Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Práticas sustentáveis

Produtor rural como protagonista

Novembro de 2017

QUANDO PENSAMOS no futuro das populações e no agronegócio, como primeira associação vem à tona a demanda por alimentos. Em 2050, seremos cerca de 9,5 bilhões no Planeta. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima a necessidade de aumentar a produção de alimentos em 70%. Junto a isso, temos a premissa de crescer com o menor impacto ambiental possível, de forma a conservar não só os recursos hídricos, as florestas e todos os componentes biológicos, mas também os recuperados quando preciso.

Nesse raciocínio, há, também, as metas de redução de emissão de gases do efeito estufa (GEEs), compromisso oficializado pelo Brasil na COP-21. Ou seja, precisamos crescer sem comprometer os recursos naturais e, ainda, promover melhorias nos sistemas de produção. Assim, a capacidade de gerir modelos agrícolas cada vez mais inovadores será crucial para o futuro da produção alimentar do mundo.

Como exemplo de modelos de práticas sustentáveis, podemos citar a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF), que agrega diferentes sistemas produtivos em uma mesma área. Esta técnica incorpora as produções agrícola, pecuária e florestal dentro da propriedade, na busca por aumentar a produtividade e diminuir riscos quanto à produção e à valorização da unidade de produção e da qualidade ambiental.

Atualmente, a integração Lavoura-Pecuária (iLP), ou sistema agropastoril, é a modalidade mais utilizada, encontrada geralmente em fazendas de pecuária, onde culturas de grãos, como arroz, soja ou milho, são introduzidas em áreas de pastagem para recuperar a produtividade. Existem, também, fazendas especializadas em lavouras de grãos que utilizam forrageiras como, por exemplo, braquiárias para melhorar a cobertura do solo e, posteriormente, utilizá-las como alimentação do gado na entressafra (safrinha do boi). Outra situação encontrada no campo são fazendas que sempre utilizaram a rotação de pastagem e lavoura para intensificar o uso da terra em parcerias de agricultores e pecuaristas.

QUATRO MANEIRAS PARA IMPLANTAR A iLPF

- Lavoura e pecuária (agropastoril);

- Pecuária e floresta (- silvipastoril- );

- Lavoura, pecuária e floresta (- agrossilvipastoril- );

- Lavoura e floresta (- silviagrícola- ).

BENEFÍCIOS DA iLPF

O modelo aumenta a reciclagem de nutrientes no solo, diminuindo a erosão. Com isso, como ele melhora a qualidade e as características produtivas, os pastos ganham maior capacidade nutricional na seca. Na produção pecuária, há uma melhoria no bem-estar do animal, que deixa de sofrer com o calor intenso e com mudanças bruscas na temperatura. O resultado é o aumento na produção de grãos, carne, leite, produtos madeireiros e não madeireiros. Além disso, há uma maior otimização dos processos e dos fatores de produção.

Esses sistemas são ferramentas importantes para a recuperação de áreas degradadas e a promoção de práticas sustentáveis no campo. Podemos citar como benefícios ambientais a recuperação de áreas degradadas, a conservação de reservas hídricas, a manutenção de estoques de carbono do solo e, não menos importante, a redução da pressão por desmatamento.

O Brasil possui 170 milhões de hectares de pastagens, dos quais 50 milhões se encontram em algum estágio de degradação. Esses números mostram que ainda temos um grande espaço para aumentar a produtividade das áreas (degradadas ou não), sem necessariamente realizar novos desmatamentos, e, ainda, cumprir a meta brasileira de ter 5 milhões de hectares de sistemas integrados agrossilvipastoris até 2030, também formalizada na COP-21.

Os sistemas de integração são alguns dos melhores exemplos de Boas Práticas Agrícolas (BPA). De maneira ampla, uma das vantagens de se aplicar BPA nos sistemas produtivos é o maior acesso a mercados (principalmente os internacionais), que exigem padrões mais elevados de sustentabilidade nos produtos, com maior exposição do produtor. Assim, a adoção de tais práticas pode se tornar uma referência em sua região e em seu setor de atuação e, até mesmo, tornar financiamentos mais acessíveis por estes terem o seu risco reduzido.

A iLPF permite que o produtor utilize de forma mais eficiente os recursos da fazenda, e não somente os naturais. A adoção dessas práticas também prepara melhor o funcionário responsável por aplicá-las e mantê-las ao longo do tempo. Além disso, uma BPA implementada pode incentivar a implementação de outras. São raros os casos do uso de somente uma BPA sustentável. Ao serem obtidos bons resultados, o incentivo se torna constante. Tem-se como exemplo a iLPF, que geralmente está associada à rotação de culturas e facilita a adoção de mais práticas, como plantio direto, manejo integrado de pragas, entre outras. Assim, abre-se caminho para a melhoria contínua.

Adubação verde, plantio direto, economia circular e geração alternativa de energia são outros exemplos de BPA. Não se trata apenas de se obterem bons resultados no curto prazo, mas sim de diminuir os riscos de seus negócios ao longo dos anos e se tornar cada vez mais competitivo. Em um ambiente de total responsabilidade no cenário mundial, o produtor rural brasileiro é e continuará sendo o principal promotor de sustentabilidade no País e, assim, vai gerar cada vez mais valor aos negócios.