Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Caderno especial

Cadeia produtiva do café

Dezembro de 2016

CAFÉ BRASILEIRO COM O TPP

A cafeicultura brasileira é intensa geradora de pauta, desde a produção, passando pelos elos do comércio, até chegar a questões políticas, institucionais e internacionais. Nos últimos dez anos, a revista Agroanalysis, em parceria com o Conselho Nacional do Café (CNC), abordou essas matérias no Caderno Especial Café.

Recentemente, temas internacionais se tornaram pauta e, para abordá-los e, também, celebrar os onze anos de parceria, a Agroanalysis entrevistou o presidente do CNC, o deputado federal Silas Brasileiro – a entrevista foi realizada por Paulo André C. Kawasaki.

O ACORDO DE ASSOCIAÇÃO TRANSPACÍFICO (TPP) ESTABELECEU LIVRE-COMÉRCIO ENTRE DOZE PAÍSES DA ÁSIA, DA OCEANIA E DAS AMÉRICAS DO NORTE E DO SUL. COMO FICOU DE FORA DO PACTO, O CAFÉ NACIONAL PODE SER PREJUDICADO?

Silas Brasileiro Há o risco da limitação de acesso a mercados, pois fazem parte do TPP fortes concorrentes e mercados-alvo. Podemos sofrer, no longo prazo, com a concorrência de Vietnã, México e Peru, sobretudo no segmento industrial. É possível estimar uma maior industrialização no Vietnã para atender o mercado de solúvel dentro do Acordo, principalmente EUA e Japão. O café verde brasileiro não é tarifado no Japão, e, portanto, não se prevê dificuldade de acesso, mas o Acordo cria condições para Vietnã, México e Peru terem entrada privilegiada nesse mercado.

HÁ COMO COMPENSAR UMA VIRTUAL PERDA
DE MERCADO?

SB A iniciativa da Rota da Seda – estratégia chinesa para se opor ao TPP – deve ser uma oportunidade com potencial para equilibrar o que se pode perder com o Acordo. A Rota da Seda terrestre, que conecta a China à Europa via Ásia Central, favorece a interiorização da economia chinesa, levando o hábito de beber café, mais enraizado no litoral, para as áreas centrais. Há potencial mercadológico a ser explorado, em especial nas negociações bilaterais, como já iniciado pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, em missão recente à Ásia.

APÓS DOIS ANOS, VOLTAMOS A PAGAR EM DIA A ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO CAFÉ (OIC)?

SB O Brasil, líder em produção e exportação e segundo maior consumidor mundial, precisa estar em dia com a OIC para ter voz ativa no principal fórum internacional do café, que engloba as representações pública e privada das nações produtoras e consumidoras do Planeta e é de onde saem as principais decisões da cafeicultura global.

DEPOIS DE MAIS DE UM ANO, O CAFÉ VOLTA A TER ESTRUTURA PRÓPRIA NO GOVERNO?

SB A iniciativa de descentralização dos assuntos inerentes à política cafeeira implantada na gestão anterior do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) não funcionou pelo excesso de burocracia, o que impossibilitou o desenvolvimento das políticas públicas do setor. Com a criação do Departamento de Café, Cana-de-Açúcar e Agroenergia, será possível retomar os trabalhos do Conselho Deliberativo da Política do Café (CDPC), apoiar o andamento das decisões deste e otimizar a operacionalização dos R$ 6 bilhões do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). A reestruturação é importante, também, para o progresso de ações voltadas a planejamento estratégico, pesquisa e desenvolvimento, promoção e marketing e acordos internacionais.

Participação na OIC

O brasileiro Robério Silva foi reconduzido ao cargo de diretor executivo da Organização Internacional do Café (OIC) por mais dois anos e meio, após o vencimento do seu contrato, em 30 de setembro de 2016. O Conselho Internacional do Café reconheceu os importantes resultados alcançados pela entidade durante a sua gestão, no período de 2012 a 2016, principalmente no que diz respeito à ampliação da abrangência e da representatividade da Organização – consolidando-a como o principal fórum internacional para encaminhamento dos assuntos inerentes à economia cafeeira – e às reformas administrativas realizadas que levaram a maior eficiência e economicidade das ações institucionais.


