Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

A carne brasileira é segura!

Abril de 2017

O BRASIL inteiro foi sacudido pela notícia da operação Carne Fraca, levada a cabo pela Polícia Federal (PF) para punir pessoas e frigoríficos envolvidos em atos de corrupção e práticas de produção inadequadas. O prejuízo imediato para uma cadeia produtiva que investiu muito para conquistar a competitividade e o reconhecimento atuais, exporta US$ 13,6 bilhões por ano e emprega 6 milhões de pessoas foi enorme. No momento do fechamento desta edição da Agroanalysis, vários países importadores estão suspendendo suas compras.

A corrupção deve ser combatida e as más empresas, punidas. Porém, a forma como a PF conduziu o assunto pareceu inadequada. Houve uma amplificação exagerada dos fatos, com erros de análise técnica (por exemplo, afirmando-se que havia papelão nos embutidos e que cabeça de porco não poderia ser utilizada) e a sugestão de que todo o setor estaria comprometido.

Agora, o Brasil terá muito trabalho para retomar as exportações e contornar os problemas ocasionados na cadeia de proteína animal. Nossa matéria de capa mostra a necessidade urgente da criação de uma agência para defesa sanitária para os produtos agropecuários.

O quadro conjuntural continua o mesmo: inflação em queda, sinal de crescimento econômico em 2017 e dólar comportado. O contexto político é incerto, com a própria base do governo Temer sendo alvo recorrente de denúncias de corrupção. Ao mesmo tempo, o espaço de manobras para aprovar as reformas é relativamente limitado, dados o horizonte finito deste governo e a ausência de uma convergência plena da sociedade com os temas envolvidos. O maior risco não está na própria economia, mas no universo político.

De forma geral, o mercado olha para 2017 com mais otimismo. De acordo com a pesquisa Focus do Banco Central, a expectativa sobre a economia é de um crescimento de 0,48% neste ano.

Os números oficiais indicam que a safra 2016/17 será grande. Esta notícia é boa, mas há alguns fatores que podem contrair a renda final obtida pelo agro: (i) com a valorização do real nos últimos meses, a produção pode ser vendida a um dólar mais baixo do que aquele considerado na compra dos insumos no início do plantio; (ii) com a queda do dólar e a safra volumosa, os preços de diversos produtos agropecuários têm registrado contração; e, (iii) mais uma vez, os problemas de infraestrutura prejudicam o escoamento e a armazenagem da safra, com impacto na rentabilidade efetiva da safra.

O cenário é favorável para o setor sucroalcooleiro. A expectativa para a safra 2017/18 é de preços firmes para o açúcar no mercado internacional, o que deverá dar suporte aos negócios internos. A preocupação novamente é com o câmbio. A recente queda na cotação do dólar em relação ao real pode diminuir a competitividade brasileira. Desde meados de 2014, a crise enfrentada pelo setor levou à seleção dos produtores e das usinas com melhor saúde financeira, o que trouxe maior segurança à cadeia produtiva sucroalcooleira. Essa conjuntura é boa para o arrendamento de terras à usina e, também, para quem produz e fornece cana.

A tecnologia digital chega ao campo como uma ferramenta promissora. Com GPS embarcado em máquinas e sensores espalhados nas áreas de produção, em tempo real, são captados dados sobre as condições microclimáticas, a capacidade nutricional dos solos e o estado sanitário das plantas. A profusão de dados gerados e espalhados em gigantescos bancos de dados cresce em volume exponencial. O desafio, agora, consiste em administrar os big data por meio de sistemas inteligentes que tragam ainda mais eficiência à agropecuária.

Na entrevista do mês, Adélia Franceschini comenta a pesquisa apresentada no 1º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio sobre o perfil da mulher do agronegócio. O agronegócio, efetivamente, não se diferencia de outros tantos mercados. A constatação geral é de que a mulher alcança atividades impensáveis décadas atrás.

Nosso Caderno Especial do mês trata do agronegócio do estado de São Paulo, com uma visão das cadeias produtivas e dos esforços para a agregação de valor.