Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

BREXIT

O tiro pode sair pela culatra para os agricultores britânicos

Abril de 2017

DENTRE OS diversos setores que apoiaram o Brexit, o setor agrícola destacou-se como um dos maiores entusiastas da iniciativa. A promessa de menor concorrência de outros países-membros da União Europeia (UE), somada à menor intervenção externa, parece ter seduzido os agricultores britânicos. Mas, pelo jeito, eles não contavam com o fato de que a saída da Comunidade Europeia traria diversas dificuldades para produzir e comercializar seus produtos.

Inicialmente, o elevado nível educacional dos trabalhadores britânicos torna escassa a mão de obra para trabalhos mais manuais e com remuneração inferior a outros setores, como o de Serviços, que representa o maior empregador do Reino Unido. Outra característica do setor agrícola, a sazonalidade, torna-o ainda menos atraente para trabalhadores, que buscam colocações mais estáveis.

Apesar de a agricultura britânica ser uma das mais mecanizadas do mundo, ainda restam atividades que não podem ser substituídas por máquinas, especialmente nos setores de frutas e verduras. A colheita destes produtos está fortemente apoiada em trabalhadores estrangeiros, sendo parte considerável de outros países da UE. Estimativas apontam que anualmente são recrutados 85 mil trabalhadores de nacionalidade não britânica. Mesmo a agroindústria ainda depende substancialmente de trabalhadores estrangeiros. Dos 400 mil trabalhadores do setor, estima-se que 120 mil sejam imigrantes de outros países europeus.

De forma a contornar o problema criado pela saída da UE, associações de representação do setor propuseram o retorno de um sistema de imigração temporária que foi utilizado até 2013. O sistema de trabalhadores temporários na agricultura permitia que trabalhadores europeus e não europeus recebessem um visto temporário nos períodos de safra. Contudo, a atual secretária da Agricultura e grande defensora do Brexit, Andrea Leadsom, não se manifestou como favorável à proposta.

A mudança na política externa britânica traz, ainda, outras inseguranças aos agricultores. Dado que o Reino Unido é um grande exportador de serviços, como nos setores bancário e de manufaturas, não seria de se estranhar que o acesso ao mercado de alimentos britânico fosse oferecido como uma moeda de troca nos acordos comerciais que serão estabelecidos nos próximos anos. Assim, até o benefício de um mercado cativo no Reino Unido se perderia.

Por fim, há o receio de que a saída da UE resulte na perda de mercados para agricultores britânicos em outros países-membros do bloco. Este ainda é o principal mercado de exportação da agricultura britânica, apesar de parcerias com outros países terem se desenvolvido nos últimos anos.

Com todos os riscos somados, fica difícil entender o apoio majoritário dos agricultores britânicos ao Brexit. Talvez, a difícil convivência com os demais agricultores europeus e a forte regulação exercida pelo bloco no setor tenham levado a essa oposição. Contudo, aqueles agricultores já devem estar se questionando se um futuro fora do bloco europeu é realmente vantajoso para o setor.