Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Elizabeth Farina

Acordo de Paris favorece a agropecuária e o setor sucroenergético

Dezembro de 2016

ELIZABETH FARINA, Presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA)

Representantes de quase todos os países do mundo estiveram reunidos na Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP-22), em Marrakech, no Marrocos, no último mês de novembro. Na pauta, estava o desafio de colocar em prática o histórico acordo sobre clima de Paris, realizado na COP-21, em 2015. A Agroanalysis foi ouvir o balanço feito pela participante do evento Elizabeth Farina, presidente da UNICA, sobre o impacto do encontro para o Brasil em termos do agronegócio, em geral, e do setor sucroenergético, em particular.

AGROANALYSIS: A 22ª CONFERÊNCIA DO CLIMA (COP-22) MANTEVE O AMBIENTE DE OTIMISMO EM RELAÇÃO AO ACORDO DE PARIS CELEBRADO EM 2015?

ELIZABETH FARINA: Sem dúvida. No ano passado, o Acordo de Paris foi assinado por 197 países, mas precisava ser ratificado. Isso acabou se concretizando meses antes da realização da COP-22, em tempo que consideramos recorde. Em cerimônia paralela à reunião do G-20, em setembro último, a China e os Estados Unidos, os maiores emissores de gases do efeito estufa (GEEs), oficializaram seus compromissos, em documento entregue ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon.

Isso é, de fato, uma demonstração de que o mundo está empenhado e realmente preocupado com as questões climáticas. De forma geral, a COP-22 foi marcada por discussões mais detalhadas sobre o cumprimento das metas de cada país. Podemos entendê-la como um ponto de partida, principalmente para o setor sucroenergético. Estamos confiantes nos planos do governo brasileiro para contribuir com a retomada de crescimento do setor, que estava adormecido há seis anos.

DE UM MODO GERAL, A POSIÇÃO DA AGROPECUÁRIA BRASILEIRA SAI NA FRENTE NO TEMA DA MITIGAÇÃO DOS GEES?

EF: A agropecuária é uma das principais bases da economia brasileira. O seu papel fica cada vez mais fundamental nessa questão, pelo fato de termos um novo e robusto Código Florestal. Como isso exigirá a recuperação de áreas ambientais mais sensíveis, abre-se espaço para a movimentação de um novo mercado de troca de carbono e de investimentos futuros.

No caso do setor de cana-de-açúcar, em particular, vemos grandes vantagens. A sua produção no etanol e na bioeletricidade representa um grande diferencial, pela capacidade de reduzir substancialmente as emissões de GEEs, na substituição de outras energias fósseis, como a gasolina e o carvão, respectivamente. No caso do etanol, há uma redução significativa de até 90% das emissões quando em comparação com a gasolina.

AS METAS ASSUMIDAS PELO BRASIL NA COP-21 PARA O ANO DE 2030 PODEM SER CONSIDERADAS AUDACIOSAS E REALISTAS?

EF: Sem dúvida, as metas são desafiadoras, tendo em vista que o ano de 2030 pode ser considerado como muito próximo. Em outras palavras, para os próximos quatorze anos, o Brasil assumiu o compromisso de atingir a participação de 18% de biocombustíveis (etanol e biodiesel) na matriz energética nacional e um aumento de 10% para 23% no uso de energias renováveis (solar, eólica e biomassa) na matriz elétrica. Para o mercado de etanol, isso significa produzir, até lá, aproximadamente 50 bilhões de litros, frente aos 28 bilhões de litros registrados na safra 2015/16.

Na outra ponta, a perda de competitividade do setor sucroenergético ficou evidente nos últimos anos, especialmente porque o Governo controlou os preços da gasolina para conter a inflação. Como consequência desta política nefasta, cerca de oitenta usinas fecharam as portas. No entanto, apesar de ambiciosa, a meta poderá ser cumprida se o Governo mostrar efetivo comprometimento e implementar, desde já, medidas claras e de longo prazo que deem segurança de regras aos investidores.

MAIS ESPECIFICAMENTE, QUAL É O PAPEL DOS BIOCOMBUSTÍVEIS NESSE CONTEXTO, TENDO EM VISTA A FORÇA DO BRASIL NESTA ÁREA?

EF: Em um contexto mundial, o Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, o segundo produtor mundial de etanol e o primeiro em etanol de cana-de-açúcar. O etanol brasileiro é considerado um biocombustível avançado nos Estados Unidos, produtor de etanol a partir do milho. A quantidade de empregados no setor nacional é de aproximadamente 1 milhão de pessoas.