REGIÕES EXPRESSAM DIFERENTES RESULTADOS

Breno Mesquita, Presidente da Comissão Nacional do Café da Confederação Da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

Maciel Silva, Assessor Técnico da Comissão Nacional do Café da CNA

As diversas características edafoclimáticas da cafeicultura resultam em variações nos sistemas de produção, nas espécies cultivadas, na qualidade e no rendimento da produção e, consequentemente, nos resultados econômicos. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Centro de Inteligência em Mercados da Universidade Federal de Lavras (CIM/UFLA), levantou o custo de produção em dez municípios brasileiros nas principais regiões produtoras de Arábica, classificando os sistemas de produção em irrigados e não irrigados e em manual – quando não se utilizam máquinas –, semimecanizado – quando algumas atividades, exceto a colheita, são feitas com o auxílio de máquinas – e mecanizado – com maquinário em todas as etapas.

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Nas regiões de produções manual (Santa Rita do Sapucaí-MG, Caconde-SP e Brejetuba-ES) e semimecanizada (Apucarana-PR, Guaxupé-MG e Manhumirim-MG), os gastos com colheita e pós-
colheita foram os que mais impactaram o Custo Operacional Efetivo (COE), correspondendo, em média, a 41% dos desembolsos. Nas regiões mecanizadas (Luís Eduardo Magalhães-BA, Monte Carmelo-MG, Capelinha-MG e Franca-SP), o maior desembolso foi com fertilizantes, que responderam, em média, por 28% do COE.

As diferentes condições de produção resultaram em variações nos Custos Totais (CT) dos municípios produtores de Arábica, que foram de R$ 401,77 por saca, em Luís Eduardo Magalhães-BA, a R$ 535,10 por saca, em Guaxupé-MG. O custo total médio em ٢٠١٦ foi de R$ ٤٨٠,٧٤ por saca.

As boas condições climáticas na maioria dos municípios pesquisados contribuíram com a produtividade, que variou de 30 a 50 sacas por hectare na safra 2016. O efeito da economia de escala, aliado aos bons preços de venda nesta safra, favoreceu os resultados econômicos nas regiões com café Arábica como um todo.

De todos os levantamentos, apenas em Apucarana-PR não houve receita superior aos Custos Operacionais Totais (COT), com margem líquida negativa de R$ 33,34 por saca e prejuízo de 121,60 por saca. O maior lucro foi verificado em Luís Eduardo Magalhães-BA, de R$ 80,98 por saca, que, associado, à produtividade de 45 sacas por hectare, resultou em um lucro de R$ 3.644,04 por hectare.

Já a cafeicultura de montanha, após duas safras com problemas graves de seca e margem líquida negativa, tem a safra 2016 como esperança para a renovação da capacidade produtiva. Porém, os produtores deverão trabalhar constantemente na gestão do custo de produção e no controle do fluxo de caixa na safra 2017, que é de bienalidade negativa, e estar atentos às informações de mercado.


ESCASSEZ DE CONILON E PERDA DE MERCADO

Aguinaldo Lima, Diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics)

Os recordes de exportações de café Conilon na safra 2014/15, somados às quebras das safras no Espírito Santo em 2015/16 e às incertezas de mais baixas para a safra 2016/17, criaram um cenário dramático de escassez no Brasil. O maior produtor do mundo não está conseguindo produzir Robusta suficiente para atender a demanda doméstica das indústrias de torrefação e solúvel.

Nesse mercado, há um desconhecimento do volume dos pequenos estoques remanescentes. Os produtores capixabas relutam em vender seu valioso ativo na expectativa de novas altas nas cotações. Esse quadro fez com que os preços do Conilon disparassem, a ponto de baterem recordes e, inusitadamente, superarem os do Arábica, fato nunca observado na história.

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O cenário é de dificuldades e incertezas, sendo praticamente impossível comprar lotes de maiores volumes de café Robusta. Os preços dos produtos colocados à comercialização são proibitivos e inviáveis para as indústrias brasileiras de solúvel competirem com as concorrentes internacionais.

O Conilon é essencial na fabricação de café solúvel, com utilização na proporção de até 80%. Sua substituição é impraticável no rendimento industrial, pois possui uma extração de sólidos solúveis e carboidratos, na média, superior em até 30% à do Arábica. Do lado econômico, a troca significaria o fim anunciado das exportações brasileiras e, até mesmo, o encerramento da atividade de algumas das seis indústrias em atividade no Brasil.

