Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Política cambial chinesa

E lá se vão mais de US$ 800 bilhões

Fevereiro de 2017

EM JANEIRO, enquanto o noticiário político e econômico dedicava a sua atenção à posse do novo presidente norte-americano, Donald Trump, e à apresentação da primeira-ministra britânica, Theresa May, sobre as etapas do processo de saída do Reino Unido da União Europeia, pouca atenção foi dada a dois fatos ocorridos na China: de um lado, os bons números da indústria chinesa e, de outro lado, o esforço do Banco Central chinês para suavizar a tendência de desvalorização do yuan frente ao dólar norte-americano. A combinação destes dois fatores pode ser uma boa síntese do que esperar para a economia mundial em 2017: uma conjuntura econômica favorável sendo desestabilizada por eventos do lado político. Apesar da pouca atenção dada pela imprensa, o agronegócio brasileiro precisa permanecer atento ao que tem acontecido com essa grande economia asiática.

O LONGO ESFORÇO CHINÊS DE CONTROLAR A SUA TAXA DE CÂMBIO

Não é de hoje que o governo chinês promove um grande esforço para manter a sua taxa de câmbio estável e em um patamar que confira competitividade aos seus produtos no mercado internacional. Por exemplo, apesar do forte crescimento das exportações chinesas desde a década passada, o Banco Central chinês conseguiu controlar o processo de apreciação do yuan na própria década. O sucesso desta política pode ser visto no salto expressivo das reservas internacionais da China, que passaram de US$ 165,6 bilhões, em 2000, para US$ 1,5 trilhão, em 2007.

Política cambial chinesa

Porém, com o estouro da crise financeira em setembro de 2008, o Banco Central chinês interrompeu o processo de lenta e gradual apreciação do yuan, mantendo o valor da sua moeda praticamente constante até maio de 2010. Todavia, conforme o Fed (Banco Central dos Estados Unidos) injetava dólar no mercado para tentar salvar as instituições financeiras, a moeda norte-americana perdia valor, criando nova pressão para que o yuan se apreciasse. Na realidade, esta pressão existiu sobre praticamente todas as moedas; por exemplo, é importante lembrar que a taxa de câmbio brasileira chegou à cotação de R$ 1,53/US$ em julho de 2011. De qualquer forma, a resposta da autoridade monetária chinesa foi permitir, novamente, uma leve e controlada apreciação da sua moeda por meio de uma sistemática compra de dólares. Ao cabo deste processo, o yuan chegou à sua menor cotação (¥ 6,07/US$) em janeiro de 2014 e as reservas chinesas, ao seu maior volume: impressionantes US$ 3,8 trilhões.

RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA NORTE-AMERICANA: PRESSÃO POR DESVALORIZAÇÃO DA MOEDA CHINESA

Conforme os Estados Unidos se recuperavam, a economia norte-americana voltava a atrair capitais, que, por sua vez, deixavam, principalmente, as economias emergentes, entre elas a economia chinesa. Esse processo de saída de dólar da China voltando para os Estados Unidos criou uma pressão para que a autoridade chinesa permitisse uma desvalorização da sua moeda. À primeira vista, esta pressão por desvalorização do yuan parece ser algo positivo para os chineses, afinal pode conferir maior competitividade aos seus produtos no mercado internacional. Além disso, se se for levar em consideração o excesso de capacidade instalada da indústria chinesa que está ociosa, qualquer fonte de demanda para os seus produtos pode ser algo muito bem-vindo para a China.

Entretanto, desde então, o desafio chinês é fazer com que esse processo de desvalorização aconteça de forma controlada, o mais suave possível. Uma vez que os investidores tenham claro que a moeda de um país vá desvalorizar, todos os ativos precificados nesta moeda também tendem a desvalorizar. Como não faz muito sentido manter em seu balanço um ativo que vai desvalorizar, os agentes buscam vender esses ativos o quanto antes. Como vários agentes terão essa ideia ao mesmo tempo, pode haver uma saída de capital desordenada (em casos mais graves, essas saídas são chamadas de ataques especulativos). É justamente esse choque que a autoridade monetária chinesa quer evitar. Logo, o esforço atual da China é permitir uma desvalorização lenta e gradual do yuan, evitando uma saída desordenada de capitais.

ELEIÇÃO DE DONALD TRUMP: PRESSÃO AINDA MAIOR POR DESVALORIZAÇÃO DA MOEDA CHINESA

Esse processo de desvalorização lenta e gradual foi mantido sem grandes turbulências até julho de 2015, quando ficou claro que o Fed iria aumentar a taxa de juros dos Estados Unidos. Como este aumento tornaria os ativos norte-americanos mais atraentes, a pressão por saída de capital da China aumentou desde então. Enquanto, em julho de 2015, a taxa de câmbio chinesa estava em ¥ 6,19/US$; ao final de 2016, chegou a ¥ 6,90/US$. Para tornar esse processo de desvalorização mais suave, desde 2015 o Banco Central chinês já queimou quase US$ 850 bilhões das suas reservas, chegando a US$ 3,01 trilhões em dezembro de 2016. Apenas para se ter uma referência, atualmente as reservas brasileiras estão em US$ 360 bilhões, ou seja, apenas para permitir uma desvalorização mais suave da sua moeda, os chineses já queimaram mais do que o dobro das reservas brasileiras!

Política cambial chinesa

Na realidade, essa pressão por desvalorização da moeda chinesa tem se intensificado ainda mais desde que Donald Trump venceu as eleições norte-
americanas. Como o novo presidente norte-americano prometeu, de um lado, aumentar as barreiras tarifárias contra os produtos chineses e, de outro, fazer uma política fiscal expansionista (aumento dos gastos do governo e redução de impostos), provavelmente a inflação deve acelerar ainda mais nos Estados Unidos. Diante disso, o Fed já sinalizou que poderá elevar a taxa de juros de forma mais rápida e intensa do que inicialmente previsto. Com uma taxa de juros maior, os títulos norte-americanos ficam mais atraentes e pressionam uma saída de capital ainda mais intensa de outros mercados, inclusive do mercado chinês, pressionando o yuan por uma desvalorização maior.

COMO ESSA TURBULÊNCIA IMPACTA O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO?

Infelizmente, ainda não está claro quais podem ser os desdobramentos dessa migração de capitais e da consequente desvalorização do yuan para o agronegócio brasileiro:

- Por um lado, como, em geral, o Brasil exporta para os chineses bens em que eles não conseguem ser autossuficientes, mesmo que o produto brasileiro fique mais caro por lá, não deve haver contração no volume exportado.

- Embora a China tenha apresentado notícias bastante animadoras – principalmente no seu setor industrial –, instabilidade no mercado cambial chinês pode fazer com que o mercado passe a avaliar de forma mais cautelosa empresas e setores cuja receita dependa dos mercados chineses. Esse é justamente o caso de diversas cadeias do nosso agronegócio.

- Por fim, ainda não está claro qual será a reação da China caso - Trump- cumpra a promessa de elevar as tarifas de importação para os produtos chineses. Por um lado, esta reação pode levar a uma substituição dos produtos norte-americanos por produtos brasileiros, o que seria positivo; - porém, por outro, pode levar a uma desaceleração da economia chinesa, o que traria um crescimento também mais desacelerado da demanda chinesa por produtos brasileiros.

Enfim, embora não esteja claro como essas turbulências entre Estados Unidos e China podem afetar o nosso agronegócio, o setor precisa permanecer atento. Parece que o lado político será uma grande fonte de instabilidade para a economia em 2017.