Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Açúcar e etanol

Mercado em recuperação

Dezembro de 2016

NA SAFRA atual (2016/17), pode-se resumir a situação do setor de açúcar e etanol como tecnicamente em recuperação, tendo já abandonado a respiração artificial. A condição de mais alívio está relacionada à recuperação do preço do açúcar no mercado internacional – saiu do patamar de US$ 0,16 por libra-peso, no final de setembro de 2015, para cerca US$ 0,23 por libra-peso, atualmente. A elevação do preço ocorre com o término de cinco anos de superávits no balanço entre oferta e demanda mundiais e o início de um período de pelo menos dois anos de déficit. Em termos acumulados, é o maior déficit registrado na história, atingindo quase 16 milhões de toneladas de açúcar cru equivalente nos anos comerciais de 2015/16 e 2016/17 (outubro a setembro).

Apesar dos preços mais elevados de açúcar, que arrastam consigo o etanol, o setor ainda sofre as sequelas da crise causada pela intervenção nociva do governo federal nos preços e na política fiscal aplicada à gasolina. Durante quase seis anos, o Governo subsidiou o preço da gasolina e reduziu a zero o valor do tributo diferenciador da gasolina e do etanol, denominado Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), tendo apenas recentemente recuperado de forma parcial o seu valor em termos reais.

O preço do açúcar subiu, pois, no curto prazo, o Brasil atingiu o limite de sua capacidade de ofertar açúcar no mercado. O mercado tenta, assim, descobrir o preço que deve estimular a oferta da tonelada marginal. Com esse preço mais elevado, aumenta o número de grupos econômicos que passam a ser capazes de gerar resultado suficiente para cobrir os juros da dívida acumulada, estimada em cerca de 116% da receita em reais por tonelada de cana, na média do setor.

No entanto, na falta do estabelecimento de uma política transparente e previsível que norteie como se dará a competitividade do etanol com a gasolina no longo prazo, continuam inexistentes as condições para uma retomada nos investimentos em expansão da capacidade de moagem.

Na safra 2016/17, estimamos, para o somatório das regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste, a moagem de cana em 647 milhões de toneladas de cana e a produção em 37,85 milhões de toneladas de açúcar e 27,13 bilhões de litros de etanol. Para o próximo ano, estimativas preliminares indicam uma disponibilidade de matéria-prima em torno deste volume, podendo ser até um pouco menor, a depender do clima. Considerando o tempo necessário para a maturação de novos investimentos, é preocupante a inexistência de condições que levem a uma retomada do crescimento desse setor. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima um déficit de 410 mil barris por dia no mercado de combustíveis do ciclo Otto até 2030. Este volume representa 23,79 bilhões de litros de anidro equivalente ou 33,99 bilhões de litros de hidratado equivalente num prazo de apenas quatorze anos, ou dois ciclos de cana à frente.

Adicionalmente, deve-se levar em conta que: o canavial está mais envelhecido, requerendo investimentos agrícolas relevantes para a sua recuperação; o mercado de açúcar é caracterizado por ciclos; e preços mais elevados devem resultar em estímulo à expansão em outras geografias, o que inevitavelmente irá se transformar em inversão do quadro de déficit para superávit, dentro de poucos anos.

A bioeletricidade, que representa o terceiro tripé de sustentação do setor de açúcar e etanol, continua sem um mecanismo que valorize o menor investimento em linhas e a menor perda na transmissão, em relação a outras fontes de eletricidade.

É lamentável que pouca atenção esteja sendo dada à importância do estabelecimento de uma política pública consistente para este setor, que leve em conta a relevante contribuição que tem oferecido para o desenvolvimento econômico descentralizado. São inúmeros os trabalhos que comprovam o efeito positivo que o seu desenvolvimento tem trazido à renda per capita dos municípios em que se instala e a diversificação que gera no comércio e na indústria locais.

No momento em que surgem novas tecnologias automotivas que valorizam a elevada octanagem e o elevado teor de hidrogênio dos combustíveis líquidos, ambas características nas quais o etanol tem grande destaque em relação aos combustíveis tradicionais, causa estranheza que o Brasil esteja deixando às minguas um setor que tanta contribuição trouxe para a geração de emprego e renda.

Na falta de uma política geral que internalize no preço de mercado do etanol suas vantagens energéticas e ambientais, o setor privado luta para viabilizar a introdução de novas tecnologias que permitam um novo ciclo de aumento de produtividade, revertendo os efeitos deletérios da falta de recursos em tratos culturais. O paciente saiu da UTI e entrou na unidade de tratamento semi-intensivo. Tomara que ele tenha tempo para progredir para a enfermaria e não retorne mais à UTI.