Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Olho vivo

Fevereiro de 2017

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

Outros textos do colunista

EM MEADOS de janeiro, assumiu a Presidência da República dos Estados Unidos um empresário sem experiência política, com um discurso eleitoral nacionalista e disposição para romper compromissos assumidos pelo país (como o Acordo do Clima de Paris – de dezembro de 2015 e ratificado recentemente em Marrakech – ou o Acordo Transpacífico – TPP –, sem falar nas ameaças à Organização Mundial do Comércio – OMC), além de apresentar sinais diplomáticos muito heterodoxos, seja com acenos de amizade à Rússia, seja com "bananas" à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Isso sem mencionar sinais de guerra comercial com a poderosa China, inibição da entrada de imigrantes e mudança de algumas políticas internas e externas do seu antecessor.

Ainda há muita incerteza sobre quanto das promessas eleitorais se tornará realidade, até porque várias delas terão que passar pelo Congresso, mas o gabinete empossado com Trump está muito sintonizado com elas.

E em quase tudo se vê um certo alinhamento com cenários mutantes em outras regiões do mundo. A saída do Reino Unido da União Europeia é o mais sintomático de um generalizado descontentamento com os resultados da globalização: aumento da desigualdade, desemprego alto (por causa do aumento da tecnologia e da automação), imigrações maciças, concentração da riqueza, entre outros. E observa-se, até mesmo, uma certa erosão no conceito de democracia na Rússia e em países do Oriente Médio. O crescimento do populismo de direita na Europa coloca em risco governos sérios como o da Alemanha e dá sinais de extremismos na França e na Holanda, fragilizando a Zona do Euro.

Há uma insatisfação geral patente: os governos não conseguem resolver isso, e há analistas de peso achando que caminhamos para uma espécie de "desordem global". A brutalidade do terrorismo gratuito e as dramáticas travessias do Mediterrâneo por milhares de migrantes que morrem ao tentar fugir de guerras e miséria na África ou no Iraque, na Síria e em outros países acrescentam mais nuvens sombrias nesse cenário preocupante.

E, é claro, a tudo isso se juntam o aumento da expectativa de vida (envelhecimento das populações e a crise previdenciária daí resultante), a crescente urbanização de países ainda rurais como China e Índia, as mudanças climáticas e o seu impacto na agricultura e na preservação dos recursos naturais (com ênfase para o uso da água), a demanda por energia não poluente etc., etc...

Na nossa América Latina, a situação não está muito melhor do que no resto do mundo. Alguns países ressentem-se da mistura de incompetência de governos passados com os efeitos da crise financeira mundial de 2008/10 e vivem encruzilhadas cruéis, como são os casos da Argentina e do Brasil, em que novos governantes buscam a volta do crescimento sob ameaças sociais determinadas pelo desemprego e pela recessão. E há, ainda, a Venezuela, com seus problemas quase insolúveis, mas Peru, Colômbia, Paraguai e Chile vão encontrando saídas.

Essas questões todas – nacionalismo protecionista, riscos à democracia, terrorismo, imigrações – parecem temas que não têm nada a ver com o agronegócio brasileiro, mas têm sim. E, se os nossos produtores rurais estão construindo e sustentando com seu trabalho incessante a moderna economia nacional, todo esse complicado teatro do mundo pode prejudicar-nos bastante. Temos que ficar de olho vivo!