O complexo ambiente de escassez e desabastecimento compromete as exportações brasileiras do produto justamente quando o setor, após dez anos de estagnação, voltou a crescer. Em 2015, os embarques subiram 2,3%, e, em 2016, como fruto de vendas realizadas no ano passado, a previsão é de crescimento de mais 7%. Isso significa quase 10% em dois anos.

Para manter o fornecimento e a competitividade, volta à tona a discussão sobre a importação do Conilon, em regime de drawback, com isenção de impostos e a obrigatoriedade de ser unicamente utilizado para fabricação e exportação – não se permite a utilização no mercado doméstico –, pois, caso contrário, a legislação impõe a aplicação de impostos e multas pesadas pela Receita Federal, além da suspensão dos direitos de a indústria solicitar novas importações com isenções.

Desde setembro, observa-se um quadro crítico: o Conilon importado do Vietnã está mais barato do que o brasileiro. Esta diferença, em 1º de novembro, no Porto de Santos, alcançou incríveis US$ 22 por saca.

Para a indústria de solúvel brasileira, importar é a última e trabalhosa solução, porém inevitável diante da inusitada situação de desabastecimento. Para manter e ampliar o market share existente, é preciso atingir as metas estabelecidas pela ABICS em 2015, de aumentar as exportações em 50% nos próximos dez anos.

O café solúvel brasileiro, desde sempre, é líder mundial na produção e na exportação. As empresas nacionais desenvolveram um modelo de negócios agressivo e competitivo, com grandes investimentos em tecnologia e qualidade. Como seu crescimento proporcionou a evolução do parque produtivo do Conilon brasileiro, seria um contrassenso desejarmos importar se não fosse realmente necessário.

A importação em regime de drawback deve passar por um acordo com os produtores e demais segmentos da cadeia produtiva: um pacto de caráter pontual que permita importações de quantidades mensais prefixadas, por períodos determinados, fora das épocas de colheita. A ABICS entende que a importação, se pactuada de forma inteligente, passa de ameaça a oportunidade para produtores e indústria. Com a recuperação da produção capixaba, tendo o Brasil seu potencial preservado, todos sairão ganhadores.

Tamanho do problema:

- Déficit de sacas de - Conilon- : 4,8 a 8,7 milhões.

A solução deve ser encontrada com:

- Os produtores tendo mantido a sua capacidade produtiva em termos da expectativa de alta nos preços e a remuneração necessária dos estoques remanescentes;

- A indústria de café solúvel tendo o fluxo de café na quantidade necessária para se manter ativa junto aos clientes internacionais.


CONSUMO CRESCE, APESAR DA CRISE

Nathan Herszkowicz, Diretor Executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic)

A crítica situação econômica e política que o Brasil vem atravessando não afetou o consumo de café de maneira geral. Alguns até passaram a comprar marcas de preços mais acessíveis, mas não abandonaram o hábito e começam a retornar para o segmento premium. Esse comportamento dos consumidores é acompanhado pela ABIC tanto junto a seus associados, que relatam não terem sentido queda nas vendas, quanto por meio de pesquisas de mercado.

Estudo recente do Euromonitor indica que o consumo deverá crescer, em média, 3,2% até 2020, considerando todos os tipos de cafés. Temos, portanto, um mercado interno consistente, que beneficia toda a cadeia produtiva. Outro dado impactante é que 89% dos consumidores acima de 60 anos bebem café diariamente e os jovens, de 16 a 20 anos, têm frequência diária de 49%, com média geral de 3,7 xícaras/dia. A pesquisa projeta, também, um aumento do consumo, em volume, para 24 milhões de sacas em 2019.

Além da melhoria da qualidade e das inovações trazidas pelas indústrias, há outro fator que dá suporte ao mercado brasileiro: a divulgação dos benefícios do café para a saúde humana. São inúmeros os estudos realizados em diversos países, mas, muitas vezes, algumas informações são divulgadas sem embasamento técnico-científico.

Por sugestão da ABIC, criamos, no início de 2016, o Núcleo Café e Saúde, um colegiado composto por médicos de diversas especialidades, pesquisadores e representantes da cadeia produtiva. O objetivo é desenvolver uma série de ações para esclarecer essas informações errôneas sobre o café. Também estamos criando um banco de conhecimento, com conteúdos sobre os benefícios da bebida separados por temas de interesse.

