Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Melhor 2018!

Dezembro de 2017

NESTA ÚLTIMA edição da Agroanalysis de 2017, vale ressaltar que os prognósticos feitos para os principais números da economia brasileira estiveram sempre na linha correta: a taxa básica de juros (Selic) terminará o ano na casa dos 7%; a inflação caiu para baixo da meta de 4,5%; e o dólar vai terminar dezembro valendo cerca de R$ 3,30. Os produtores rurais não tiveram maiores sustos, e os preços não foram ruins considerando o tamanho da safra.

Se o clima ajudar e o mundo continuar razoavelmente bem-comportado – equilíbrio interno dos Estados Unidos em face das ações do presidente Trump, manutenção da taxa de juros norte-americana e ausência de conflitos armados de grandes proporções –, 2018 será um ano ainda melhor. Claro está que as eleições de outubro podem trazer um cisne negro, mas não é o que o mercado financeiro está lendo neste momento. Mesmo que um candidato populista, ou um outsider, ganhe as eleições, haverá pouco espaço para aventuras fiscais e populistas. E, quanto melhor formulada for a política econômica, maior será a chance de a retomada econômica não ser um voo de galinha.

Neste momento, o nó da economia brasileira permanece no campo fiscal, com um déficit público expressivo e um crescimento da dívida acentuado. Há uma ausência de medidas mais efetivas de ajuste fiscal. O governo demonstra não ter mais forças políticas para promover grandes mudanças. Isso significa que apenas um novo governo, imbuído de força política após um processo eleitoral, terá condições de promover maiores alterações. Em outras palavras, medidas palpáveis para promover um redirecionamento da trajetória insustentável das contas públicas só ocorrerão em 2019.

A fim de avaliar a safra 2017/18 de cana-de-açúcar, a Canaplan realizou seu 2º encontro do ano. Do ponto de vista da evolução da produtividade, medida em toneladas de ATR por hectare, houve uma importante redução do seu patamar médio quando se compara o período de 2011/12 a 2017/18 com o período de 2005/06 a 2010/11. A renovação do canavial segue abaixo do necessário. A realidade econômica e financeira do setor sucroenergético mostra alto endividamento. Há, neste governo de transição, uma esperança de implantação do RenovaBio, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pelo setor privado.

Na produção de leite, a demanda fraca na ponta final da cadeia produtiva e o aumento da produção pressionaram para baixo os preços do leite no Brasil em 2017. O resultado só não foi pior para o pecuarista porque a redução dos custos foi maior do que a queda nos preços. Portanto, o resultado da produção depende da eficiência do gasto com insumos.

Ao longo deste mês, dois encontros internacionais, que acontecem na vizinha Argentina, merecem acompanhamento pelo público do agro. O primeiro refere-se às negociações entre os países do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a União Europeia (UE), paralisadas há dezessete anos. Espera-se que o acordo de livre-comércio entre os dois blocos comece em janeiro de 2019, mas as ofertas de abertura de mercado para o etanol pela UE decepcionaram os sul-americanos. O segundo é a 11ª Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), com pontos de vista discordantes no capítulo sobre regras de comércio do algodão.

Na seção Abre Aspas, tem-se a entrevista com André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Apesar da queda registrada no desmatamento da Amazônia de agosto de 2016 a julho de 2017, no seu entendimento não há real motivo para celebração, pois o nível desta ação continua alto. O ritmo está mais lento, mas o processo prossegue. Sobre a 23ª Conferência das Partes (COP-23) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), realizada em Bonn, na Alemanha, em novembro – na qual esteve presente –, considera que os resultados obtidos ficaram aquém do esperado.

Para finalizar, tem-se o Caderno Especial sobre a cadeia produtiva de café. Esta é a 12ª edição da parceria entre a Agroanalysis e o Conselho Nacional do Café (CNC) e outras entidades do setor – como a Comissão Nacional do Café da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CECAFÉ), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS) e a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). O setor está de olho na safra 2018/19, de bienalidade positiva, com maior colheita, depois de uma florada cercada de temperatura elevada e estiagem.

ATENÇÃO AOS JUROS

É preciso atentar para um aspecto muito importante que passa despercebido para muitos produtores: a taxa de juros. Há muito tempo que o Brasil trabalha com taxas de juros básicas altas e inflação sempre acima do centro da meta. Agora, com a Selic em 7,5% e a inflação na casa dos 3%, é preciso muita atenção aos juros. Por exemplo, se os juros tomados em um financiamento forem de 8,00% a.a., a taxa real será de 4,85% a.a. Muitos fornecedores (inclusive cooperativas) estão embutindo juros de 1,0% ou até 1,5% ao mês na venda de insumos. Juros de 1,0% ao mês equivalem a 12,68% ao ano; considerando a inflação de 3%, os juros reais serão de 9,40% ao ano! Esse custo financeiro pode atrapalhar muito a vida dos produtores que estavam acostumados com taxas de 1,0% ao mês.

Veja uma simulação simplificada: 1 hectare de soja tem custo médio de R$ 2.000. Se todos os insumos fossem hipoteticamente financiados, em um ano teríamos um custo real adicional de R$ 188 por hectare (9,40% de R$ 2.000). Se os preços seguissem o valor do dólar e/ou a inflação, estes R$ 188 significariam uma redução direta da margem do produtor – no contexto atual, como regra, os preços dos produtos e o dólar tendem a seguir a inflação a longo prazo, que, no caso dos últimos doze meses, foi de 3%. Quem não atentar para essa situação pode sentir um aperto inesperado de caixa na próxima safra.