Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Economia brasileira

Otimismo, mas no fio da navalha

Abril de 2017

EM MARÇO, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do ano passado. Infelizmente, os números deixaram claro que 2016 foi um ano duríssimo. Além de uma forte recessão (uma queda de 3,6% em comparação com 2015), a contração foi generalizada; todos os grandes setores econômicos encolheram. Embora os números de 2016 tenham sido bem amargos, é importante ressaltar que eles refletem o passado. Felizmente, as perspectivas para a economia brasileira em 2017 são mais animadoras. Há diversos sinais de que a retomada do crescimento aos poucos está se consolidando. Todavia, apesar desses sinais favoráveis, as turbulências do lado político podem colocar tudo a perder. Enfim, a economia brasileira está voltando a caminhar, porém ainda sobre o fio da navalha.

RECESSÃO PROFUNDA E GENERALIZADA

Os números do PIB divulgados no mês passado pelo IBGE deixaram claro que, em 2016, ninguém passou ileso pela crise; todos os três grandes setores econômicos encolheram: atividades agropecuárias (-6,6%), indústria (-3,8%) e serviços (-2,7%). Juntas, estas contrações explicam o tombo de -3,6% da economia brasileira no ano passado. Se for levada em consideração a queda de 3,8% da economia brasileira em 2015, tem-se que, nos dois últimos anos, a economia brasileira encolheu 7,2%, a maior queda acumulada que se tem registro na história nacional, devolvendo o País aos níveis de renda que a sociedade tinha gerado em 2010 – ou seja, em termos de crescimento econômico, jogamos seis anos na lata de lixo.

O ANO DE 2017 POSSIVELMENTE SERÁ BEM MELHOR

Apesar do tombo de 2016, o mercado tem visto 2017 com mais otimismo. De acordo com a mediana das projeções da pesquisa Focus do Banco Central, o mercado tem a expectativa de que a economia brasileira crescerá 0,48% neste ano. Embora esse número possa parecer bastante tímido, na realidade há dentro dele uma perspectiva de recuperação econômica bastante razoável. Para enxergar essa dinâmica, é necessário desagregar o crescimento projetado para 2017 ao longo dos seus trimestres.

Economia brasileira

No último trimestre de 2016, a economia brasileira encolheu 2,5% (em comparação com o trimestre anterior). Infelizmente, de acordo com a mediana das projeções do mercado, a economia deverá ter contraído 1,1% no primeiro trimestre deste ano. E, caso essa projeção se confirme, o Brasil terá registrado o mais longo período em recessão da sua história: nove trimestres consecutivos. Segundo as mesmas projeções, a economia interromperá esta sequência de quedas apenas no segundo trimestre, quando devemos registrar uma estagnação.

Dado que dificilmente a economia brasileira conseguirá crescer no primeiro semestre, a projeção de expansão de 0,48% ao final de 2017 implica um crescimento de 1,00% no terceiro trimestre e de 1,80% no quarto trimestre. Em outras palavras, se as projeções apresentadas se concretizarem, o crescimento de 0,48% de 2017 significa que a economia brasileira se expandirá a quase 2,00% no final do ano – um ritmo de crescimento que não é desprezível, dados os desarranjos acumulados pelo menos desde 2010.

É importante notar que esse ritmo de expansão mais forte ao final do ano deve ser observado em todos os setores econômicos. De acordo com a mediana das projeções do mercado, no final do quarto trimestre as atividades agropecuárias crescerão a 4,3%, a indústria, a 3,5%, e o setor de serviços, a 1,7%. Ou seja, caso estas projeções (ou algo próximo delas) se concretizem, ao final de 2017 a economia brasileira operará em uma situação bem melhor do que a que temos hoje.

A PRINCIPAL FONTE DE RISCO PARA A ECONOMIA EM 2017 ESTÁ DO LADO POLÍTICO

O avanço da agenda de reformas implementadas ou propostas pelo Governo responde por parte importante da recuperação da economia em 2017. Entre essas medidas, merecem destaque as Propostas de Emenda Constitucional (PECs) do Teto dos Gastos e da Desvinculação de Receitas da União (DRU), a renegociação das dívidas dos governos estaduais, as mudanças nos setores elétrico e de óleo e gás, as alterações nos modelos de concessões de ferrovias e aeroportos, bem como a expectativa de aprovação das reformas trabalhista e da previdência. A continuidade desta agenda de reformas depende do poder de coordenação do governo federal junto ao Legislativo. Essa capacidade de articulação pode esvaziar-se rapidamente dependendo de quão ferido o Palácio do Planalto sair com os desdobramentos das diversas investigações de combate à corrupção em curso no País. O maior risco à recuperação econômica não está na própria economia, mas no universo político.

COMO SERÁ A RENTABILIDADE DO SETOR COM A SAFRA RECORDE?

Os números oficiais (como, por exemplo, os da Companhia Nacional de Abastecimento – Conab) indicam que a safra 2016/17 deve ser grande. Sem dúvidas, esta é uma ótima notícia, pois implica um volume razoável de exportações e divisas, maior oferta de alimentos e pressão baixista sobre a inflação, além de uma injeção de dinamismo na economia no interior do País (e já no primeiro semestre!). Todavia, em termos líquidos quanto dessa renda gerada efetivamente ficará com o setor?

Infelizmente, já são observados alguns fatores que podem contrair a renda final obtida pelo universo agro:

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- Taxa de câmbio: ao longo dos últimos meses, o real se valorizou. Isso significa que o setor pode ter que vender sua produção com um dólar mais barato do que aquele com que ele - contratou seus custos de produção no início do plantio. Embora ainda haja muita incerteza com relação à trajetória do dólar, não está no cenário mais provável que, no final do primeiro semestre, a taxa de câmbio volte para R$ 3,42/US$, valor observado em junho do ano passado.

- Preço recebido pelo produtor: devido à queda da taxa de câmbio e à safra volumosa, os preços de diversos produtos agropecuários têm registrado contrações. Por exemplo, entre dezembro de 2016 e a segunda semana de março deste ano, os preços de soja, milho, café, trigo e açúcar registraram quedas de, respectivamente, 10,6%, 20,1%, 3,7%, 5,0% e 11,3%.

- Problemas de infraestrutura: dada a precariedade da infraestrutura disponível no País para o escoamento e a armazenagem da grande safra produzida, não está claro qual será a rentabilidade efetiva dessa safra para o setor. A situação pode ficar ainda menos favorável se as chuvas excessivas persistirem em algumas regiões do País.