Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Reflexão

Carnaval, flores e frutas

Abril de 2017

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO - Colunista

LUIZ CARLOS CORRÊA CARVALHO, Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG)

Outros textos do colunista

Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente. Henfil


COMO TODO novo ano, no Brasil as coisas começam, de fato, após o carnaval. É como se fosse um vazio de decisões, sempre em pleno verão. Como faz a grande maioria dos brasileiros, desce-se a serra ao encontro do mar. Descendo, se vê o contraste do amarelo das sibipirunas com o arroxeado dos manacás, num festival lindo de flores. Isso leva a uma reflexão como a de Henfil e, inevitavelmente, à visualização da lógica do momento que vive o brasileiro hoje.

Enquanto isso, o agronegócio prepara-se para talvez um recorde na colheita dos frutos do seu esforço, sejam grãos, fibras ou outros. Isso gera um ambiente de esperança de uma recuperação mais rápida do País em 2017 (renda descentralizada, com mais empregos e impostos). A citada festa popular minimiza as notícias fortíssimas das últimas delações da operação Lava-Jato. Estas, como frutos apodrecidos gerados nas trevas, trazem um duplo sinal: após o carnaval, com as chuvas intensas de março, serão arrastados os frutos podres e o Brasil será outro país; o outro sinal é que, também após o carnaval, seguirá o sofrimento da luta entre o velho, desmoralizado, e o novo, a ser gerado.

Gerar o novo passa pelas fases de flores e frutos. É preciso polinizar, com abelhas, pássaros e ventos, os “óvulos" do bem, criando um novo momento, uma nova geração de pessoas que queiram contribuir para o Brasil. Trata-se do futuro positivo sendo construído no presente problemático, com a visão das oportunidades.

O agronegócio vive isso todo ano, assim como todo ano há o carnaval, em que as pessoas se divertem, descansam e se preparam para a volta ao trabalho. A soja, o milho, o algodão e o trigo, os capins que produzem fibras ou açúcar, as carnes, enfim, todos florescem e dão frutos, transformando-se em uma série de produtos que, literalmente, segura os problemas do Brasil.

Aliás, vale mencionar que os riscos da nossa democracia passam pelos riscos dos nossos políticos, mas, sem dúvida, a solução está no compromisso do povo para com ela. Seus frutos são complexos e dependem das instituições públicas, que, por sua vez, dependem dos políticos e dos tecnocratas. No entanto, na aridez de 2016, o valor do agronegócio despertou de forma definitiva na alma do brasileiro. A campanha da Globo salientando a importância do agro ao brasileiro será um divisor de águas.

Graças ao bom Deus, as flores e seus frutos, nas cadeias produtivas do agronegócio brasileiro, dependem do sol e do clima e, mesmo com as dificuldades políticas, dão segurança alimentar, reduzem importações, enchem os atacados e os varejos (derrubando a inflação), exportam excedentes e definem superávits na balança comercial brasileira.

Mais uma vez, o verde dos campos espalha-se nas cidades, alimentando esperanças e estômagos, gerando energias renováveis, sempre sob o olhar de sinergia da natureza com as ações do agricultor – extraordinária combinação de vida, em que o ser humano e os recursos físicos administram a luz do sol.

O que amedronta para 2017 e os próximos anos são a clara recaída política global para o populismo e o protecionismo e as contrárias posições de países ricos às imigrações. Nesse caso, talvez faça falta o carnaval.