Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Vida melhor

Dezembro de 2016

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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PELA SEGUNDA vez consecutiva, o Índice de Confiança do Agronegócio (IC Agro) cresceu no terceiro trimestre de 2016. O maior crescimento deu-se entre os agricultores, chegando a 110,7 pontos, o que corresponde a 6 pontos acima do trimestre anterior e 24 pontos acima do mesmo trimestre do ano passado. Mas, até entre os pecuaristas, o índice foi de 100,7, mostrando uma melhoria de expectativa para o setor, embora mais modesta.

Veremos no quarto trimestre qual será o efeito da eleição de Trump nos Estados Unidos e das ações de Temer no Brasil sobre o ânimo das cadeias produtivas todas. Seja como for, já está sendo plantada com excelente tecnologia uma grande safra de grãos de verão, e, se as condições de clima forem favoráveis (como se espera), teremos outro recorde de produção em 2017.

Isso traz de volta uma antiga discussão sobre o impacto do custo dos alimentos sobre os gastos das famílias brasileiras. É sabido que o aumento da produtividade agrícola em função da tecnologia aqui desenvolvida e aplicada levou a uma significativa redução desses custos. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), por exemplo, em janeiro de 1975 a cesta básica equivalia a 75% do salário-mínimo vigente e em janeiro de 2015 o valor era de 47%, devendo ficar perto de 50% neste próximo dezembro.

Como esse dado fica um pouco turvo por causa da variação real do salário-mínimo, vale citar outro estudo, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): em 1975, as despesas com alimentos das famílias brasileiras correspondiam a 33,9% de seus gastos totais e, em 2009, último ano em que a estatística foi realizada, caíram para 19,8%. Mais relevante ainda é o dado da diminuição do valor real da cesta básica de 1975 a 2015: 42%.

Não há dúvida, em nenhum estudo realizado, quanto à notável contribuição da tecnologia tropical sustentável desenvolvida no Brasil para a redução relativa do custo de alimentos. Naturalmente, isso favoreceu a melhoria da qualidade de vida da população.

Aliás, outros números mostram isso exaustivamente. Entre os componentes da cesta básica, houve um significativo aumento de consumo per capita entre 1975 e 2015: o da carne de frango foi o mais destacado, da ordem de 945%, seguido pelos das carnes suína (105%) e bovina (100%). O consumo de leite cresceu 58%, o de açúcar subiu 35%, o de café 45% e o de óleo de soja 220%. Em compensação, o consumo de arroz diminuiu 16% e o de manteiga despencou 49%. Infelizmente, não temos a série histórica quanto ao consumo de frutas, verduras e legumes, porque da cesta básica só constam o tomate e a banana, além da batata. E é evidente que produtos pouco usados há quarenta anos são hoje muito mais comuns, como é o caso da laranja, da maçã, da uva e de muitos legumes e verduras usados em saladas, como couve-flor, repolho, beterraba, ervilha, palmito, beringela, cenoura, brócolis, pimentão, rabanete, e tantos mais.

A expectativa de vida do povo brasileiro cresceu 23% nesse mesmo período. É claro que isso se deve a muitos fatores, como o crescimento econômico do País e o acesso a água tratada e rede de esgoto, mas, seguramente, a melhoria do consumo de alimentos teve forte participação, também, no maior tempo de nossa permanência neste mundo. E em melhores condições físicas!