Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Argentina

Aposta no agronegócio

Fevereiro de 2017

AO CELEBRAR um ano de gestão, o presidente Mauricio Macri enfrenta uma economia combalida na Argentina, com desemprego em alta de 8,5%, estimativa de Produto Interno Bruto (PIB) negativo superior a 3,5% para 2016 e inflação anualizada acima de 40%.

Apesar disso, é esperada uma grande virada nesse quadro incômodo. O motivo está depositado nas colheitas mais fartas para as safras 2016/17 e 2017/18.

Na verdade, a economia sentirá o efeito positivo das medidas tomadas no início do governo Macri, com as retenções nas exportações sendo rebaixadas na soja em grão de 35% para 30% e zeradas no trigo, no milho e na carne. Na soja, esse processo será retomado de janeiro de 2018 a dezembro de 2019, com corte mensal de 0,5%, até chegar a 18%.

No fundo, essas providências fazem parte do plano de reduzir o controle dos preços e dos impostos elevados dos governos Kirchner de 2003 a 2014. São medidas mais liberais para estimular a produção via mercado. Assim, depois de uma contração de 2,5% em 2016, a agropecuária pode ter, em 2017, uma expansão econômica de até 3,5%.

Outra decisão importante no começo de 2016 foi o plano de desvalorização do peso argentino, pelo abandono por parte do governo de uma série de controles cambiais. Com a depreciação da moeda, os setores das “agroexportações" voltaram a ser estimulados.

Vale lembrar o caso da triticultura, cujo cultivo perdeu um terço da sua área, pela falta de rentabilidade, desde a década passada aos dias atuais. Na comercialização da safra 2013/14, por exemplo, o governo chegou ao extremo de suspender os embarques para o exterior, de modo a priorizar a garantia do abastecimento interno. O Brasil, principal país importador do produto, teve de buscar outras fontes de fornecedores.

Nos complexos de cereais e oleaginosas, a Argentina exportou a soma de US$ 23,9 bilhões em 2016, de acordo com Centro de Exportadores de Cereais (CEC) e a Câmara da Indústria de Azeite (Ciara). É um incremento de 22% sobre o período precedente, quando foram embarcados US$ 19,6 bilhões. Aquele valor apenas não supera o recorde registrado em 2011, de US$ 25,3 bilhões, quando uma grave seca no meio-oeste norte-americano quebrou a safra e as cotações de milho e soja entraram em alta. Mas, mesmo sem ciclo de alta nas commodities agrícolas, tal valor deverá ser superado neste ano.

Com tudo isso, há justificativa concreta de novos tempos mais favoráveis para os agricultores do país desenvolverem uma atividade mais diversificada. A concentração na produção ficou mais forte na sojicultura pelo longo período de cotações favoráveis nas grandes bolsas internacionais, em função da demanda chinesa. Nos outros negócios, o controle do câmbio e dos preços tirava a previsibilidade de se fazer e executar um plano.

SAFRA 2016/17

Organizado pela Secretaria de Mercados Agroindustriais no final do ano passado, um evento sobre perspectivas agrícolas divulgou as estimativas oficiais do tamanho da safra nacional de grãos para a temporada 2016/17: 130 milhões de toneladas.

Para a Bolsa de Comércio de Rosário (BCR), a estimativa é de que a agricultura, na safra 2016/17, gere US$ 30 bilhões para a economia argentina. Existem, ainda, 13 milhões de toneladas de óleos vegetais e 42 milhões de toneladas de farelo de soja e subprodutos para serem incluídos nessa conta. O cenário é positivo, com grande parte de suas commodities já com contratos futuros vendidos.

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No curto prazo, as culturas de milho e trigo foram as mais beneficiadas com a reforma das retenciones nas exportações de grãos. Como ficaram em condições mais rentáveis, cada uma destas culturas deve expandir a área em mais de 1 milhão de hectares, com aumento na produção. Já a soja ganhará competitividade mais adiante, com os cortes previstos nas retenciones entre 2018 e 2019.

Com as chuvas ocorridas em janeiro que resultaram nas inundações na Zona Núcleo da Argentina, analistas de mercado estimam uma quebra na produção de soja acima de 10%.

RECUPERAÇÃO MAIS LENTA NA PECUÁRIA

Até meados da década passada, o país era o terceiro maior exportador mundial de carne bovina. Com as políticas oficiais de cotas de exportação e dos limites de preços, o baque veio de forma acachapante: cerca de 138 frigoríficos entraram com pedido de recuperação judicial.

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Para recuperar o estoque do rebanho bovino existente em 2006, quando o governo decidiu restringir as exportações de carne e interferir no mercado, serão necessários sete anos, conforme diagnóstico feito pela Confederação de Associações Rurais da Terceira Zona (Cartez). De lá para cá, a quantidade de gado reduziu de 61 milhões de cabeças para 48 milhões. A expectativa é de uma retomada no crescimento da produção de carne de 15% até 2019.