Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Diário de bordo

Bang-bang na roça

Abril de 2017

ROBERTO RODRIGUES - Colunista

ROBERTO RODRIGUES, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro)

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NA MINHA juventude – e lá vai um tempão bem decorrido –, eram frequentes os filmes de bang-bang. Grandes atores e atrizes brilhavam nas telonas, e havia quase sempre uma mensagem moralista: o mocinho ganhava no fim, depois de apanhar muito, e o bandido ia para a cadeia ou morria em algum duelo. Ficava claro que o crime não compensava.

Em geral, eram filmes americanos, em que se destacavam heróis como John Wayne, Gary Cooper, Randolph Scott, James Stewart, Burt Lancaster, Gregory Peck, Alan Ladd, Kirk Douglas, Charlton Heston, Dean Martin, Richard Widmark, Henry Fonda, Anthony Quinn, Rock Hudson, Steve McQueen, Charles Bronson, Burl Ives e, até mesmo, Frank Sinatra e Yul Brinner, entre tantos outros. Mas, também houve o período dos spaghetti western, nos quais brilharam Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Franco Nero. Era certo que as quadrilhas de malfeitores acabavam desbaratadas por um punhado de bons rapazes cujo líder “ficava” com a heroína da cidade no fim. E, mesmo que o mocinho morresse, seria por uma boa causa ou porque seu passado o condenava. E sua morte era gloriosa.

Hoje, esses filmes são bem mais raros, mais sofisticados, os personagens não são mais simples, ninguém é puramente bandido ou herói. As personalidades são dúbias, complexas, bem mais de acordo com a realidade humana. Não há mais o tipo bom-caráter ou o mau-caráter puro sangue.

A troco de que esse assunto é tratado na Agroanalysis, uma revista séria de economia rural?

Porque o campo brasileiro vive um verdadeiro bang-bang. Invasões de terra se sucedem, assaltos superbem organizados acontecem a todo instante, há notícias de fazendeiros assassinados em suas casas na roça – a bandidagem está solta. E onde estão os mocinhos? Onde está o Estado para cumprir um de seus papéis mais essenciais, que é garantir a segurança pública?

Recente matéria publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) informava que 40% das cidades do estado de São Paulo não têm delegados. Além disso, a matéria apontava que o desmantelamento da Polícia Civil é uma realidade, até em função da mudança das regras da aposentadoria de seus funcionários, que foi acelerada, sem falar em salários inadequados. Em outros estados, a situação não está muito melhor. Qual é o problema? Simples: quem investiga crimes e sua autoria é a Polícia Civil; sem ela, os crimes vão se multiplicando sem solução e a barbárie se instala. Surgem quadrilhas organizadas que têm informantes que sabem quais insumos chegaram onde e quando. E quanto valem. Já a Polícia Militar cuida do policiamento ostensivo, preventivo, coisa muito difícil de se fazer no campo.

É claro que a condição econômica do País tem contribuído para esse desmanche, mas não é possível que esse estado de coisas continue. A insegurança tem um viés delicado: os pais, preocupados com o bem-estar dos filhos, desestimulam-nos de ficarem na roça. Outra consequência pode ser a indesejável constituição de milícias privadas armadas, como já aconteceu em países vizinhos.

Por outro lado, as quadrilhas que roubam insumos e defensivos agrícolas das fazendas e das revendas encontram receptadores e compradores dos produtos. Ou seja, o mau-caratismo também existe do lado de cá. Bang-bang em rede – moderno demais.