Entretanto, apesar desse cenário positivo, as indústrias atravessam um período grave com relação ao abastecimento e à alta da matéria-prima, principalmente do Conilon, que é a base de inúmeros blends. O desafio de cada torrefadora não é só financeiro, mas, sobretudo, encontrar a composição de grãos mais adequada possível para preservar a manutenção do sabor e do aroma característicos de sua marca e apreciados por seus consumidores. Trata-se de uma tarefa que está sendo levada a sério por todas as indústrias, independentemente do porte, pois não é interesse do setor perder esse impulso que está tendo o nosso mercado.


ANO DIFÍCIL, MAS FIRMEZA NAS EXPORTAÇÕES

Marcos Antonio Matos, Diretor Geral do Conselho de Exportadores de Café (Cecafé)

Eduardo Heron Santos, Diretor Técnico do Cecafé

Ao se aproximar do encerramento de 2016, as exportações de café do Brasil indicam, até o momento, uma redução estimada em cerca de 8% frente ao ano anterior, devendo alcançar 34 milhões de sacas, depois de um extraordinário recorde embarcado em 2015 – 37 milhões de sacas. Esse é o resultado de um amargo ano nas exportações de Conilon, que, no acumulado de janeiro a outubro, apresentou uma redução de 85,8% na comparação com o ano passado, com um dos piores desempenhos da variedade desde 1997.

Apesar da ausência de grandes volumes nos estoques remanescentes e de uma forte quebra na produção de Conilon no Espírito Santo – maior estado produtor da variedade – devido a uma severa estiagem e a elevadas temperaturas nos últimos anos, os cafés Arábica e solúvel mantiveram firmes os embarques do País, com acréscimo de 1,5% e 6,8%, respectivamente, na comparação com o ano anterior, garantindo ao Brasil as posições absolutas de liderança e de principal fornecedor mundial.

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No agronegócio brasileiro, o café permanece na quinta posição, com a receita cambial gerada de US$ 4,2 bilhões FOB até outubro, correspondendo a 5,75% de participação e mais de 75 mil contêineres embarcados, demonstrando a capacidade e a eficiência do comércio exportador nacional em atender as crescentes demandas interna e externa.

Diante de tantos números publicados pelo mercado, ainda é cedo para fazer um diagnóstico mais coerente dos embarques nacionais de café para 2017, mas, analisando o resultado dos últimos três anos das exportações brasileiras, o desempenho esperado para 2016 e as perspectivas do consumo mundial, o Brasil ainda tem grandes desafios pela frente, principalmente no que se refere à mitigação dos efeitos climáticos nas regiões produtoras, visando à manutenção regular do suprimento e à ampliação de boas práticas agrícolas que garantam renda e produtividade aos produtores.

Com a mudança no perfil do consumo, a melhoria da renda nos países emergentes e em desenvolvimento, o aumento global da população e a alteração no fluxo do comércio mundial (Ásia), as expectativas são muito positivas para o consumo global de café, porém a cafeicultura brasileira deve preparar-se para continuar a atender os mais diversos e exigentes mercados, principalmente no que se refere a qualidade e sustentabilidade.


BARTER GANHA ESPAÇO COMO OPÇÃO PARA FINANCIAMENTO DA SAFRA

Paulo André C. Kawasaki

Os produtores rurais vêm buscando outras opções além do tradicional crédito bancário e do capital próprio para bancar a sua safra. À procura de financiamento fora do sistema financeiro, a venda a prazo ganha força, por meio das operações de troca, conhecidas como “barter".

A assessora técnica do Conselho Nacional do Café (CNC), Silvia Pizzol, explica o crescimento dessas operações pelo cenário de restrição de crédito. “O barter gera segurança à cadeia produtiva, pois evita problemas de recebimento e eleva o crédito para o produtor. Com isso, possibilita a manutenção de tratos culturais adequados de bons índices de produtividade", comenta.

O gerente de Mercado Futuro da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), Heberson Vilas Boas Sastre, aponta que a ferramenta permite financiar inputs aos produtores. “O barter é o pagamento de insumos por meio da entrega do grão na safra sem movimentação financeira. Consiste na troca de fertilizantes, sementes, defensivos, entre outros, por commodities como café, soja, milho, algodão, açúcar etc.", pontua.