Com a implementação do Acordo de Paris, a meta é chegar a 50 bilhões de litros de etanol, com a geração de mais 750 mil novos empregos, entre diretos e indiretos. Para tanto, estimamos ser necessário construir aproximadamente 75 novas unidades produtoras de etanol, com investimentos de aproximadamente US$ 40 bilhões.

Em termos de emissões de GEEs, estima-se uma redução da ordem de 570 milhões de toneladas de CO2 eq. Tomando por base 2012, isso equivale a cerca de três vezes o total emitido pelo uso de combustíveis fósseis no setor de transportes (200 milhões de toneladas de CO2 eq.) e no desmatamento de florestas (175 milhões de toneladas de CO2 eq.). Para atingirmos a mesma economia de CO2 ao longo de vinte anos, seria preciso o plantio de 4 bilhões de árvores nativas.

Para valorizar ainda mais a imagem do etanol no mercado internacional, firmamos uma parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). O projeto visa garantir o reconhecimento do etanol de cana-de-açúcar como um biocombustível diferenciado do ponto de vista do ambiente, da produção e da competição com alimentos. Nesse sentido, participamos de diversos eventos para defender os interesses do setor e promover o produto nos Estados Unidos, na União Europeia e na Ásia.

COMO OLHAR PARA A INICIATIVA PLATAFORMA PARA O FUTURO EM TERMOS DE MOBILIZAÇÃO INTERNACIONAL?

EF: Nosso olhar é de aprovação, já que o Brasil está criando um mecanismo global para consolidar os biocombustíveis avançados no mundo como uma solução sustentável e viável para contribuir com as metas de mudança do clima. É um movimento mundial que vai ao encontro da agenda da UNICA no Brasil.

PODEM ESTAR EM SURGIMENTO CENÁRIOS NACIONAL E INTERNACIONAL INTERESSANTES PARA O ETANOL BRASILEIRO?

EF: Acreditamos que já surgiu, apesar das inseguranças geradas pela recente eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. Sentimos a volta da agenda do clima como prioridade entre países desenvolvidos e emergentes no mundo. E, nesse contexto, o etanol, principalmente o de cana-de-
açúcar, é a alternativa mais sustentável tanto do ponto de vista ambiental, quanto do econômico, com tecnologia já disponível no mundo. Cabe lembrar que os transportes representam, hoje, entre 20% e 25% de todas as emissões globais.

TEMOS, NO CURTO PRAZO, DIFICULDADES PARA ALAVANCAR A PRODUÇÃO E OS INVESTIMENTOS EM CANA-DE-AÇÚCAR?

EF: Por alguns anos, uma grande crise arrastou-se e deixou sequela negativa na atividade sucroenergética. Não vemos uma recuperação no curto prazo. Estamos com a produção de cana ao redor de 600 milhões de toneladas, para uma capacidade total de 700 milhões de toneladas. Investidores e empresários brasileiros, independentemente do setor, perderam a confiança na economia. A falta de estabilidade de regras trouxe insegurança. Por esse motivo, reafirmamos a urgência de ações de incentivo para a retomada dos investimentos. Isso deve acontecer rapidamente, principalmente em capacidade produtiva.

Em termos de inovação e tecnologia, podemos afirmar que o setor não ficou parado. São investidos anualmente cerca de R$ 200 milhões para garantir o desenvolvimento de variedades de cana com maior produtividade, tradicionais ou baseadas em inovações biotecnológicas. Podemos citar o exemplo do biocombustível celulósico (etanol 2G), feito a partir da celulose do bagaço e da palha. Projetos como este são fundamentais para garantir qualidade e abastecimento do biocombustível no futuro e devem ser contínuos.

O setor já demonstrou no passado rápida capacidade de resposta quando os incentivos econômicos estavam presentes. Não vemos por que não podemos vislumbrar uma nova onda de investimentos. Mas, para isso, precisamos de regras claras e estáveis.

A TECNOLOGIA SERÁ VITAL PARA HAVER OS GANHOS DE PRODUTIVIDADE SEJA NO CAMPO OU NA INDÚSTRIA?

EF: Com toda certeza. No etanol de segunda geração, a produção poderá dobrar sem utilizar terras ou águas adicionais. No campo, temos uma série de inovações, com ênfase em melhoramento genético. As tecnologias disruptivas também trarão enormes benefícios econômicos para a atividade, tais como a cana transgênica, resistente a insetos, e as sementes artificiais, que deverão revolucionar o plantio da cana. Inovações tecnológicas na indústria de motores automotivos também serão relevantes nos próximos anos, como a melhoria do desempenho do etanol nos motores flex e, mais no médio prazo, novas tendências, como os carros híbridos e as células de combustível baseadas em etanol.