Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Valorizar a ciência

Fevereiro de 2018

VEIO À tona, nas últimas semanas, um instigante debate sobre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tratando de temas delicados, desde o “envelhecimento" da importante instituição até a falta de recursos financeiros para que ela cumpra a contento a sua nobre missão de conferir competitividade aos produtores rurais brasileiros por meio de inovações tecnológicas calcadas em sustentabilidade no seu conceito mais abrangente.

Ninguém tem a menor dúvida da extraordinária contribuição dada pela Embrapa para os avanços do nosso setor rural. Nos últimos 45 anos, desde a sua criação, o Brasil passou de importador de alimentos a um dos maiores exportadores do mundo, com um claro benefício para os nossos consumidores, que foi a redução do custo da alimentação.

Só este resultado justifica a fama internacional de que goza a Embrapa, e seus pesquisadores e funcionários merecem a máxima gratidão de todos os brasileiros, e não apenas dos produtores rurais.

Por outro lado, também é evidente que os novos patamares de produtividade alcançados – somados às mudanças de comportamento de consumidores do mundo todo quanto à qualidade da alimentação e às espetaculares inovações tecnológicas que vêm surgindo e que afetarão profundamente os sistemas de produção rural integrada, inclusive quanto à gestão – exigem o revigoramento dos esforços da Embrapa, bem como de todo o aparato institucional gerador e difusor de tecnologias, público e privado, nos âmbitos federal, estadual e, até mesmo, municipal.

Até porque, se há dúvidas quanto à eficiência daquela renomada empresa, muito mais inquietante é o estado de outros organismos similares e muito mais antigos que também prestaram contribuição historicamente fundamental para o sucesso do nosso agro. Que dizer do mais do que centenário Instituto Agronômico (IAC), do Instituto Biológico (IB), do Instituto de Pesca (IP), do Instituto Florestal (IF), do Instituto de Zootecnia (IZ) e do Instituto de Economia Agrícola (IEA)? Todos estes mais as universidades de Ciências Agrárias deram a sua significativa parcela para os saltos que hoje celebramos. E todos estão em situação tão difícil, senão pior, quanto à da Embrapa. As três universidades estaduais paulistas gastaram com folha de pagamento, de janeiro a novembro do ano passado, mais de 97% dos recursos que receberam de repasse do estado. Isso é bem mais do que os 90% que a Embrapa gastou do seu orçamento com a folha! Portanto, o problema real está no descaso dos governos com a ciência e a tecnologia.

É claro que sempre se pode fazer ajustes que reduzam despesas administrativas para que sobre mais para a pesquisa e o desenvolvimento. E em todas as instituições. A Embrapa ou qualquer outra poderia simplificar processos para reduzir a burocracia, desconcentrar a gestão, dando mais autonomia para as unidades descentralizadas em função das prioridades de cada uma; os projetos de pesquisa seriam aprovados por seu mérito; e seria criado um mecanismo permanente de aproximação com a sociedade rural e os produtores. Também se deveria definir quais áreas seriam prioritárias para a pesquisa pública, considerando o que o setor privado já faz. Enfim, sempre se pode melhorar. Mas, nem sempre quem está jogando o jogo, por mais craque que seja, consegue enxergar todo o estádio. E, por isso, poderia ser bem-vinda uma avaliação contemporânea da estrutura, da estratégia e dos métodos da instituição, feita por consultoria independente e externa. Isso poderia ser feito na Embrapa e nos demais institutos todos, e sempre com a missão de inovar para garantir a competitividade dos produtores com sustentabilidade.

Mas, é claro que o problema não está na Embrapa apenas, ou em qualquer outra entidade. O que falta mesmo é visão aos governos. Falta a convicção de que nenhum país consegue evoluir sem ciência, sem inovação, sem tecnologia, sem adaptação aos tempos que trazem mudanças profundas todos os dias. É só olhar o mundo ao redor: quem cresceu com firmeza e consistentemente? Quem investiu em educação e, por conseguinte, em pesquisa e desenvolvimento (P&D)?

Quando será que nossos governantes compreenderão isso? Este é um ano de eleições. Devemos enfiar na cabeça de todos os candidatos que o único legado que deixarão para a eternidade, se eleitos, será um povo mais educado, com maior espírito cívico, com mais compromisso com a nação, e isso se traduzirá em valorização da Ciência e dos nossos organismos de P&D. Para o agro e, também, para os demais setores.