Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Agricultura

Escala, tecnologia e lucratividade

Dezembro de 2018

O CONCEITO de economia de escala refere-se à redução do custo unitário obtido pelo aumento no número de unidades produzidas. Essas economias estão geralmente ligadas ao uso mais eficiente dos insumos, ao avanço tecnológico ou às vantagens comerciais obtidas na compra de matérias-primas e na comercialização da produção.

Na agricultura, a escala afeta diretamente a eficiência da produção, especialmente em produtos mais homogêneos, como as commodities. A modernização agrícola propiciada a partir da Revolução Verde disponibilizou uma série de tecnologias que permitem ao agricultor um maior controle das variáveis ambientais, bem como um melhor aproveitamento da terra. Apesar de estas tecnologias estarem disponíveis para agricultores de diversos tamanhos, elas se mostram mais eficientes quando utilizadas em escala elevada.

Como consequência, o processo de intensificação tecnológica acaba por gerar uma maior concentração produtiva quase naturalmente. A busca por maior eficiência acaba por induzir um processo de ampliação das propriedades de forma a aumentar a escala de produção. Esse processo transparece nos números do mais recente censo agropecuário brasileiro, em que se observa uma concentração produtiva elevada – cerca de 10% das propriedades são responsáveis por quase metade da produção e 70% do valor produzido no País.

E esse processo parece ocorrer mesmo em países cuja a formação do espaço agrícola se deu de forma menos concentrada do que no Brasil, como os EUA. Dados do último censo norte-americano revelam que, mesmo na categoria de propriedades familiares, vem se observando um aumento na concentração. Apesar das pequenas propriedades representarem quase 90% das unidades produtivas, elas representam menos de 50% da área cultivada e menos de 25% do total do valor produzido. Considerando que as grandes propriedades, que representam menos de 3% das unidades, produzem quase o mesmo valor (22,8%), fica clara a relação que existe entre escala e eficiência produtiva.

Esse processo de intensificação tecnológica e concentração produtiva vem trazendo excelentes resultados para a agricultura norte-americana. Segundo um artigo da revista The Economist, a safra de grãos dos EUA deve atingir o recorde de 4,79 bilhões de bushels em 2018. Esta safra é resultado direto de um aumento da produtividade agrícola, especialmente na produção de grãos. Atualmente, o problema enfrentado pelos agricultores americanos refere-se ao escoamento dessa safra elevada, dada a restrição de comercialização com a China em decorrência da disputa comercial entre os dois países.

Isso não significa que não existe espaço para a agricultura em propriedades médias e pequenas. Em algumas atividades agropecuárias, as economias de escala não são tão intensas, como na produção de hortifrútis. Geralmente, isso se explica pela menor mecanização no processo produtivo ou pela importância da logística nesse processo, trazendo vantagem para propriedades que se encontram mais próximas aos mercados consumidores. Devido ao valor mais elevado das terras próximas a centros urbanos, é difícil ampliar muito a escala nesse tipo de atividade.