Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Agronegócio imune a Trump?

Dezembro de 2016

A ELEIÇÃO de Donald Trump balançou os mercados mundiais. Com boa reflexão ex post, não é difícil entender a vitória do candidato republicano. Hillary Clinton teve a maioria dos votos populares e ganhou nos estados mais desenvolvidos e com maior nível cultural. Trump massacrou nos estados em que boa parte dos cidadãos nunca sequer teve um passaporte, ou seja, são comunidades muito fechadas em relação ao que acontece no mundo. O discurso de Trump tocou diretamente no conceito da América grande. E o sistema de eleição indireta, distorcido em nosso entender, fez o resto.

Na prática, Trump já moderou o discurso, e muito do que ainda mantém na retórica será de difícil implementação, graças ao sistema de divisão dos poderes nos Estados Unidos. Mesmo assim, pelo menos duas alterações na economia mundial tendem a ocorrer: maior corrida protecionista e tendência de alta dos juros norte-americanos (há clara tendência de elevação de gastos para a retomada da indústria, maior inflação e juros mais altos). Estes efeitos tendem a desvalorizar um pouco mais acentuadamente o real. Já a política mais protecionista pode ou não afetar o agronegócio do Brasil, conforme aponta a matéria da página 15. O agronegócio brasileiro não registrou crescimento vertiginoso no comércio com os norte-americanos nos últimos oito anos, com o governo de Barack Obama. Logo, é razoável supor que, ao menos até o momento, não há grandes preocupações com possíveis efeitos negativos do governo Trump para a pauta agrícola brasileira.

Já a situação interna piorou ligeiramente com a constatação de que a retomada do crescimento econômico será mais lenta. A Agroanalysis continua acreditando em crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017, inflação tendendo à meta e juros menores, podendo a Selic terminar o próximo ano na casa dos 10%. O efeito cambial já ocorreu, em nossa opinião: o dólar teve valorização de 10% desde a eleição de Donald Trump; e o real, que deveria ficar entre R$ 3,10 e R$ 3,40 neste ano, tende a ficar entre R$ 3,20 e R$ 3,60.

A situação piora caso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) dos gastos não seja aprovada até o final deste ano, o que é pouco provável. Os produtores de commodities que já fizeram as suas compras de insumo com dólar mais baixo podem ter ganhos adicionais.

No campo, em ritmo final de plantio da safra de verão 2016/17, as atenções voltam-se para a evolução vegetativa das culturas, depois da quebra de colheita na temporada passada em função das estiagens, principalmente na região do MAPITOBA. A soja, carro-chefe da produção, sente a pressão de baixa no mercado decorrente da supersafra dos Estados Unidos. A expectativa é de uma reação nos preços a partir do segundo trimestre, com a entrada da entressafra.

As expectativas de um clima mais favorável na safra 2016/17 e de custos menores sinalizam uma rentabilidade melhor para a soja. A estimativa é de lucro médio de R$ 915,79 por hectare, no Mato Grosso, e R$ 1.440,66 por hectare, no Paraná.

Na indústria de cana-de-açúcar, há esperança de recuperação e atração de novos investimentos. O setor ainda se ressente bastante dos prejuízos incorridos na primeira metade desta década. A política governamental de congelamento dos preços da gasolina foi um desastre para o etanol. De qualquer forma, a previsão para o volume de cana a ser moída no ciclo 2016/17 não sinaliza para um aumento da produção, mesmo com o aquecimento dos mercados de açúcar e etanol. É uma fase de transição, com probabilidade de crescimento a partir de 2018/19.

É muito interessante o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ao analisar a evolução dos preços reais do leite no Brasil. Desde meados dos anos 70 do século passado, os produtores passaram a receber preços decrescentes pelo produto vendido. O preço médio por litro recuou de R$ 3,82 para R$ 1,31 entre 1978 e 2016, uma queda de 66%. Por outro lado, a produção nacional de leite cresceu mais de 2,5 vezes no mesmo período. Isso indica que o avanço tecnológico foi capaz de reduzir os custos de produção, mantendo ou, até mesmo, aumentando a margem de rentabilidade dos produtores.

Estão em pauta, também, os compromissos assumidos pelo Brasil na 21ª Conferência Mundial sobre a Mudança Climática da Organização das Nações Unidas (COP-21), em 2015, no Acordo de Paris. O impacto é bem positivo para a indústria de cana-de-açúcar, que terá de produzir, até 2030, cerca de 50 bilhões de litros de etanol, frente aos 28 bilhões de litros registrados na safra 2015/16. Esse pacto foi ratificado na COP-22, realizada recentemente, em Marrakech, no Marrocos. Entrevistada na seção Abre Aspas, Elizabeth Farina, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), faz um balanço da COP-22, na qual esteve presente.

Para terminar, o Caderno Especial da cadeia produtiva de café traz uma visão atualizada da evolução do setor, em que pese a necessidade de retirada das “pedras do caminho". Neste ano em especial, a quebra na colheita do café Conilon, usado normalmente como blend em 50% pela indústria de torrefação, causou um fato inusitado: o seu preço superou o do Arábica no mercado brasileiro. Com isso, como solução imediata, as empresas aumentaram a utilização do Arábica no blend de 50% para 80%. As entidades do setor têm de suprir o déficit existente com produtos importados do Vietnã e desovados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), sem deprimir a renda do produtor local.

A equipe da Agroanalysis agradece a atenção despendida pelas empresas anunciantes, pelas entidades parceiras, pelos autores dos textos e pelos leitores, desejando a todos os votos de um feliz natal e um próspero 2017, na torcida pela retomada da economia brasileira e pela continuidade do crescimento do nosso agronegócio.