Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Adélia Franceschini

A integração das mulheres no agronegócio

Abril de 2017

Adélia Franceschini, Formada em sociologia e política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e pós-graduada em marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV)

O agronegócio envolve uma gama de atividades na economia brasileira; existem as empresas de insumos e máquinas, as fazendas, as indústrias de processamento e a distribuição. Em todas estas áreas, a figura da mulher, hoje, se faz presente com menor ou maior força. O 1º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio tratou desse interessante assunto com base na pesquisa encomendada pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) – em especial, por meio do seu Instituto de Estudo do Agronegócio (IEAg) –, realizada pela Fran6 Pesquisa e patrocinada e viabilizada pelo Transamerica Expo Center e pela PricewaterhouseCoopers (PwC) Brasil. A entrevistada presta serviços na área de pesquisa de mercado, tendo sido presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e vice-presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP).

AGROANALYSIS: HÁ UMA CONTEXTUALIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO FEMININA NO AGRONEGÓCIO?

ADÉLIA FRANCESCHINI: Temos vários indicadores atuais para aferir o grau atual de atuação das mulheres no agronegócio. Dados governamentais divulgados pelo extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em 2014 apontam a existência de 95 Comitês Femininos. Nos empréstimos rurais, a participação da mulher é da ordem de 25%. Nos cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), cresce a proporção de mulheres entre os presentes inscritos: no estado do Rio Grande Sul, o sexo feminino já perfaz metade das vagas. Na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz" (Esalq), também 50% dos estudantes formados são alunas. As cooperativas recebem cada vez mais cooperadas. Outros exemplos podem ser citados.

Na verdade, o agronegócio não se diferencia de outros tantos mercados. A constatação geral é de que a mulher alcança atividades impensáveis décadas atrás: de astronauta a presidenta, nas Ciências e no ensino, na finança e na administração, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. A surpresa é maior tendo em vista não termos uma visibilidade dessa atuação feminina. Sabemos que o agronegócio no País ainda tem como muito forte a figura do homem à frente das atividades do negócio. Mas, apesar de serem exceções à regra, algumas mulheres no passado tiveram papel importante na direção de algumas fazendas.

QUAL É A ABRANGÊNCIA DO LEVANTAMENTO?

AF: O último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2006, apontava 656 mil propriedades dirigidas ou em cogestão por mulheres, quase 13% de um total de pouco mais de 5 milhões. Não se tem um cadastro dos proprietários rurais para se utilizar exclusivamente com a finalidade de gênero na gestão de empreendimentos rurais. Recorremos às fontes governamentais, mas não conseguimos ter sucesso. Então, recorremos às federações estaduais da agropecuária, às associações rurais e às cooperativas para obtermos contato com as gestoras de empreendimentos rurais.

A busca para entender o perfil da produtora brasileira é inédita. O estudo procurou reproduzir a dinâmica nacional, com maior presença da mulher na produção de grãos, principalmente na soja, com 48%; no milho, com 42%; em hortifrúti, com 31%; e, no arroz, com 13%. Por atividade, 42% delas atuam na agricultura; 25% na pecuária; 34% na bovinocultura; 20% na agropecuária; e 13% na agroindústria.

EXISTE UMA METODOLOGIA QUANTITATIVA?

AF: Na fase quantitativa da pesquisa, cada entrevistada era convidada a nos fornecer indicações de outras colegas para responderem os questionários aplicados via telefone ou web. Formamos uma bola de neve cujo tempo para surtir efeito demora. Ao todo, 301 mulheres responderam aos questionários na condição de gestoras de atividades produtivas, dividindo ou não o comando com mais alguém. Entre elas, 60% revelaram ter curso superior e 24%, pós-graduação.

A fase qualitativa foi feita para entender melhor as mulheres classificadas como lideranças, que já aparecem na mídia, contando com nove entrevistadas. Tínhamos cerca de três meses para realizar a coleta de modo a contemplar as mais importantes culturas e criações da agropecuária. A busca foi muito intensa, e contamos com um grupo importante de apoio.

TEMOS INDICADORES SOBRE A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NAS ENTIDADES?

AF: Muito interessante foi constatarmos a característica altamente gregária das gestoras entrevistadas. Apenas 17% delas não participam de uma associação, um sindicato ou um comitê. Nessa busca, utilizamos muito o caminho das entidades organizadas para chegar às mulheres, e isso se evidenciou no resultado do estudo. Conseguimos alcançar as culturas de alta relevância e todos os estados fortes do agronegócio.

Existe uma limitação técnica e de tempo para realizar a coleta. Optamos por aplicar a entrevista por telefone ou web. Encontramos gargalos nas regiões Norte e Nordeste, onde estes recursos não são amplamente disponíveis na área rural. Como em torno de metade das propriedades rurais está localizada no Nordeste, provavelmente as mulheres também tenham esse papel de gestoras. Mas, essa avaliação requer uma coleta cara e de largo espaço de tempo. Muitas das mulheres indicadas pelas cooperativas, por exemplo, não tinham telefone em suas propriedades e ficaram com baixa participação na nossa pesquisa.

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE, O PAPEL MUDOU?

