Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Cana-de-açúcar

A safra 2017/18

Novembro de 2017

A SAFRA de cana de 2017/18 caminha para o seu encerramento, e, mais uma vez, a oferta de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) deve ficar limitada a cerca de 87 milhões de toneladas em todo o País. O volume de cana disponível para moagem ficou prejudicado na segunda metade da safra por um longo período de estiagem, que, em algumas microrregiões, como o sul de Goiás, chegou a mais de 140 dias. A queda no rendimento agrícola foi compensada parcialmente pelo aumento no teor de açúcares contidos na cana, e, de uma forma geral, a oferta de ATR praticamente repetiu a performance do ano anterior.

Esse resultado advém de condições de clima relativamente favoráveis desde meados de 2016, associadas a uma recuperação dos tratos culturais aplicados à cana cultivada para a safra 2017/18. Estes tratos culturais resultaram numa menor infestação de broca, que, até meados de outubro, aponta um nível acumulado de 2,56%, contra 3,70% na mesma data do ano passado. Na região Centro-Sul, devem ser moídos, até 31 de março de 2018, quando se encerra a safra, cerca de 601 milhões de toneladas, o que seria suficiente para gerar uma produção de 36,8 milhões de toneladas de açúcar e 25,49 bilhões de litros de etanol, incluídos neste volume 480 milhões de litros de etanol de milho.

Na região Norte-Nordeste, é estimada a moagem de 43,9 milhões de toneladas de cana, com a produção de 3,02 milhões de toneladas de açúcar e 1,52 bilhão de litros de etanol.

O mix de produção para açúcar deve ser de 47,5% na região Centro-Sul e de 54,7% na região Norte-Nordeste, resultando em 48,0% para o País como um todo. Este mix é 1,2% mais açucareiro do que aquele observado na safra anterior e reflete a execução de exportações contratadas no ano passado a preços bem mais elevados do que os observados no mercado atual.

O excedente exportável de açúcar é estimado em 29,3 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 1,0 milhão de toneladas sobre a exportação observada na safra anterior. Para 2017, chama a atenção o fato de que, embora o Produto Interno Bruto (PIB) deva crescer 0,7%, o consumo de combustíveis do ciclo Otto – gasolina mais etanol –, avaliado em gasolina equivalente, deverá crescer 2,4%.

O tempo seco observado entre junho e meados de outubro deste ano, além de favorecer incêndios acidentais e criminosos, tem, até agora, retardado o desenvolvimento fisiológico dos canaviais, que poderia ser compensado com um verão chuvoso, e a possibilidade de se estender um pouco mais o período de entressafra. Ocorre que as previsões de clima global apontam uma probabilidade entre 55% e 65% de observarmos uma anomalia La Niña a partir de dezembro, o que pode significar um volume de chuvas menor do que a normal climatológica na região Centro-Sul, exatamente o que se precisa evitar para que a soqueira recupere o atraso até agora observado.

A renovação dos canaviais também ficou comprometida pelo clima neste ano, o que impediu um avanço mais consistente nas atividades de plantio, devido à falta de umidade no solo. Todos esses elementos contribuem para uma perspectiva cuidadosa para a safra 2018/19, ao mesmo tempo em que o consumo de combustíveis apresenta uma tendência de crescimento, caso o PIB volte a crescer num patamar de 2,5% ao ano em 2018.

Com preços de açúcar no mercado internacional bem menores do que aqueles observados um ano atrás, o interesse dos produtores brasileiros em antecipar a contratação de exportações para o ano que vem e fazer hedge é bem menor, o que já indica a possibilidade de uma safra mais alcooleira em 2018/19.

Por esses motivos, a avaliação mais provável, neste momento, é de um volume de cana igual ou menor do que o da safra atual e com mix mais alcooleiro, havendo uma redução do volume a ser produzido de açúcar.

Com uma flexibilidade industrial bastante relevante, que atinge cerca de 5,5% em nível setorial, é esperado que a formação de preço no mercado internacional continue influenciada pelo preço de oportunidade do produtor brasileiro, que é dado pelo preço do etanol no mercado interno brasileiro. No final de outubro, o preço do etanol em termos equivalentes continua mais remunerador do que o do açúcar, nos mercados interno e externo. Portanto, o preço do etanol tende a puxar o preço do açúcar na sua direção, que atualmente se encontra no patamar de US$ 0,152 a US$ 0,154 por libra-peso na condição FOB Santos, para uma unidade produtora hipotética localizada em Ribeirão Preto-SP.

Caso o preço do petróleo e da gasolina no mercado internacional continue firme, e a Petrobras mantenha a política atual de transmitir essa realidade de preços nas refinarias, é de se esperar que o preço do etanol mantenha a sua condição de condutor e formador de preço do mercado de açúcar.

Se o PIB crescer de 2,5% a 3,0% em 2018, é possível que o consumo de combustível do ciclo Otto cresça a um percentual acima destes percentuais. A importação de gasolina – que, no primeiro semestre de 2017, cresceu 77,1% em relação ao mesmo período do ano passado e atingiu 3,05 bilhões de litros – deve crescer ainda mais em 2018.

Nesse contexto é que se dá a importância de serem criadas condições regulatórias que induzam investimentos privados não só para a expansão da produção de etanol, mas também para a expansão da capacidade de refino de petróleo, para que o País não aumente ainda mais a sua dependência de importações.