Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Cana

O encerramento da safra 2018/19

Dezembro de 2018

NO ANO de 2018, o clima tem sido peculiar para o setor de cana, açúcar e etanol. Entre fevereiro e meados de agosto, a precipitação pluviométrica média na região Centro-Sul, ponderada pela participação da moagem de cada microrregião canavieira, ficou sistematicamente abaixo da média histórica de trinta anos. A partir do final de agosto, a situação se inverteu, e temos observado chuvas abundantes em volumes bem superiores à média histórica.

O longo período de seca fez com que a safra avançasse rapidamente, com a colheita de canaviais que não haviam completado seu estado total de desenvolvimento. Igualmente, após a colheita, as soqueiras pouco se desenvolveram. A falta de umidade fez com que os canaviais a serem colhidos no final da safra ficassem comprometidos também e que não houvesse condição agronômica para a renovação do canavial, seja de cana planta de dezoito meses ou cana de doze meses.

Por conta de um canavial envelhecido, com taxas de renovação abaixo do desejável há quatro anos, e suscetível a pragas e doenças, além do efeito do clima, o rendimento agrícola tem se mantido abaixo daquele observado nos dois anos anteriores. É previsto que se encerre o ciclo atual com um nível menor do que 75 toneladas por hectare, considerado baixo para os padrões de produção da região.

Na safra atual, os preços deprimidos do açúcar no mercado mundial, refletindo o superávit gerado pelo excesso de produção principalmente na Índia, na Tailândia e na União Europeia, levaram os produtores a direcionarem o mix de produção para um nível bem mais alcooleiro do que o observado na safra anterior. Está projetado que a safra encerre com uma distribuição acumulada de 35,5% para açúcar e 64,5% para etanol. No ciclo de 2017/18, o percentual para açúcar foi de 46,5% e o para etanol, de 53,5%; portanto, uma variação recorde de 11,0% no mix de produção. Na região Norte-Nordeste, a previsão é de repetição da moagem de cana do ano passado, com 44,5 milhões de toneladas, com uma safra também mais alcooleira, com mix para etanol passando de 53,3%, em 2017/18, para 57,9%, em 2018/19.

As duas macrorregiões produtoras somadas – Centro-Sul e Norte-Nordeste – mantêm o Brasil na liderança mundial da oferta de Açúcares Totais Recuperáveis (ATRs), unidade comum de açúcar e etanol, com um volume de 83,93 milhões de toneladas. Nesse sentido, o Brasil é ainda, por larga margem, maior do que o segundo produtor mundial, que é a Índia, com 32,25 milhões de toneladas de açúcar no ciclo 2017/18 (outubro/setembro). No entanto, a safra 2018/19 fica marcada pela grande flexibilidade industrial demonstrada pela indústria brasileira ao reduzir a sua produção de açúcar de 38,59 milhões de toneladas, na safra 2017/18, para projetados 28,68 milhões de toneladas, na safra 2018/19. Ao mesmo tempo, a produção de etanol passa de 27,86 bilhões de litros, em 2017/18, para esperados 32,39 bilhões de litros, em 2018/19. Nestes volumes, estão inclusos 522 milhões de litros de etanol de milho, em 2017/18, e 830 milhões de litros, projetados para 2018/19.

As chuvas abundantes no final de 2018, entretanto, atrapalham o encerramento da safra 2018/19 na região Centro-Sul e indicam que parte do volume anteriormente programado para ser colhido até o final do ano será deixada para ser colhida no início de 2019. Se a colheita ocorrer antes de 31 de março próximo, ainda irá contar como volume da safra 2018/19; se houver colheita após esta data, será contabilizada na safra 2019/20.

A volta das chuvas abre a possibilidade de os produtores programarem a retomada do plantio que ficou atrasado, o que deve consumir parte da cana disponível na forma de mudas. Portanto, ao mesmo tempo em que se antevê o desenvolvimento de canaviais que se encontravam atrasados, é preciso reconhecer que, para a safra 2019/20, o canavial a ser colhido na primeira metade da safra deve apresentar uma baixa produtividade média relativa, recuperando-a na segunda metade da safra.

Em 2018, no acumulado até outubro, o etanol anidro e o hidratado utilizados como combustíveis representaram 42,6% do consumo de combustíveis do ciclo Otto em gasolina equivalente. Esse percentual foi de 38,2%, em 2017, e de 39,4%, em 2016, e demonstra que o Brasil é por larga margem o País que mais substitui gasolina por um combustível renovável e de muito baixa pegada de carbono. Os Estados Unidos – que se transformaram no maior produtor de etanol em volume do mundo, com uma produção anual de 62,5 bilhões de litros produzidos a partir do milho – substituem 9,9% da sua gasolina por etanol.