Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Pecuária de corte

Ciclo de preços celebra quarenta anos

Novembro de 2017

O PRIMEIRO estudo original sobre o ciclo de preços da pecuária completou quarenta anos. Foi publicado na Agroanalysis em maio de 1977 e escrito por Paulo Rabello de Castro, então coordenador do Grupo de Informação Agrícola (GIA), da Fundação Getulio Vargas (FGV-RJ). O GIA foi patrocinado pelo Banco Central (BACEN) para criar uma “indústria de informação e análises" sobre os mercados e a economia agrícolas no Brasil. Com a publicação do livro inédito “Economia da Pecuária de Corte – Fundamentos e o ciclo de preços", prestamos nossa homenagem ao trabalho pioneiro da Agroanalysis.

O Brasil reúne condições para ter a maior pecuária de corte do mundo. A posição do País no ranking mundial de carne bovina é destacada: segundo maior produtor, quarto mercado consumidor, primeiro exportador (em quantidade, ao lado da Índia) e 19º importador (dados de 2016 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos – USDA).

Quatro décadas depois, as estatísticas da pecuária continuam precárias. O tamanho e a composição do rebanho ainda constituem um “buraco negro" informacional. Os indicadores de produtividade – tão comuns nas lavouras – são escassos e de difícil apuração.

A falta de estatísticas tempestivas sobre a oferta (rebanho, abate, peso das carcaças) e a demanda (vendas no varejo) transforma, frequentemente, a viagem da pecuária em um “voo no escuro". A escuridão também ocorre na “microeconomia da firma", na falta de controle do pecuarista tradicional sobre o negócio (custos, despesas, retorno sobre o capital).

ENTENDER A ECONOMIA DA PECUÁRIA É CRUCIAL

A economia da pecuária é complexa e desafiadora: o curto, o médio e o longo prazos se inter-relacionam, existindo fatores internos e externos, com influências direta e indireta sobre os preços e efeitos imediatos ou defasados e permanentes ou temporários sobre o mercado.

A volatilidade (VOL) mede a variação dos preços de uma mercadoria. Quanto maior a VOL, maior é o risco de preço. Por isso, os agentes econômicos contratam seguro (hedge) por meio de contratos futuros e opções para se protegerem do risco de preço. O mercado de boi gordo ficou menos instável nos últimos anos: a VOL média foi baixa, em torno de ١٠٪ ao ano no período ٢٠١٠-٢٠١٧. A VOL do bezerro é de ١٧٪, enquanto a da soja e do milho está em torno de ٢٣٪. Conclui-se que há uma maior volatilidade e um maior risco de preços no mercado de reposição de bovinos e nas operações dos confinadores (variações nos preços relativos dos animais e nos custos da ração).

A evolução dos preços depende da fase em que se encontra o ciclo da pecuária. A decisão do pecuarista é tomada na fronteira solitária entre a realidade (o mercado hoje) e as expectativas (sobre os preços no futuro), que estão no cerne dos movimentos dos preços do produto final (o boi gordo) e das categorias mais jovens (como o bezerro).

A dupla aptidão das fêmeas é elemento central no ciclo da pecuária. Por um lado, quando vai para o abate, a vaca transforma-se em bem de consumo, a carne. Por outro lado, é um bem de capital quando destinada à produção de bezerros. A variação da quantidade de carne produzida a partir do abate de fêmeas (vacas e novilhas) é o grande vetor da alta ou da baixa dos preços dos bovinos.

Pecuária de corte

Produtores, analistas e a mídia clamaram que os impactos dos fatos extraordinários de 2017 – a operação Carne Fraca, da Polícia Federal, em 17 de março último, e a delação da JBS, em 16 de maio, entre outros – equivaleriam ao “fim do mundo" na pecuária. O fato é que, desde o segundo semestre de 2015, os preços do boi entraram numa fase de baixa no ciclo de preços. Assim, o diário de bordo da pecuária deve sempre ser analisado no contexto estrutural do mercado.

A lição maior de 2017 é que o Brasil precisa fazer a coisa certa, ter controles rigorosos, qualidade de produto e estabilidade na oferta, por décadas à frente.

ORGANIZAÇÃO INDUSTRIAL, TOLERÂNCIA E COMPETITIVIDADE

A carne bovina vem perdendo espaço no mercado de carnes. A produção brasileira cresceu apenas 0,2% ao ano no período 2010-2016. Tal fato está relacionado à organização industrial. A menor competitividade decorre do fato de que a pecuária é muito tolerante à convivência de sistemas produtivos com elevados desníveis de produtividade.

A tolerância mantém os preços do boi gordo mais altos do que deveriam ser para enfrentar com maior poder de fogo a concorrência das carnes de aves e suínos.

O desafio da pecuária passa pela intensificação dos sistemas produtivos para aumentar a produtividade (arrobas/hectare/ano) e a rentabilidade do capital empregado. O problema (a baixa produtividade média) é, simultaneamente, a solução. O Brasil é um dos poucos países do mundo com elevado potencial de reduzir os desníveis de produtividade ilustrados na figura desta página.

Além da “transformação da pecuária tradicional", a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) propicia a oportunidade de um “casamento por puro interesse" entre a pecuária e a produção vegetal.

Pecuária de corte

Na pecuária, o futuro já começou.