AF: As mulheres sempre trabalharam muito nas propriedades rurais, seja como donas ou empregadas. No passado, era comum dirigirem várias atividades. Nessa época, a família toda morava no campo. A mulher herdeira dificilmente tocava uma fazenda. Essa função era, muitas vezes, assumida pelo marido ou por um parente mais próximo, senão a propriedade era até vendida. Nas entrevistas, detectamos as mulheres nas cabeças da gestão da propriedade herdada, muitas das quais preparadas para desempenhar esse papel de gestora.

EXISTEM PONTOS DE ATRAÇÃO PROFISSIONAL?

AF: Sim. Muitas mulheres olham as inovações tecnológicas no campo como uma excelente oportunidade, seja na agricultura, na pecuária ou na silvicultura. O resultado técnico e econômico da produção provoca orgulho tanto do ponto de vista de execução, como do de resultado. Tivemos o caso interessante de uma engenheira agrônoma que toca a sua própria propriedade e, também, mais duas pertencentes às suas tias, num modelo de governança muito interessante para os três lados.

Captamos quatro mudanças de tendências: a primeira é a de tocar o empreendimento; a segunda, de tirar o maior proveito do empreendimento: fazer da melhor maneira, com a participação de especialistas e consultores para estudar e aprender; a terceira, de testar e procurar o benefício de novas descobertas e inovações: buscar a ousadia; e a quarta, de incluir resultados positivos para a propriedade, o empregado, o município e o meio ambiente: fazer dar certo a gestão.

HÁ RELAÇÃO ENTRE ESTILO DE VIDA E POSICIONAMENTO INDIVIDUAL?

AF: Não estudamos muito o estilo de vida. Nesse primeiro estudo, estávamos mais focados em como seria a gestão feminina no negócio rural. Tivemos condições de medir que, apesar de termos dois terços de gestoras casadas na nossa amostra, apenas 12% relatam dependência financeira do companheiro. Frente à exigência de deslocamentos para administrar vários empreendimentos rurais em locais às vezes distantes, muitas mulheres ressentem-se mais da solidão, pois relatam dificuldades em manter um relacionamento estável com tantas viagens.

Além disso, aproximadamente 60% das entrevistadas responderam que as demandas do trabalho no campo não interferem na vida pessoal. Outro dado comportamental interessante foi o lado otimista das mulheres atuantes no agronegócio em relação ao futuro. Na agricultura, esse percentual chega a 85%, enquanto, na pecuária, alcança a casa de 97%. Estas taxas superam em muito a média dos brasileiros, ao redor de 58%.

TEMOS RELATO DE OBSTÁCULOS?

AF: A pesquisa apontou, também, que 71% das entrevistadas já tiveram alguma experiência de discriminação na atividade pelo fato de ser mulher. Nesse aspecto, entre as principais dificuldades apontadas por elas, estão: não serem obedecidas pelos funcionários (43%); e resistência da família quando elas manifestam interesse pelo negócio (41%).

Há, inclusive, depoimentos de discriminação nas associações ligadas ao setor. Certamente, mais cedo ou mais tarde, elas conseguirão pleitear sua representação com mais força. Esse será um processo normal, mesmo com resistências. O agronegócio terá de conviver com a presença das figuras femininas em qualquer evento ou atividade de negócio.

Em relação ao uso de ferramentas da internet, 69% acessam a web todos os dias, enquanto, na população brasileira, esta taxa é de 48%. Além disso, 80% delas usam redes sociais.

O HORIZONTE PROFISSIONAL ESTÁ ABERTO PARA SER OCUPADO?

AF: Certamente o ambiente oferece potencial liberdade para essa ocupação. Um grande indicador, sem dúvida, é a presença de um número crescente de mulheres nas mais renomadas escolas de Ciência Agrárias. Nas empresas de insumos do agro, ou no varejo na ponta final do processo, quando registramos de forma estimativa, essa participação já beira os 30%. Essas áreas estavam fechadas no passado. Não é um espaço vazio como se fosse vácuo. A sua conquista ocorrerá como o foi em tantas categorias, e os indicadores demonstram isso também.

QUAIS SÃO AS RECOMENDAÇÕES PARA UMA PRÓXIMA PESQUISA?

AF: Já tínhamos consciência de que o tamanho do desafio era enorme e iria bem além dessa primeira proposta inicial. A divulgação da pesquisa provocou debates interessantes, com novos questionamentos. Analisaremos e partiremos dessa matéria-prima para nos aprofundarmos em alguns pontos. Certamente iremos expandir o levantamento em termos de regiões e subsetores do agronegócio, sejam nas atividades do campo, nas empresas ou nas instituições. A possibilidade de contarmos com os dados do Censo Agropecuário de 2017 nos traria grande subsídio.

Possuímos uma área vasta e produtiva para realizarmos um estudo de avaliação da sinergia dos homens e das mulheres no agro, tanto na complementação da atividade, como na aprendizagem mútua. O cenário é de instigação em temas como sustentabilidade, inovação tecnológica, bem-estar animal, integração lavoura-pecuária-floresta, entre outros. Existem pontos de preocupações e ações interessantes, como a governança da sucessão familiar nos negócios, em que as mulheres se consideram diferenciadas dos homens. Esse seria um aspecto de percepção ou não?