Escambo moderno?

Questionada se podemos considerar o barter como um “escambo moderno", a assessora do CNC revela que, apesar das semelhanças, a ferramenta é mais sofisticada. “Há envolvimento de capital, hedge no mercado futuro e entrega do produto, diferentemente do escambo, com simples troca de produtos e/ou serviços entre as partes", analisa Pizzol.

Sastre entende que se trata de um aperfeiçoamento. “O produtor troca produto agrícola por insumos. A diferença é que a trading entra dando liquidez à operação, e, sem ela, não seria possível o negócio", argumenta o gerente da Cooxupé, que recorda que a operação teve início há quase duas décadas no Brasil e avança a cada ano.

Barter, cooperativas e café

Para os especialistas entenderem, o barter é uma das operações de mercado que atendem os produtores, especialmente os vinculados a cooperativas, com resultados financeiros para ambos. Como é financiada para uma grande companhia, a operação alivia, em parte, o “livro" de captações financeiras, em especial quando o mercado de barter ingressa no ramo dos maquinários, cujo valor é mais elevado.

As commodities possuem dois mercados:

- O primeiro é precificado a partir dos vencimentos de meses mais recentes na Bolsa de Mercadorias; no caso do café, trata-se da ICE Futures US de Nova York, cujas cotações, multiplicadas pelo preço do dólar - spot- , servem de base para a definição do valor no mercado físico; e

- O segundo, de futuro, é tabelado nos vencimentos com meses mais distantes na Bolsa, também com preço multiplicado pelo dólar, tomando como referência a data de entrega da mercadoria. “Nesse caso, existe uma taxa de juros incidente sobre o café e o dólar que, normalmente, é maior do que a taxa que o produtor paga ao fazer o - barter- . Assim, é inevitável que a operação de - barter- seja mais atrativa do que o preço do café no mercado físico", explica - Sastre- .

Pizzol completa que, considerando a oscilação do dólar ante o real e o impacto da moeda norte-americana no preço dos insumos, o barter pode ser visto como a forma mais segura de negociação. “Os preços físico e futuro são estipulados em reais, com a trading travando ('hedgeando') o café e o dólar futuros. Mas, há operações de barter realizadas em dólar, o que gera uma menor oscilação, devido ao fato de a única variável considerada ser o preço do café, o que proporciona mais tranquilidade e atrai os produtores, visto que a preocupação com a volatilidade é mínima", explana.

A assessora do CNC recorda, ainda, que há alguns percentuais a serem considerados quando o produtor optar pelas operações de barter. “Não há uma regra específica, com os volumes oscilando conforme definição das tradings, porém é recomendável que os produtores de café optem por realizarem barter com cerca de 30% de sua colheita na entressafra ou cheguem a um máximo de até 60% próximo à safra, sem correr o risco de não conseguirem honrar a entrega se enfrentarem problemas que reduzam a sua capacidade de produção".

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Ao mesmo tempo em que recomenda o barter por ser “uma ferramenta simples, prática e segura de resultados aos produtores", Sastre destaca que, no caso específico do café, também existem outros instrumentos tão interessantes e vantajosos. “Para a cafeicultura, temos várias modalidades de operações futuras, com preço fixo e segurança para trading e produtor, sem envolver companhias custeando insumos, pois o financiamento fica a cargo da própria cooperativa. Entre estas modalidades, destacamos (i) Cédula de Produto Rural (CPR) com recurso antecipado (garantia hipotecária e aval bancário); (ii) trocas; e (iii) garantia de preços, servindo exclusivamente para garantir cotações futuras em real ou dólar", conclui.

No Brasil, a operação de barter é oferecida por grandes companhias, como Syngenta, Pioneer, BASF, Bayer, DuPont, ADM, Adama, entre outras. Muitas delas não possuem trading de commodities, sendo necessário uma parceria para precificar e receber o produto no momento da entrega. Além disso, as empresas que oferecem o produto, normalmente, também financiam a venda dos insumos a prazo. Já o produtor, ao efetuar um barter, está travando preço futuro, o que permite que o seu produto não corra o risco de se depreciar na parcela negociada.