalho realizado pelo Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS). Esta iniciativa tem sido muito importante para a articulação entre os atores da cadeia produtiva. Pouco tempo atrás, o conceito de sustentabilidade tinha um viés ambiental acentuado. Pouco, ou quase nada, era enfatizado sobre as questões social e econômica, o que era apontado como um grande empecilho. O GTPS, com exemplos práticos, provou ser possível associar a atividade pecuária à preservação e ao bom uso dos recursos naturais.

A propósito, cabe relembrar o ano de 1977, quando a Agroanalysis publicou o primeiro estudo original sobre o ciclo de preços da pecuária. Isso faz quarenta anos. O tamanho e a composição do rebanho bovino ainda constituem um “buraco negro" informacional. Os indicadores de produtividade – tão comuns nas lavouras – são escassos e de difícil apuração. O desafio do setor passa pela intensificação dos sistemas produtivos para aumentar a produtividade (arrobas/hectare/ano) e a rentabilidade do capital empregado. Além da “transformação da pecuária tradicional", a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) propicia a oportunidade de um “casamento por puro interesse" entre a pecuária e a produção vegetal.

Na agenda do agronegócio, tem-se os preparativos da ANUFOOD Brazil, que acontecerá entre os dias 12 e 14 de março de 2019, no São Paulo Expo. A Koelnmesse Brasil, organizadora do evento, recepcionou a delegação brasileira – com representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), da Apex-Brasil e da FGV Projetos – na visita à Anuga 2017. Esta é a maior feira mundial de alimentos e bebidas, realizada em Colônia, na Alemanha, com a participação de 7.400 empresas, vindas de 107 países. Dos 115 expositores brasileiros lá presentes, pelo menos cinquenta já confirmaram participação na ANUFOOD Brazil.

O especial da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), considerada uma das mais atuantes entidades de classe do agronegócio e o retrato de uma nova forma de pensar e agir no setor algodoeiro, apresenta a evolução da cultura no Brasil. Hoje, o País é um grande player neste negócio; na safra 2016/17, ele foi responsável pela produção de 1,6 milhão de toneladas de pluma. Se as estimativas se confirmarem, na safra 2017/18 haverá 1,8 milhão de toneladas de pluma, 11,3% a mais do que no ciclo anterior. A incidência crescente da mancha de ramulária é motivo de grande preocupação entre os produtores. De acordo com a Embrapa Algodão, a doença é muito crítica e pode provocar uma redução de até 40% na produtividade.